Capítulo 11

739 Palavras
O som abafado das batidas de música eletrônica da boate de strippers ainda reverberava nos meus ouvidos quando a porta de metal pesado se fechou atrás de mim. A noite de Manhattan estava úmida, o asfalto brilhando sob a luz fraca de um poste que piscava, mas eu m*l conseguia focar a visão. O uísque que eu havia tomado lá dentro descia como fogo lento pelas minhas veias, entorpecendo meus sentidos e transformando meus passos em movimentos pesados e imprecisos. Caminhei em direção ao meu carro, estacionado propositalmente na mesma rua escura e afastada da última vez. Eu lutei. Juro que lutei contra cada instinto do meu corpo para não voltar aqui. Durante os últimos dias, as palavras da Dra. Li ecoavam na minha mente como um mantra de advertência: "Você não pode curá-lo para se curar". Ela tinha razão. Eu já havia arruinado a vida de Kyle treze anos atrás, transformá-lo no meu vício particular agora era apenas uma forma mais refinada de abuso. Eu havia decidido deixá-lo em paz, mesmo que esse vazio no meu peito estivesse me matando, mesmo que a frustração de não sentir nada com ninguém estivesse me enlouquecendo. Olhei ao redor enquanto tateava o bolso em busca das chaves. A rua parecia deserta. Um suspiro de alívio e decepção escapou dos meus lábios. "Ele não está aqui", pensei. "Ótimo. O destino está me dando uma saída". Eu me sentia um verdadeiro lixo. Estava ali, um homem que controla um império tecnológico, prestes a dirigir embriagado mais uma vez, infringindo a lei como se as regras não se aplicassem a quem tem dez dígitos na conta bancária. Eu era patético. Estendi a mão para puxar a maçaneta da Mercedes quando uma voz, arrastada e rouca, cortou o silêncio da noite. — Você gostou mesmo desse bar, né, bonitão? Meu coração deu um solavanco tão violento que o sangue subiu para as minhas têmporas, pulsando em uníssono com a minha respiração acelerada. Ergui os olhos e, no fundo do beco, a silhueta dele se materializou. Kyle. Ele estava encostado em uma parede de tijolos, as mãos enterradas nos bolsos do moletom escuro e aberto, o capuz cobrindo parte do rosto como se fosse sua única proteção contra o mundo. Ele não fazia ideia do que eu tinha feito lá dentro. Ele não sabia que entrei naquela boate, recusei três abordagens de strippers deslumbrantes, ignorei o palco principal onde mulheres perfeitas se contorciam e me sentei no bar apenas para virar quatro doses de uísque puro em tempo recorde. Deixei uma gorjeta de cem dólares para a atendente sem sequer olhar nos olhos dela e saí, fugindo de um desejo que não pertencia àquele ambiente de luxo e neon. Engoli em seco, sentindo a tontura do álcool se misturar à adrenalina da sua presença. Dei um passo na direção dele, a distância diminuindo até que eu pudesse ver o brilho febril naqueles olhos verdes que ainda me assombravam. — Gostei mais do que encontrei aqui fora da última vez. Respondi, minha voz saindo mais profunda e carregada do que eu pretendia. Kyle soltou um risinho soprado, entendendo a deixa. Ele se desencostou da parede, movendo-se com aquela agitação característica de quem está entrando em abstinência. Suas mãos estavam inquietas, e ele parecia lutar para manter o foco em mim. Ele estava quebrado, visivelmente precisando de dinheiro para a próxima dose, mas ainda carregava aquela beleza corrompida que me deixava sem defesas. — Então... Ele começou, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse o cheiro de sua presença e frio que emanava dele. — Quer se divertir outra vez? O preço é o mesmo. Ou o que você quiser pagar. Eu deveria dizer não. Eu deveria entrar naquele carro, dar a partida e nunca mais olhar para trás. Eu deveria ouvir a voz da Dra. Li gritando que eu estava apenas alimentando um ciclo de autodestruição. Mas a verdade é que eu sou um egoísta. Eu sou um covarde que prefere o inferno familiar ao vazio de uma vida perfeita e sem cor. Eu sorri, um sorriso amargo voltado para a minha própria fraqueza. Eu não conseguia resistir. Eu queria aquilo mais do que qualquer outra coisa na vida. Nos últimos dias, cada minuto da minha existência foi pautado pela lembrança da boca de Kyle em torno do meu p*u, a única coisa que me fez sentir que eu não era um cadáver em um terno caro.
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