A luz branca e estéril daquele quarto de hospital atingia o rosto de Kyle como uma agressão física. Eu o observava da poltrona, sentindo cada segundo de silêncio pesar sobre meus ombros. Ele começou a despertar lentamente, os sentidos grogues, como se estivesse tentando emergir de um mar de lodo.
Eu via o esforço dele. Primeiro, o desconforto seco na garganta, depois, o franzir de testa pela dor latejante que, eu sabia, devia estar martelando atrás de seus olhos. O bip constante do monitor cardíaco preenchia o vazio entre nós, um lembrete rítmico de que ele quase não estava mais aqui.
Quando ele finalmente conseguiu focar a visão e me viu ali, sentado na poltrona de couro, senti o peso das minhas próprias olheiras e da palidez que o espelho tinha me mostrado mais cedo.
— Onde... que p***a é essa?
A voz dele saiu como um sussurro rasgado, ferindo o ar.
— Você teve uma overdose, Kyle. Eu te encontrei... você estava sem pulso. Tivemos que te reanimar.
A confusão naqueles olhos verdes durou apenas um segundo. Logo, ela foi sufocada por uma centelha de ódio puro. Ele tentou se sentar, um impulso instintivo de fuga, mas o corpo falhou.
Vi seus músculos cederem como gelatina e uma náusea violenta o forçou a virar o rosto contra o travesseiro.
— Eu quero ir para casa.
Ele sibilou, fechando os olhos com força, como se quisesse me apagar da existência.
— Sai daqui.
— Você não pode sair agora. Está fraco.
Respondi, tentando manter a voz firme, embora por dentro eu estivesse despedaçado.
— Mas não se preocupe, você está sendo bem cuidado. Este é um hospital particular de um amigo meu. Ninguém sabe que você está aqui, não haverá registros oficiais.
Kyle soltou uma risada seca. Foi um som desprovido de qualquer alegria, que terminou em uma tosse dolorosa que me fez querer estender a mão, embora eu soubesse que ele me morderia se eu tentasse.
— Que ótimo...
Disse ele, com um desdém que cortava mais que bisturi.
— Assim ninguém vai saber que o ricaço trouxe um viciado com overdose para um hospital de luxo. Não vai sair na mídia, né? Isso deve ser ótimo para você, manter a imagem que tanto preza.
— Isso não vem ao caso agora, Kyle. Mas sim, é melhor para todos que isso não se torne público.
— Você é um merda.
Ele cuspiu as palavras, virando a cabeça para me encarar com um desprezo que parecia queimar o oxigênio do quarto.
— Você ferrou com a minha vida de tantas maneiras que eu nem consigo explicar. Olhe para você... eu dei uma pesquisada. Você se deu muito bem, não é? Aposto que seus colegas de merda também.
Respirei fundo, deixando o silêncio confirmar a acusação. Não havia como negar o abismo entre nossas realidades, minha fortuna era um monumento erguido sobre as ruínas do que ele poderia ter sido.
— Eu sei o que eu fiz, Kyle. Eu sei que foi imperdoável. Isso me acompanha todos os dias... é uma sombra que eu carrego.
— Você não sabe de nada!
Ele gritou, a voz falhando pelo esforço, os olhos começando a lacrimejar de pura frustração.
— Você não sabe nada da minha vida! Do quanto eu pulei de um lar adotivo para outro, do quanto eu fugi de assistentes sociais porque não conseguia mais confiar em ninguém... Aquela tarde no prédio destruiu a minha cabeça. Eu perdi o sentido de quem eu era ali, naquele chão sujo.
Senti cada palavra dele como um golpe físico no meu peito. O peso da minha herança e do meu sucesso parecia uma piada de mau gosto diante daquela dor bruta e exposta.
— Se você quiser... você pode nos denunciar.
Eu disse, e senti minha própria voz tremer.
— Pode ir à polícia agora. Mas, se você fizer isso, eu não vou conseguir te tirar da rua. Não vou conseguir te ajudar se você estiver preso ou em um processo judicial que vai te expor.
Kyle riu com ironia, uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto pálido.
— Eu não preciso da sua ajuda, Vance. Eu não quero nada que venha de você.
— Eu voltei lá, Kyle.
Interrompi, sentindo uma necessidade desesperada de que ele soubesse, de que ele visse que eu não o esqueci no momento em que saí daquele prédio.
— Eu voltei naquele prédio abandonado alguns dias depois. Eu queria te pedir desculpas, queria te tirar de lá, queria tentar consertar o que quebramos. Mas você tinha partido. Eu te procurei por anos... contratei investigadores, usei todos os recursos que eu tinha quando comecei a ganhar meu próprio dinheiro, mas você tinha desaparecido no sistema.
Kyle permaneceu em silêncio. Seu peito subia e descia com dificuldade. Por um breve instante, a revelação pareceu criar uma rachadura naquela armadura de ódio, um lampejo de dúvida.
Mas ele foi rápido em fechá-la, voltando a encarar o teto com uma amargura que eu sabia, com um aperto no coração, que dinheiro nenhum no mundo seria capaz de apagar.