Capítulo 14

870 Palavras
As mãos de Kyle eram gélidas, mas sua boca era um incêndio que consumia tudo o que restava do meu autocontrole. Ele se moveu com uma perícia crua, envolvendo-me com uma pressão em um ritmo que parecia sugar não apenas o meu prazer, mas a minha própria alma. A sensação era de uma intensidade quase insuportável; cada terminação nervosa do meu corpo gritava em um reconhecimento primitivo. Era como se o toque dele fosse a única chave capaz de girar as engrenagens enferrujadas da minha masculinidade. Eu sentia o sangue latejar nas minhas têmporas, a visão nublando enquanto eu observava o topo da sua cabeça, os cabelos pretos e lisos entre meus dedos. O prazer veio como uma onda de choque, devastadora e absoluta, arrancando-me do chão. Quando o ápice me atingiu, foi tão violento que perdi o domínio sobre o que dizia. Minha voz saiu em um rosnado baixo, carregado de um desespero que eu guardava há treze anos: — Kyle... oh, Deus, Kyle... O silêncio que se seguiu foi súbito e cortante. Ele se afastou bruscamente, limpando a boca com as costas da mão, os olhos verdes arregalados, injetados de uma clareza aterrorizante. Ele se levantou do chão de um salto, recuando dois passos até bater na mesa pequena. — Como você sabe o meu nome? A voz dele tremeu, mas não era de frio. Era de um pânico crescente. — Eu nunca disse meu nome para você. Quem é você? Tentei me levantar, sentindo minhas pernas bambas, as mãos trêmulas enquanto eu tentava fechar o botão da minha calça e o zíper. O ar no apartamento ficou rarefeito. — Kyle, escuta, eu posso explicar... eu... — Explicar o quê? Ele gritou, a respiração ofegante, os olhos varrendo meu rosto com uma ferocidade nova. Ele parecia um animal acuado, pronto para morder. — Você está me seguindo? Você é algum tipo de policial ou um maluco...? Ele parou no meio da frase. O tempo pareceu congelar enquanto ele fixava os olhos nos meus, processando a estrutura do meu rosto, a cor dos meus olhos, a forma como eu o olhava com aquela culpa transbordando. Vi o exato momento em que as peças se encaixaram. A cor fugiu completamente do seu rosto, deixando-o com uma palidez cadavérica. — Não... Ele sussurrou, a voz falhando. — Não pode ser. — Kyle, por favor... — VOCÊ! O grito dele rasgou o ambiente. Ele avançou como um raio, empurrando-me com uma força que eu não achei que aquele corpo franzino possuísse. Minhas costas bateram com violência contra a parede, derrubando um dos quadros que ele havia pintado. — Você é um daqueles merdas! Um daqueles desgraçados! Ele agarrou a gola da minha camisa de linho, os nós dos dedos brancos, o rosto a centímetros do meu. Seus olhos estavam lacrimejantes, transbordando um ódio tão puro que me fez querer desaparecer. — O que você quer aqui? Veio ver o que sobrou? Veio rir de novo? Ele me sacudiu, a voz embargada pelo choro que ele tentava segurar. — Você ferrou com a minha vida! Vocês ferraram com tudo! Eu era um garoto... eu era só um garoto e vocês me transformaram nessa merda! — Eu sinto muito, eu mudei, eu tentei resolver tudo... Eu gaguejava, sentindo as lágrimas dele respingar no meu rosto. — Sente muito? Ele soltou uma gargalhada histérica, empurrando-me novamente. — Sente muito porque agora você é rico e eu sou um viciado que se vende por migalhas? Cai fora daqui! Some da minha frente, seu lixo! Seu playboy desgraçado, estuprador de merda! SAI! Ele soltou minha gola com desprezo, como se tocar em mim o contaminasse. Ele apontou para a porta, o corpo inteiro tremendo de uma forma incontrolável. Eu quis abraçá-lo, quis dizer que ia tirá-lo dali, mas o olhar de repulsa que ele me lançou me paralisou. Eu era o monstro da história dele. Eu era o pesadelo que nunca o deixou dormir. — Sai... antes que eu te mate. Ele sibilou, os dentes cerrados. Eu dei um passo em direção à porta, o coração estraçalhado. Mas, antes que eu saísse, ele gritou novamente: — Deixa a p***a do dinheiro! Você se aproveitou do meu trabalho, agora paga! Eu quero cem dólares! Agora! Eu sabia para onde aquele dinheiro ia. Sabia que ele ia usar aqueles cem dólares para se entorpecer até esquecer que eu estive ali. Meu peito doeu ao pensar que eu estava financiando a destruição dele mais uma vez, mas a fúria nos olhos dele não me deu escolha. Puxei a nota de cem dólares, deixei-a sobre a mesa bagunçada e saí. — Some, seu verme! Foi a última coisa que ouvi antes da porta bater com força atrás de mim. Caminhei pelo corredor imundo, sentindo o peso de cada passo. Quando cheguei ao meu carro, o luxo da Mercedes parecia um escárnio. Entrei no banco do motorista e debrucei a cabeça sobre o volante, soltando um soluço seco. Eu tinha vindo atrás de redenção, mas tudo o que fiz foi reabrir a ferida e jogar sal nela. Eu era um merda. Um merda com uma conta bancária enorme e uma alma podre, deixando para trás o garoto que eu destruí duas vezes.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR