RICARDO NARRANDO
Abro os olhos devagar, sentindo a dor que me consome. Sei que eu fui atendido. Sei que alguém me salvou. Mas a dor é imensa. A dor é terrível.
Eu me chamo Ricardo Medeiros, tenho 32 anos. Sou branco, dos olhos azuis, cabelos loiros, hoje maiores do que costumo usar. Sou capitão da Polícia Federal há dois anos, mas sirvo o país há onze anos.
Entrei para a polícia com vinte e um anos. Como sempre, começamos de baixo. GCM, militar, civil e agora federal. Trabalhei muito pra isso. Mostrei serviço em cada operação, em cada missão dada. Não foi fácil. Não foi simples. Mas eu consegui.
Eu nasci em São Paulo. Me mudei para o Rio quando eu tinha dezoito anos. Foi aqui que o desejo de se tornar policial veio. Meu pai... era um civil simples. Não servia. Não era envolvido com nada relacionado à polícia, nem mesmo amizade com policial ele tinha.
Mas um ano e pouco aqui no Rio de Janeiro, eu e meu pai passamos por um assalto. Estávamos no carro, mas o meliante só queria o relógio. O medo dele era grande. Eu, mesmo jovem, via que se aquela não era a primeira vez dele roubando, era coisa recente.
O desespero dele era grande e real, assim como a arma e sua mão. Meu pai não reagiu, ele só pediu calma. Só pedia que ele se acalmasse, que ele estava tirando o relógio. O desgraçado, sem paciência, destravou a arma e, quando ele puxou o gatilho, eu só fiz pular em cima do meu pai. Mas já era tarde.
Meu pai caiu sobre o volante morto, o sangue jorrava da sua cabeça em cima do relógio que o desgraçado tanto queria e fugiu sem nem levar ele.
Foi dessa perda que eu decidi ser policial. Fazer algo contra essas pessoas que tiram vida por diversão. Por nada. Que só fazem pra ter ganho próprio ou pra ver a outra pessoa sofrendo.
Desde aquele dia eu fiquei órfão de pai e mãe. Sim. Eu já não tinha a minha mãe viva e, naquele dia, eu perdi a única pessoa que eu amava. Que eu confiava. Que eu pedia ajuda, conselho. Eu perdi a minha base. O meu pilar, e é por ele que hoje sou o que sou.
Dentro da Federal eu conquistei o meu lugar. Os meus objetivos e a minha carreira só foram ficando cada vez mais promissoras. Mas eu sou o capitão mais jovem. Com o nome mais conhecido, mas o rosto pouco visto, e por isso eu fui enviado a uma missão que pode alavancar a minha carreira ou me destruir de vez.
Meu comandante, há cinco meses atrás, disse que a inteligência tinha localizado o narcotraficante que estava atuando entre os estados do Brasil e fora... em países como Bolívia, Paraguai, Colômbia e Venezuela.
Quando ele me falou isso... eu sabia qual era o próximo passo. Investigar. Recolher e juntar provas pra só depois efetuar a prisão, e foi aí que ele me disse: “Você vai para o Morro da Maré, no coração do narcotraficante, mas também chefe do morro e do Comando Vermelho.”
Neguei? Nunca. Questionei? Jamais. Foi pra isso que me tornei quem eu sou, e por isso estou aqui.
Era minha intenção estar ferido? Não... mas quando a invasão do BOPE ocorreu, eu estava entrando no morro. Eu não posso ficar o dia todo aqui dentro. Não posso levantar suspeitas, então sempre estou aqui. Mas, ao mesmo tempo, não estou.
Cinco meses dentro desse morro e eu já sei algumas coisas. Não muitas. Não tive como me infiltrar no meio deles ainda. Mas ainda não tirei a ideia da minha cabeça. Cinco meses aqui consegui algumas coisas, e uma delas é saber quem é a mulher à minha frente.
Braços cruzados, cabelo amarrado em um r**o de cavalo jogado no ombro. Seus olhos estão estreitos, me analisando. Esperando que eu retome totalmente a consciência para fazer a pergunta que é sempre feita.
Rafaela, fiel do chefe do morro e da facção. Esposa do narcotraficante mais procurado do país... Tigre. Tão temido quanto procurado.
Rafaela faz a pergunta, eu dou as respostas e, claramente, nos olhos dela eu vejo que ela sabe que eu não sou um morador comum. Mas também vejo que ela não vai dizer nada do que desconfia.
Vejo a confusão em seus olhos. O medo. A insegurança. O não saber se fez certo ou errado. Mas também vejo um pedido de socorro. Muitos podem não ver. Mas, mesmo coberta e sem nada exposto, eu sei o que tem por debaixo do jaleco dela, e isso que ela passa pode ter fim... se ela quiser.
