Capítulo 13

819 Palavras
— É logo ali. Ele murmurou, apontando para o prédio de fachada descascada que eu já conhecia de longe. Eu não disse nada. Apenas continuei ao lado dele, sentindo o peso do silêncio e a eletricidade da nossa proximidade, pronto para entrar no coração do inferno que eu ajudei a criar. No meio do caminho, o silêncio foi quebrado pela voz dele, um pouco mais baixa, carregada de uma hesitação que eu não esperava. — Eu não costumo fazer isso. Ele murmurou, sem olhar para mim. — Levar clientes lá em casa. É contra a minha regra. Eu sabia o que aquilo significava. Ele estava estabelecendo um limite, talvez testando se eu era perigoso ou apenas sinalizando que a quebra da regra teria um preço. Eu sabia que ele estava fazendo aquilo pela grana que eu poderia oferecer a mais, pela segurança que meu terno caro parecia prometer, mas decidi não tratar aquilo como uma transação naquele momento. — Eu prometo que vou me comportar. Respondi, tentando manter a voz suave, quase acolhedora. Ele parou por um segundo, virou-se para mim e soltou um sorriso de canto. Não era aquele sorriso comercial de antes; era algo quase humano, um lampejo do garoto que ele costumava ser. — Tudo bem, bonitão. Vamos lá. Chegamos ao prédio decrépito. O corredor exalava um cheiro de umidade e desinfetante barato. O quarto dele ficava logo no primeiro andar, o que facilitava a entrada e saída rápida. Quando ele girou a chave, percebi que ele ficou tenso, os ombros subindo levemente em um gesto de vergonha. — Entra. Não repara na bagunça. O interior era exatamente o que eu esperava, mas vê-lo de perto apertou meu coração. Era um espaço minúsculo, funcional e melancólico. Uma sala que dividia espaço com uma cozinha pequena, um sofá gasto e uma mesa de canto. Kyle começou a se movimentar freneticamente, tentando esconder os vestígios da sua rotina solitária: ele enfiava sacos de salgadinhos abertos em gavetas e chutava algumas peças de roupa para debaixo do sofá. Meus olhos, porém, foram atraídos para os cantos da sala. Havia telas encostadas nas paredes. Quadros pintados com cores vibrantes que contrastavam com a cinza daquele lugar. Eram paisagens abstratas, rostos distorcidos, um talento bruto que saltava aos olhos. — Você que pintou isso? Perguntei, genuinamente impressionado. — Você é artista? Ele soltou uma risada curta, meio amarga, enquanto ajeitava o cabelo. — Era um sonho que não deu certo. Ele respondeu, evitando meu olhar. — Eu vim de outra cidade há alguns anos, achando que Nova York ia me acolher, que eu seria o próximo grande nome das galerias. Mas, como você pode ver... Ele gesticulou para o quarto. — Não deu certo. E agora eu faço o que faço. Aquelas palavras foram como lâminas. Ele veio tentar a vida como artista e acabou se vendendo em esquinas. Minha mente imediatamente viajou para treze anos atrás. O trauma que causamos, a cabeça que ferramos... será que nossa crueldade foi o primeiro dominó a cair na vida dele? Será que a falta de autoestima que plantamos nele o impediu de lutar pelo seu talento? Eu me senti um monstro mais uma vez, um destruidor de destinos. Mas Kyle não me deixou afundar no transe da culpa. Ele se aproximou, sua presença quebrando minha linha de pensamento. — Senta aí, no sofá. Fica à vontade. Ele disse, com uma voz que tentava ser profissional novamente. Eu me sentei no estofado que rangeu sob meu peso. Ele ficou ali, de pé na minha frente por um instante, estudando minha expressão. — Olha... Ele começou, mexendo na gola do moletom. — Já que você está aqui e foi legal... eu posso fazer outras coisas também. Sexo completo. Não é a minha forma preferida, eu não costumo oferecer isso na rua, mas você é um bom cliente. Se quiser, a gente pode ir para a cama. O convite me pegou de surpresa, mas eu não queria possuí-lo daquela forma. Não ali, não naquele estado. Eu não queria que ele se sentisse ainda mais usado por causa do meu dinheiro. — Só o oral está bom. Respondi com firmeza. Ele soltou um suspiro longo, e eu pude jurar que vi um rastro de gratidão em seus olhos verdes. Ele parecia genuinamente aliviado por não ter que se entregar por inteiro. Eu me senti m*l por ele se sentir agradecido por eu "querer menos", mas qualquer vestígio de reflexão moral evaporou no segundo em que ele se ajoelhou entre as minhas pernas. O toque das mãos dele, a proximidade do seu rosto e o cheiro da sua pele fizeram o t***o dominar meu corpo com uma violência avassaladora. Em segundos, o bilionário arrependido desapareceu, restando apenas o homem faminto por aquela única conexão que o fazia se sentir vivo. Eu fechei os olhos, entregando-me ao abismo, enquanto Kyle começava a apagar o resto do mundo de novo.
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