A Dra. Li manteve o olhar fixo no meu, sem julgar, apenas esperando. O silêncio no consultório parecia uma entidade viva, pesada, pronta para absorver o que eu estava prestes a expelir.
— Eu não era um monstro quando comecei.
Minha voz saiu como um sussurro seco.
— Eu era apenas um garoto rico, entediado e desesperado para pertencer ao grupo dos "fortes". Alexander, Jason e outros... nós achávamos que o mundo era nosso playground. E o Kyle... ele era apenas um garoto que cruzou nosso caminho na hora errada.
A narrativa fluiu de mim como um veneno que eu guardava no estômago há mais de uma década. Descrevi o prédio abandonado, o cheiro de mofo e poeira, e a forma como a brincadeira de mau gosto escalou para algo sombrio e violento.
Contei a mais alguém sobre a primeira vez que Kyle foi forçado a nos servir, e como, naquele dia, algo em mim se rompeu e se ligou a ele de uma forma doentia.
— Eu o destruí, doutora. Nós o destruímos. E a ironia mais c***l é que, ao fazer isso, eu condenei meu próprio corpo. Desde aquele dia, eu nunca mais consegui sentir nada com ninguém. Eu performo, eu dou o melhor show para as mulheres que saem comigo, mas por dentro... eu sou morto.
Falei sobre o reencontro na calçada, sobre os dez dólares, a abstinência dele e o choque de ter tido, em um carro luxuoso com um viciado quebrado, o único momento de vida real em treze anos.
A Dra. Li anotou algo em silêncio.
Ela então me observou em um silêncio que parecia durar uma eternidade. Ela não anotou nada naquele momento, apenas descruzou as pernas e se inclinou na minha direção, o rosto sereno contrastando com a tempestade que eu acabara de liberar na sala.
Eu me sentia exposto, como se o terno de três peças tivesse sido arrancado, deixando apenas o garoto covarde de treze anos atrás à mercê do seu julgamento.
— Aidan.
Ela começou, a voz calma como um bisturi.
— Você passou treze anos construindo um império de vidro para esconder um porão escuro. O que você me descreveu não é apenas um erro de juventude. É uma fratura psíquica.
Eu desviei o olhar para a janela, onde o sol começava a se pôr sobre o Hudson.
— O motivo de você só sentir prazer com esse rapaz, com o Kyle, não é um defeito biológico.
Continuou ela, implacável.
— É o seu inconsciente punindo você e, ao mesmo tempo, buscando a única pessoa que "sobreviveu" à sua pior versão. Para o seu cérebro, o prazer se fundiu ao trauma. Você só se sente vivo perto dele porque ele é a única testemunha da sua verdade. Com o Kyle, você não precisa fingir que é o "bilionário perfeito". Você pode ser o monstro que acredita que é. E essa honestidade brutal, Aidan, é a única coisa que te faz gozar.
As palavras dela me atingiram como um soco. Eu queria negar, queria dizer que era apenas uma obsessão física, mas a Dra. Li era boa demais.
— Meu conselho para você é um só: pare de tentar comprar sua consciência com notas de cinquenta dólares. Se você quer realmente sair desse deserto sensorial, precisa parar de ver o Kyle como uma ferramenta de prazer ou um objeto de pena. Você não pode curá-lo apenas para se sentir funcional novamente. Isso seria um segundo abuso.
Ela fez uma pausa, estudando minha reação. Eu não disse a ela que já tinha o endereço. Não disse que o plano de voltar àquele prédio decrépito já estava queimando na minha mente como um comando inevitável. Eu apenas ouvi, sentindo o peso da minha própria hipocrisia.
— Se você quer redenção, Aidan, terá que encarar o rastro de destruição que deixou sem esperar nada em troca. Nem mesmo o prazer.
— Eu entendo.
Menti, levantando-me e abotoando o paletó.
Agradeci pela sessão e saí da sala. Enquanto o elevador descia silenciosamente, as palavras dela ecoavam: "Você não pode curá-lo para se curar".
Mas, dentro de mim, a urgência falava mais alto que a ética. A Dra. Li achava que eu estava ali para buscar um caminho de volta à sanidade, mas eu só conseguia pensar no caminho de volta para Kyle.
Saí do prédio e entrei no carro. O motor roncou baixo, um som potente que combinava com a adrenalina que voltava a correr nas minhas veias. Voltei ao meu escritório e terminei os trabalhos do dia. Mas minha mente divagava a cada novo segundo.
Eu precisava de uma distração hoje,mais do que nunca. Logo após o trabalho, eu seguiria direto para aquela boate de strippers.