Pré-visualização gratuita Pressentimento
A batida do som alto que saía das caixas do paredão parecia se sincronizar com as batidas do meu coração, sabe aquela sensação de bum... bum... bum?
Não vou mentir e dizer que não gosto disso, não. Eu nasci no Vidigal, e dizer que o funk do baile de rua não está no meu sangue seria mentir sobre quem eu sou. O problema não era o som, não era o fato de eu estar na barraquinha da minha mãe vendendo podrão com refri meio gelado. Fazíamos isso todos os bailes.
Nada disso causou aquela sensação de frio na barriga, sabe aquela sensação de que algo r**m vai acontecer? Pois bem, é essa mesma que está me atormentando agora.
“Se mexe, menina, vamos, precisamos pagar a escola do seu irmão amanhã”, minha mãe grita, me empurrando para o lado para entregar o lanche para um mauricinho desses que subiam o morro à procura de aventura como se fosse um safári extremamente estimulante.
Ele me olha e sorri.
Não me dou o trabalho de sorrir de volta. Sei bem o que ele acha de mim: bonita, fácil, comível, mas não alguém que ele apresentaria para a família em um almoço de domingo. Pra ele, eu era a favelada, alguém descartável.
Fui atender uns crias do outro lado, não que eles me tratassem melhor, mas porque com eles estou acostumada, sei lidar.
“E aí, Bia, descola um lanche na faixa aí.”
“Bia, e essa boca beija ou não beija?”
“Tá cada dia mais gostosa, hein, Bia.”
Suspiro, mostro o dedo do meio e pergunto:
“Vão querer ou não?”
Eles riem e fazem os pedidos que eu me apresso a entregar. É então que o clima muda.
Tiros são disparados para o alto, o mauricinho o****o se joga no chão, já se arrependendo de tratar o morro como seu lugar de diversão. A música parece automaticamente virar som de fundo.
Os donos do morro vinham subindo, armados até os dentes, sem vergonha alguma em desfilar com fuzis pendurados no corpo. Aquilo não era novidade pra quem vive ali, era simples: não se meta com eles, passe despercebido, fique na sua e nada acontece.
Bem, na maioria das vezes nada acontece.
O r**m mesmo era se a polícia subisse o morro. Aí sim era perna pra quem tem, se arrastar no chão para não tomar tiro perdido, mas a tropa chegar no baile, isso era normal.
Mas a maldita sensação na minha barriga me dizia que aquele dia não era normal.
Foi então que eu vi, rodeado pela tropa, estava Murilo, mais conhecido como Murilo ML. Se quer saber, ML é Monstro Louco.
Meus olhos se fixam nele por alguns segundos, mas minha mente volta ao passado, quando ele era o garoto mais bonito da escola e eu, dois anos mais nova, como todas as garotas, babava por ele.
Murilo, o filho do chefe do morro, Murilo, o garoto que todas queriam.
Até o dia que a notícia chegou: Murilo tinha sido preso e levado para FEBEM por ter espancado um garoto três anos mais novo até a morte em uma praia no Leblon por causa de um gol.
Naquela noite, assisti à reportagem da TV velha de casa. A mãe do garoto chorando, dizendo que o filho foi morto porque deu um chapéu e fez um gol em um jogo amador na praia.
Nunca vou esquecer o desespero daquela mãe.
E foi nesse dia que decidi: ser bonito não significa que era bom. Eu não queria essa vida pra mim, não queria dormir com medo de ser morta só porque queimei o arroz. Nesse dia, garotos como Murilo ML se tornaram meninos que eu quero evitar.
Por um breve segundo, os olhos dele se encontram com os meus.
Eu desvio rápido demais.
Murmuro pra minha mãe que vou ao banheiro e saio o mais rápido que posso da vista dele.
Ao entrar no banheiro do bar do seu Zé, me encaro no espelho.
Os cabelos cacheados presos em um r**o de cavalo, as malditas sardas ainda salpicavam meu nariz, os olhos castanhos meio arregalados de medo. Minha cor estava do tipo burro que foge. Sou morena clara, mas agora estava cinza.
Então dou uma risada histérica.
Aquele cara teria aos seus pés quase todas as meninas do morro. Afinal, o pai dele tinha morrido e ele já comandava o morro da prisão há dois anos. Agora ele já tinha quase 25 e eu já tinha 22.
Com certeza ele nunca olharia para mim, a garota que nunca saiu do morro, que nem pôde estudar porque tudo em casa era para o irmão.
Minha vida ia seguir e a dele também, provavelmente sem nunca se cruzar. Sofrer por antecedência era burrice.
Jogo água no rosto e me encaro mais uma vez e saio.
Travo no exato momento em que vejo ele encostado no corredor que levava à saída.
Murilo estava com um cigarro na mão, o cheiro fedido da maconha não deixava dúvida que tipo de cigarro ele segurava, mas ele não me encarava nem parecia estar ali por mim.
Tento me convencer que era apenas coincidência, abaixo a cabeça e me preparo para passar por ele sem chamar atenção.
Eu não costumo ser medrosa, mas, por algum motivo, eu estava apreensiva.
Ele não disse nada quando passei por ele, mas mesmo sem me virar eu podia sentir os olhos dele cravados em mim.
E eu soube dentro de mim que minha vida nunca mais seria a mesma.