Pré-visualização gratuita Capítulo 1- A Ligação
Eu estava no escritório, mergulhada em planilhas e prazos, quando o telefone tocou. Era Helena.
Não costumávamos conversar muito por telefone, o que por si só já era estranho. Mas havia algo na respiração dela...
Um silêncio antes da voz.
Um presságio.
— “Luna… a mamãe…”
A voz dela quebrou.
— “Ela foi encontrada morta… aqui na mansão.”
Por um segundo, eu simplesmente parei. O som da rua, o barulho da impressora, tudo desapareceu. Meus dedos tremeram sobre o teclado, e minha mente se recusava a entender. Morta?
A palavra ecoou dentro de mim como um trovão abafado.
Levantei-me num pulo. Nem lembro o que falei, se é que falei algo. Apenas gritei pelo motorista e saí da empresa com o coração acelerado, como se pudesse chegar a tempo de impedir o inevitável.
O caminho até a mansão pareceu interminável. Minha cabeça girava, e tudo em mim gritava que aquilo não podia ser verdade. Ela era forte. Inquebrável. Rica, poderosa, respeitada… Minha mãe não podia morrer assim. Não sem aviso.
Quando chegamos, a cena já estava formada. Ambulâncias. Policiais. Jornalistas sendo contidos no portão.
Saltei do carro antes mesmo que ele parasse por completo e corri. As pernas fracas, mas o instinto mais forte.
E então, eu a vi.
O corpo coberto por um lençol branco sendo colocado na maca, cercado por profissionais em silêncio. Um braço escapou por baixo do pano. Reconheci de imediato. Aquela pulseira de diamantes que ela nunca tirava. A mesma que dizia ser a primeira peça da fortuna herdada.
Foi como levar um soco no peito.
Um grito preso rasgou minha garganta e as lágrimas caíram sem controle. A dor veio crua, sem filtro. Meu corpo inteiro se encolheu diante daquela imagem que jamais esquecerei.
Minha mãe… minha rainha… agora era só silêncio debaixo de um lençol branco.
E eu não sabia… que aquele era apenas o começo do nosso pesadelo.
O velório aconteceu dois dias depois. A mansão foi preparada às pressas, transformada num espaço sombrio, coberto de flores brancas, rostos fechados e cochichos abafados.
Eu me mantive de pé a maior parte do tempo. As pernas queriam ceder, mas algo em mim se recusava. Talvez o choque ainda me segurasse firme… ou talvez fosse o instinto de filha mais velha, herdeira direta, aquela que todos agora olhavam como se esperassem algo.
Helena permaneceu perto de mim. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto inchado, mas havia uma força ali que me surpreendia. A nossa relação nunca foi complicada — mas também nunca foi íntima. Ainda assim, naquele dia, ela era a única presença que me parecia segura.
Parentes distantes chegaram com abraços longos demais. Amigos da minha mãe falavam frases vazias. Advogados vieram oferecer condolências disfarçadas de interesse. E, entre eles, algumas figuras desconhecidas observavam demais.
— “Você notou aquele homem perto do piano?” — Helena sussurrou.
Assenti discretamente. Alto, de terno escuro, ele parecia deslocado. Não chorava, não cumprimentava. Só observava.
Ninguém sabe quem ele é — ela disse.
Naquele momento, algo me apertou o estômago. Como se a presença dele fosse mais do que apenas estranha. Era uma intuição que me arrepiou — e que, dias depois, se confirmaria: o homem não estava ali por acaso.
Horas depois, já à noite, sentei no escritório da minha mãe. O lugar estava intacto, como se ela fosse entrar a qualquer momento. Toquei os papéis na mesa, senti o perfume ainda preso nas almofadas da cadeira.
Foi quando reparei numa pasta esquecida na segunda gaveta. Dentro, documentos... e uma carta. Uma folha escrita à mão, com caligrafia da minha mãe.
O título:
“Caso algo me aconteça…”
Meu coração disparou.
A cada linha que lia, o mundo ao meu redor começava a girar. A carta falava de desconfianças, ameaças veladas, movimentações estranhas na empresa e... um segredo de família que ela temia ser revelado.
Um nome apareceu no fim da carta. E esse nome mudou tudo.
Não era um inimigo.
Era alguém da nossa casa.
Alguém que ela amava.
O nome na última linha da carta parecia queimar em minhas mãos.
Eduardo.
Foi um grande choque para mim…