Capítulo 15

711 Palavras
A noite foi um deserto de agonia. Cada vez que eu fechava os olhos, a imagem de Kyle me expulsando daquele apartamento, o ódio puro em seus olhos verdes, as lágrimas de humilhação, queimava as minhas pálpebras como ácido. Dormi apenas em intervalos curtos e febris, acordando com o gosto amargo do arrependimento na boca. De manhã, o mundo parecia brilhante demais, barulhento demais. — Sarah, café extra. O mais forte que tiver. E tragas alguns analgésicos. Pedi pelo interfone, minha voz saindo rouca e gasta. A reunião de diretoria foi um borrão de gráficos e vozes monótonas. Eu estava lá fisicamente, ocupando a cabeceira da mesa em meu terno impecável, mas minha mente estava presa naquele corredor imundo do Lower East Side. Sarah me trouxe os comprimidos, mas nem a química mais potente conseguia silenciar a batida latejante nas minhas têmporas. — Cancele o resto da agenda, Sarah. Não estou me sentindo bem. Dispensei-a por volta das duas da tarde. Fui para casa, mas as paredes da minha cobertura pareciam estar se fechando sobre mim. O silêncio era acusador. Tentei me afogar no uísque, mas o álcool só serviu para tornar as memórias mais nítidas. Por volta das oito da noite, a compulsão venceu. Peguei as chaves do carro e, como um viciado em busca da própria destruição, dirigi até o prédio de Kyle. Estacionei em um canto escuro, observando o movimento da rua. Eu me sentia ficando louco, um perseguidor obcecado pela própria culpa. Saí do carro e caminhei até o ponto onde ele costumava ficar, mas a calçada estava vazia. O pânico começou a subir pela minha garganta. Vi um homem encostado em um poste, os olhos atentos a cada sombra. Eu sabia quem ele era. Aproximei-me, forçando uma indiferença que não sentia. — Tem algo forte? Perguntei, a voz baixa. O traficante sorriu, um brilho oportunista nos dentes estragados. Ele me entregou um pequeno saco com comprimidos coloridos. — Esses aqui são incríveis, patrão. Vão te fazer esquecer até o próprio nome. A vibe é de outro mundo. Peguei o pequeno saco com alguns comprimidos brancos , mas o meu interesse era outro. — O cara que costuma ficar aqui... o magro, de olhos verdes. Viu ele hoje? O homem soltou uma risada curta. — Ah, o Kyle? Aquele ali se deu bem hoje cedo. Apareceu com uma nota de cem, comprou estoque pra durar uma semana. Disse que ia se divertir de verdade hoje e sumiu. Não saiu do prédio desde então. O sangue sumiu do meu rosto. Uma nota de cem. O meu dinheiro. A minha "redenção" tinha acabado de comprar a passagem dele para o abismo. Caminhei em direção ao prédio, os passos pesados e o coração martelando contra as costelas. Eu tinha um pressentimento horrível, uma sensação de que o tempo estava escorrendo entre os meus dedos. Subi as escadas, ignorando o cheiro de mofo, e parei diante da porta dele. Bati uma vez. Duas. — Kyle? Kyle, sou eu. Abre a porta! Nada. Apenas o silêncio mortal do outro lado. Não liguei para o que ele pensaria, não liguei se ele tentaria me esfaquear ou me expulsar de novo. Girei a maçaneta e, para meu horror, a porta cedeu. Estava aberta. O apartamento estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz fria que vinha da rua. Meus olhos correram para o sofá e o ar abandonou meus pulmões. Kyle estava caído de lado, com o corpo relaxado demais, a cabeça pendida para trás e um dos braços pendurado em direção ao chão. Perto dele, o saco plástico que eu sabia conter a morte em forma de pó ou pílulas estava vazio. — Kyle! Gritei, correndo até ele. Ajoelhei-me no chão sujo e segurei o rosto dele. Estava gelado. Puxei seu pulso, procurando desesperadamente por qualquer sinal de vida, qualquer batida que me dissesse que eu não tinha acabado de fazer isso com sua vida. Nada. O silêncio sob a pele dele era absoluto. Ele estava sem pulso. — Não... não, não, não! Kyle, acorda! Minhas mãos tremiam tanto que m*l conseguia segurá-lo. — Por favor, não faz isso comigo! Kyle! Isso não podia estar acontecendo,eu me senti a pessoa mais inútil do mundo,não queria acreditar no que estava real em minha frente.
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