Capítulo 2- Coisas estranhas

713 Palavras
Meu padrasto. O homem que foi o grande amor da vida da minha mãe. O mesmo que ela acolheu quando eu ainda era adolescente. Que me chamava de filha na frente dos outros, mas cujos olhos sempre guardaram algo difícil de decifrar. “Se algo me acontecer, olhe para ele. Não confie”. Essas palavras ecoavam enquanto eu dirigia para a delegacia. Ainda com o luto vivo no peito, eu me sentei diante de um investigador cansado, que digitava preguiçosamente. — Quero uma autópsia completa no corpo da minha mãe — disse, firme. — O laudo já saiu, senhorita Luna. Foi overdose. — Isso é impossível. A minha mãe nunca usou drogas. Ela fazia exames regularmente, tinha uma alimentação regrada, era vaidosa, lúcida, cuidadosa. Alguém pode ter dado algo a ela.” O policial suspirou. — Lamento sua perda, mas não há indícios de crime. Nenhum sinal de violência ou invasão. Tudo aponta para uso voluntário. O caso será encerrado como morte acidental. — Vocês nem tentaram investigar! — minha voz falhou. — Foi overdose. Esse é o relatório oficial. Saí dali sentindo o chão sumir sob os pés. No carro, minha respiração ficou curta, o peito apertado. Olhei pelo retrovisor e percebi o mesmo carro preto que já havia visto no velório — o mesmo homem. Eles queriam que eu engolisse essa história como verdade. Mas eu não ia parar porque minha mãe foi assassinada. E eu precisava provar isso. Quando cheguei em casa, senti o peso do silêncio no ar. O homem que vinha me seguindo desceu do carro junto comigo, como uma sombra constante. Logo na entrada, encontrei meu padrasto Eduardo esperando, cercado por dois homens de olhar duro. Antes que eu pudesse entender o motivo daquela reunião, ele começou a falar com uma frieza que me gelou. Disse que minha mãe havia deixado dívidas com pessoas poderosas, dívidas que agora seriam cobradas de mim. Que, para salvar a herança da família e minha própria vida, eu teria que me casar com o filho de um desses homens. Não acreditei. Tudo parecia um pesadelo. Recusei-me terminantemente, sabia que nunca faria aquilo. Mas antes que pudesse reagir, dois homens me agarraram com força. Tentei lutar, gritei por ajuda. Foi quando vi minha irmã, Helena, na janela do segundo andar, desesperada e apavorada. Ela desceu correndo, tentando chegar até mim, mas Eduardo a segurou com força, impedindo que se aproximasse. Ela começou a chorar alto, se debatendo tanto quanto eu, enquanto eu era empurrada para dentro do carro. — LUNAAAA! — ela gritava, com o rosto molhado de lágrimas. — HELENA, ME AJUDA! — foi a última coisa que consegui dizer antes da porta se fechar Naquele instante, percebi que estava sozinha — sozinha contra algo muito maior e mais c***l do que eu poderia imaginar. Só pensei: Como eu escaparei? Foi assim que tudo começou. Fui levada e atirada no meio da sala de uma mansão desconhecida … A mansão era silenciosa demais. As paredes pareciam observar cada passo que eu dava. Ainda doía o braço, onde fui agarrada horas antes, como se meu corpo quisesse me lembrar de que tudo aquilo era real. Ele entrou no quarto sem bater. Seu olhar era calmo demais para alguém que acabava de destruir uma vida. Parou à minha frente, sem remorso. — Antes de começarmos qualquer coisa… você precisa encerrar o que ficou pra trás. — Do que está a falar? — perguntei, embora já soubesse. — Seu noivo.— disse com frieza. — Você vai até ele. Vai terminar. E vai deixá-lo claro que nunca mais devem se ver. Meu coração disparou. Quis gritar, correr, fugir dali. Mas eu apenas fiquei parada. Sem reação. — E se eu me recusar? — desafiei, de forma corajosa. Ele sorriu de lado. Um sorriso lento e ameaçador. — Então ficará sem nada, a herança da sua mãe virá toda pra mim Senti o chão sumir sob meus pés. Eu tive que concordar, não era por causa do dinheiro, mas sim por causa da única coisa que restava da minha mãe e do meu avô. Eu precisava manter o legado. Era o ideal. Naquele momento eu parecia gananciosa, mas com dinheiro, você descobre tudo que quiser. E eu precisava descobrir o que eu fazia aí.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR