Capítulo 8

754 Palavras
A viagem para a Flórida veio em boa hora. O pretexto era a consolidação de um novo polo de data centers em Miami, uma operação bilionária que exigia minha presença física para assinar as licenças ambientais e os contratos de infraestrutura. Eu precisava do calor de Miami, do barulho das ondas e, principalmente, de quilômetros de distância das ruas escuras de Manhattan. Eu me joguei no trabalho com uma ferocidade quase doentia. Durante o dia, minha cabeça estava enterrada em plantas técnicas e projeções de fluxo de dados. Era um alívio ser apenas o CEO, o homem que decide o futuro da tecnologia, e não o homem que brocha em sofás de seda. No entanto, o destino parece ter um senso de humor distorcido. No segundo dia, durante um coquetel de negócios no Vizcaya Museum, meus olhos travaram. Do outro lado do pátio, ostentando um terno de linho claro e um sorriso cínico, estava Alexander White. Alexander era o elo que eu mais tentava ignorar. Ele estava lá naquela tarde, treze anos atrás. Ele foi um dos que riram, um dos que incentivaram, um dos que entraram no prédio abandonado comigo. Nós nos afastamos com o tempo, a culpa mútua é um veneno para qualquer amizade, mas o mundo corporativo é pequeno demais. Nossas famílias ainda faziam negócios, e eu não podia simplesmente ignorá-lo sem causar um incidente diplomático entre as empresas. Vê-lo trouxe uma onda de ódio que quase me fez perder a compostura. Olhar para o rosto de Alexander era como olhar para uma versão espelhada da minha própria covardia. Por anos, tentei colocar toda a culpa nele, transformá-lo no vilão que me arrastou para aquele esqueleto de concreto. Mas, enquanto bebia meu uísque puro, a verdade era amarga: eu fui porque quis. Eu fiquei porque quis. Eu participei porque queria provar algo que hoje eu desprezo. ... As noites na Flórida foram regadas a doses excessivas de uísque caro. Eu tentava apagar o rosto de Kyle da minha mente, mas o álcool só tornava as cores mais vivas. Eu me pegava pensando: O que ele queria ser? Antes de ser destruído, Kyle tinha sonhos? Ele queria ser médico, engenheiro, um artista? Onde terminava o garoto e onde começava o viciado que vendia o corpo por dez dólares? A resposta era uma ferida aberta: a carreira dele terminou antes mesmo de começar, em um prédio abandonado, por nossa causa. Quando o jato particular pousou de volta em Nova York, a cidade que eu antes chamava de império agora parecia um labirinto sufocante. O ar carregado de fumaça e o barulho incessante das buzinas pareciam apertar meu peito. A névoa de Kyle estava em todo lugar. Saí do aeroporto direto para o banco traseiro do carro, sentindo o peso do meu sobrenome esmagar meus ombros. Eu não conseguia mais respirar. — Sarah. Chamei pelo interfone assim que entrei na empresa, minha voz saindo mais ríspida do que o pretendido. — Sim, senhor Vance? — Entre em contato com a clínica da Dra. Evelyn Li. Ela é a melhor terapeuta comportamental do país. Eu quero uma consulta com ela. Hoje. Não importa o que você tenha que desmarcar ou quanto tenha que pagar para abrir um horário. Eu preciso dessa consulta ainda hoje. — Farei isso agora mesmo, senhor. Eu desliguei o aparelho e encostei a cabeça na poltrona. O dinheiro podia comprar o tempo de uma terapeuta renomada, mas eu sabia, no fundo do meu ser, que nenhuma análise ou medicação poderia consertar o que Kyle tinha quebrado em mim. Ou o que eu tinha quebrado nele. Eu sabia que talvez fosse perda de tempo. Já havia passado por consultórios impecáveis antes, despejando meias verdades para profissionais que sorriam com empatia profissional enquanto eu escondia o núcleo da minha podridão. Mas desta vez era diferente. O peso do reencontro com Kyle tinha rompido a represa que eu construí por treze anos, e a pressão interna estava prestes a explodir. Eu precisava de alguém que não conhecesse o "Aidan Vance das colunas sociais". Queria uma terapeuta nova, um olhar estrangeiro que pudesse ouvir minha história desde o início, sem filtros ou omissões. Eu precisava dizer em voz alta, por mais uma vez, o que aconteceu naquele prédio abandonado, não como uma confissão religiosa, mas como um grito de socorro. Mesmo que a terapia não me curasse de verdade, eu esperava que, ao entregar a verdade para outra pessoa novamente, o fantasma de Kyle desse ao menos um minuto de paz à minha mente exausta.
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