RAFAELA — Se arrisca ficando aqui._ ela fala, e escutamos passos. Ela me olha e eu a olho, vendo que mulher linda ela é e pensando no que ela passa.
Os passos param do outro lado da porta. Mesmo deitado, com o peito em chamas e o corpo pesado demais para reagir, meu instinto entra em alerta máximo. Não é pânico. É cálculo. O tipo de silêncio que antecede decisões ruins.
Rafaela se colocou entre mim e a porta, e ali ela continua. O corpo dela não se mexe, mas eu percebo o detalhe... os ombros rígidos, a mão direita fechando lentamente. Não é medo. É preparação.
A maçaneta gira. Dois homens entram primeiro. Armados. Olhares rápidos, desconfiados. Não são soldados de linha de frente; esses já teriam perguntado quem eu sou com o cano da arma encostado na testa. Esses observam. Avaliam.
E então Tigre entra logo depois. O ar muda. Não é metáfora. É físico. O espaço parece encolher para caber nele. Tigre não precisa falar para ser ouvido. Ele ocupa. Domina. Impõe.
TIGRE — Então esse é o problema da noite._ A voz é calma demais. O tipo de calma que antecede violência.
Ele se aproxima da maca, olha o dreno, o curativo improvisado, o sangue ainda fresco. Não olha para mim como um homem. Olha como um erro que ainda não decidiu se vale a pena consertar.
TIGRE — Vive?_ pergunta olhando para mim.
RAFAELA — Vive._ Ela não diz “vai viver”. Diz “vive”. No presente. Como se fosse um fato consumado, não uma aposta. Tigre vira o rosto devagar para ela. O olhar endurece.
TIGRE — Eu não perguntei pra você._ vejo ela tirando força de onde não tem pra responder.
RAFAELA — Mas eu respondi._ O silêncio que se segue é pesado o suficiente para esmagar ossos. Eu seguro a respiração. Qualquer movimento agora pode ser interpretado como desafio. E aqui, desafio se paga com dor.
Tigre dá um passo na direção dela. Invade o espaço pessoal. Segura o queixo de Rafaela com força suficiente para marcar, e eu sinto o sangue ferver, o que aumenta a minha dor.
TIGRE — Você anda esquecendo seu lugar._ ele fala com frieza. Com autoridade.
RAFAELA — Nunca esqueço._ Ela não abaixa os olhos. Isso é mais perigoso do que gritar. Tigre a solta com um empurrão curto, irritado. Volta a atenção para mim.
TIGRE — Quem é você?_ A pergunta finalmente chega. Direta. Nua.
RICARDO — Um morador que teve azar._ Ele sorri. Um sorriso torto, quase divertido.
TIGRE — Morador não segura tiro assim._ Dou de ombros, o movimento arrancando uma dor que queima o peito.
RICARDO — Então tive sorte também._ Ele gosta disso. Consigo ver. Tigre respeita resistência. Mesmo que vá quebrá-la depois. E isso é bom pra mim. Bom pra eu chegar onde eu quero estar.
TIGRE — Vai ficar aqui._ Ele aponta para Rafaela. — Se morrer, a culpa é sua._ ele ordena que ela fique, e ela responde.
RAFAELA — Ele não vai morrer._ Tigre se aproxima dela de novo, agora mais perto do ouvido, mas eu ainda posso ouvir o que ele fala.
TIGRE — Não decide isso sozinha._ ele fica frente a frente com ela, e ela responde.
RAFAELA — Decido, sim._ Por um segundo, penso que ele vai bater nela. O clima pede isso. Mas Tigre é imprevisível quando quer punir de verdade. Eu já vi isso. Ele pode não ter me visto. Mas vi muitas punições dele aqui dentro. Ele apenas sorri.
TIGRE — Vamos ver._ ele sai. Os homens o seguem. A porta se fecha. O som do trinco ecoa mais alto do que deveria.
Rafaela não se mexe por alguns segundos. Quando finalmente vira o rosto, o controle dela racha só um pouco. O suficiente para eu ver o custo daquela postura.
RICARDO — Você não precisava se colocar assim._ eu falo.
RAFAELA — Precisava deixar claro._ Ela se aproxima da maca. Ajusta o soro. Profissional. Precisa. Mas os dedos tremem levemente. — Ele não pode desconfiar agora.
RICARDO — De quê?_ Ela para. Respira fundo.
RAFAELA — De nada._ Mas nós dois sabemos que já é tarde demais para fingir normalidade. Rafaela me evita olhar nos olhos, mas isso não impede de eu ler ela.
VAMOS LÁ, AMORES, COMENTEM E VOTEM MUITO.