Capítulo 9

735 Palavras
O consultório da Dra. Li era um vácuo de silêncio no coração ruidoso de Manhattan. O cheiro de chá verde parecia purificar o ar, mas não era suficiente para limpar o gosto amargo que subia pela minha garganta. Eu encarei minhas mãos, sentindo o peso do anel de sinete, e comecei a desenterrar o que estava sepultado há treze anos. — Tudo começou em uma tarde comum, logo após as aulas. Eu tinha quinze anos. Éramos três: eu, Jason e o Alexander. Éramos garotos privilegiados, estudávamos em um dos colégios particulares mais caros da cidade. Tínhamos o mundo aos nossos pés, mas éramos movidos por aquele tipo de tédio c***l que só a classe média alta consegue produzir. Fiz uma pausa, buscando fôlego. A Dra. Li apenas assentiu, incentivando-me com o olhar. — O Alexander sempre foi o líder, o mais rebelde e, de longe, o mais perspicaz. Ele nos arrastou para uma rua esquecida, no limite do bairro vizinho, dizendo que sabia de algo interessante. Um garoto estava morando em uma barraca improvisada dentro de um daqueles prédios abandonados, cujas estruturas eram apenas esqueletos de concreto e ferro. Alexander sabia detalhes que eu e Jason ignorávamos, o garoto tinha sido expulso de casa pela mãe e pelo padrasto. O crime dele? Ter sido pego com outro garoto no quarto. Soltei um riso seco, desprovido de humor. — O Alexander falava daquilo como se fosse um espetáculo de horrores. Fomos até lá por curiosidade mórbida. Quando entramos, o garoto estava lá, perto de uma barraca montada,encolhido. Ele parecia um bicho acuado. Alexander não perdeu tempo; começou a disparar insultos, a humilhá-lo. Eu e Jason ficamos apenas observando, rindo nervosamente, achando que era apenas mais uma diversão de adolescente. Mas a atmosfera mudou aos poucos... ela se tornou densa, perigosa. Fechei os olhos e a imagem de Kyle surgiu com uma nitidez dolorosa. — Ele se apresentou como Kyle quando Alexander o forçou a isso. Tinha uma beleza genuína, quase angelical, que contrastava com a sujeira do lugar. Cabelos pretos, lisos, e aqueles olhos verdes... tão intensos que pareciam queimar. Alexander, que era o maior e mais forte de nós começou a intimidá-lo. Ele o chamava de "bichinha", dizia que ele devia ser um depravado. Foi então que ele exigiu que eu desse um passo à frente. Senti o suor frio brotar na minha nuca. — Alexander segurou o rosto de Kyle com violência e ordenou que eu abrisse meu zíper. Ele queria que o garoto fizesse um oral em mim. Eu congelei. O medo e a curiosidade se misturaram de um jeito doentio, e eu já sentia meu corpo reagir, ficando duro sob o olhar c***l dos meus amigos. Alexander riu, uma gargalhada que ainda ecoa nos meus pesadelos, e forçou Kyle a se ajoelhar, segurando seus braços com força enquanto Jason ajudava a imobilizá-lo. Eles o ameaçavam de morte se ele tentasse morder ou resistir. Abaixei a cabeça, a vergonha queimando minhas bochechas. — Ele fez tudo. Com uma perfeição que me apavorou. Eu odiei o fato de ter gostado tanto, de ter sentido aquele prazer proibido subindo pela espinha enquanto ele era obrigado a engolir tudo. Mas quando acabou e eu olhei para ele... eu vi a alma dele se estilhaçando. Aquela tristeza profunda nos olhos verdes me fez sentir como o lixo que eu realmente era. Respirei fundo, sentindo o peito apertar ao chegar na parte mais sombria. — Mas não parou ali. Alexander e Jason estavam excitados com o que tinham presenciado. Eles o jogaram de bruços no chão frio e baixaram as calças dele. Eu sabia exatamente o que viria a seguir. A covardia me venceu. Eu não consegui ficar para assistir, mas também não fiz nada para impedir. Corri para o fundo do galpão, escondendo-me entre as sombras enquanto subia meu zíper. De onde eu estava, conseguia ouvir os gritos abafados de Kyle, as súplicas para que parassem... e depois, apenas o silêncio quebrado pelo choro dele. Olhei para a Dra. Li, que permanecia impassível. — Eles saíram de lá algum tempo depois, limpando as mãos como se tivessem apenas terminado um jogo de futebol. Eu caminhei de volta e vi Kyle sentado no chão, abraçado aos joelhos, soluçando baixo. Alexander apenas nos olhou e exigiu silêncio absoluto. "Nunca mais falem sobre isso", ele disse. E eu obedeci. Enterrei aquele dia, mas Kyle... ele nunca saiu da minha memória.
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