— Entra no carro.
Eu disse, a voz rouca de desejo e vergonha.
Abri a porta e ele deslizou para o banco do passageiro com uma agilidade mecânica. Eu entrei no lado do motorista, o cheiro dele preenchendo instantaneamente o interior luxuoso do carro.
O contraste era obsceno: o couro Nappa, o painel de fibra de carbono e, ao meu lado, um rapaz cujas roupas cheiravam a desespero e cuja vida eu ajudei a estilhaçar.
O silêncio no carro era tenso, carregado por uma expectativa elétrica. Kyle não perdeu tempo. Ele sabia o que eu queria, e ele precisava do que eu tinha no bolso.
Enquanto ele se inclinava na minha direção, minha mente teve um último flash daquele prédio abandonado, de Jason e Alexander rindo, do Kyle de quinze anos implorando por favor. O choque da memória se fundiu com o t***o presente, criando uma mistura explosiva que fez minhas mãos tremerem sobre o volante.
— Você parece bem tenso.
Ele murmurou, a mão fria subindo pela minha coxa, os dedos ágeis já buscando o botão da minha calça.
— Eu vou cuidar disso.
Fechei os olhos quando ouvi o som do zíper se abrindo. O mundo exterior desapareceu. A lei, a ética, o império Vance e o conselho da terapeuta... tudo foi engolido pela escuridão daquele banco de trás. Eu estava prestes a ter a única experiência real da minha vida adulta novamente, e o preço, eu sabia, seria muito maior do que os dólares que eu entregaria a ele no final.
Eu estava comprando minha alma de volta por alguns minutos, e Kyle, sem saber, era o meu único desejo naquele momento de perdição.
Eu o observei por um instante, a luz do painel do carro iluminando as olheiras profundas e a pele pálida que denunciavam seu estado. O interior da Mercedes parecia pequeno demais para a magnitude do que eu estava sentindo.
Fazer aquilo ali, no banco de couro, escondido em um beco como se estivéssemos cometendo um crime, o que, tecnicamente, para o mundo, nós estávamos já não era o suficiente. Eu queria mais. Queria tirar ele daquela rua, nem que fosse por uma hora.
— Escute...
Eu disse, minha voz saindo mais rouca do que o normal, interrompendo o movimento de suas mãos.
— Não podemos ir para um lugar mais... reservado?
Ele parou, os dedos hesitando sobre o tecido da minha calça. Kyle ergueu os olhos, visivelmente surpreso. Era um pedido fora do protocolo. Para ele, eu era apenas o "peixe grande" que buscava alívio rápido e impessoal antes de voltar para sua cobertura de luxo.
A ideia de privacidade, de um ambiente que não fosse um carro ou um beco, pareceu deixá-lo confuso por um segundo.
Ele franziu a testa, a agitação da abstinência fazendo sua perna balançar nervosamente. Ele pensou, talvez calculando se eu era algum tipo de perigo ou se aquilo renderia mais dinheiro.
— Reservado?
Ele repetiu, soltando um riso seco e sem vida.
— Meu apartamento fica a poucos metros daqui.
Eu sabia. Eu tinha seguido ele. Mas fingi que aquela era apenas uma sugestão prática dele, uma desculpa que eu estava ansioso para aceitar.
— Não é um lugar muito legal, bonitão.
Kyle continuou, dando de ombros com uma indiferença que me doeu.
— Não tem serviço de quarto e o cheiro não é de lavanda. Mas... se você não se importar com a bagunça, pode vir comigo.
— Eu não me importo.
Respondi imediatamente, sem hesitar.
Saímos do carro. O ar frio da noite nos atingiu, mas eu m*l senti. Travei as portas da Mercedes com um clique seco, deixando para trás o símbolo do meu status e do meu poder. Naquela rua, eu não era o CEO da Vance Corp, eu era apenas um homem seguindo um fantasma.
Kyle começou a andar na frente, com os ombros encolhidos e as mãos escondidas no moletom. Eu o segui, mantendo o passo firme ao seu lado. Caminhar com ele pelas calçadas rachadas e m*l iluminadas era uma experiência surreal.
As pessoas que passavam por nós, sombras errantes da noite de Nova York, não nos olhavam duas vezes, mas para mim, cada passo era como atravessar um portal para o passado.
Eu olhava para o perfil dele enquanto andávamos. A beleza de Kyle ainda estava lá, enterrada sob camadas de negligência e vício, mas os olhos verdes permaneciam os mesmos: magnéticos e assustadores.
Eu estava indo para o território dele, para o lugar onde ele se escondia do mundo, e a antecipação de estar entre as paredes onde ele vivia fazia meu sangue latejar.