Pré-visualização gratuita 01 SABE MEU NOME?
RAFAELA NARRANDO
O barulho nunca dorme no Morro da Maré. Mesmo de madrugada, ele respira. Um som vivo, sujo, pulsante. Moto subindo ladeira, tiro distante que ninguém comenta, música vazando de alguma casa onde o álcool já venceu o medo.
Eu aprendi a diferenciar cada ruído, porque aqui, saber ouvir é uma forma de sobreviver.
Hoje, o silêncio é que me assusta.
Estou sentada na beira da cama, a camisola grudada na pele suada, quando a porta do quarto se abre com força suficiente para bater na parede. Não preciso olhar para saber quem é. Meu corpo reconhece antes da mente. Os músculos travam. A respiração encurta.
Tigre entra.
O cheiro vem primeiro… bebida, pólvora e o perfume caro que ele usa como assinatura de poder. Ele não fala nada no início. Caminha até mim devagar, como um predador que já sabe que a presa não tem para onde correr.
TIGRE—Levanta. _ A voz é baixa. Controlada. Sempre é pior quando ele fala assim. Eu levanto.
Não pergunto o motivo. Não olho nos olhos. Aprendi cedo que curiosidade e desafio custam caro. Ele circula ao meu redor, devagar, como se estivesse avaliando um objeto. Os dedos grossos tocam meu queixo, forçando meu rosto para cima.
TIGRE—Está ouvindo esse silêncio? _ pergunta, quase divertido. —Quando fica assim… alguém fez merda. _ Engulo seco. Meu coração bate forte demais, pesado contra as costelas. Tento manter a postura ereta. Profissional. Neutra. Não a esposa. A médica. A mulher que ele exibe quando convém e quebra quando precisa lembrar quem manda.
RAFAELA—Teve confronto? _ Ele sorri. Um sorriso sem calor.
TIGRE—Teve invasão. _ Meu estômago afunda. Invasão significa BOPE. Significa tiro. Significa corpos chegando no posto médico improvisado que mantenho dentro do morro, porque até no inferno alguém precisa costurar carne aberta.
TIGRE—Se arruma. _ Ele se afasta, já saindo. —Hoje você vai trabalhar. _ A porta bate. O silêncio volta, mas agora pesa como concreto sobre o peito.
Vou até o espelho do banheiro. A luz branca revela o que tento esquecer durante o dia. Um hematoma amarelado no braço esquerdo. Marcas antigas no quadril. Um corte fino próximo à sobrancelha.
Cicatrizes contam histórias que ninguém perguntou se eu queria viver. Umas novas. Outras antigas. Muitas que ainda doem.
Respiro fundo.
Não choro. Nunca choro antes de operar. Emoção turva a mão. E aqui, uma mão trêmula mata.
Meu nome é Rafaela. Tenho vinte e sete anos. Sou médica cirurgiã. Loira, olhos azuis, corpo moldado não por vaidade…, mas por controle.
Cada detalhe meu pertence a um homem que governa esse morro com sangue.
Depois de um banho rápido e preciso, me arrumo e saio da casa onde moro há anos…, mas nunca consegui chamar de minha.
[…]
O posto médico improvisado fica nos fundos de uma casa abandonada. Tigre mandou montar quando percebeu que manter gente viva também é estratégia. Um traficante que sobrevive é um soldado que continua devendo.
Jéssica já está lá quando chego. Olhos castanhos atentos, cabelo preso às pressas, mãos firmes apesar do medo que ela finge não sentir.
JÉSSICA—Doutora…_ Ela começa, mas para quando vê meu rosto. —Ele fez de novo, né? _ Não respondo. Visto as luvas. Ajusto a máscara. Aqui dentro, o mundo precisa ser reduzido ao essencial.
RAFAELA—Quantos feridos?
JÉSSICA—Dois já morreram no caminho. _ A voz falha por um segundo. —Tem mais um chegando. Está feio. _ O barulho da maca sendo empurrada invade o espaço antes que eu pergunte qualquer coisa. Homens armados entram, rostos tensos, dedos inquietos nos gatilhos. No meio deles, um corpo ensanguentado.
O homem está inconsciente. Camisa encharcada de vermelho. Respiração irregular. O peito sobe e desce com dificuldade.
RAFAELA—Coloquem na maca. _ Corto a camisa dele sem hesitar. O sangue escorre quente. Vivo. A bala entrou fundo, abaixo da clavícula esquerda. Um tiro limpo. Profissional. Não é bala perdida.
JÉSSICA—Pressão caindo. _ ela avisa
RAFAELA—Soro. Agora. _ Enquanto minhas mãos trabalham, minha mente analisa. O ferimento não combina com traficante comum. O corpo é forte, mas disciplinado. Não há tatuagens visíveis. As mãos… calejadas, mas não de quem segura arma o tempo todo.
Algo não fecha.
RAFAELA—Ele falou alguma coisa? _ pergunto a um dos homens.
HOMEM—Não. Caiu mudo. _ Abro o tórax com precisão. Sangue jorra. O cheiro metálico domina o ar. Meu foco se estreita até não existir mais nada além daquele corpo tentando morrer nas minhas mãos.
RAFAELA—Aspiração. _ peço.
JÉSSICA—Aqui. _ Trabalho rápido. Técnica. Fria. Se eu pensar demais, paro. Se eu parar, ele morre. Quando finalmente retiro a bala, sinto um alívio breve demais para ser comemoração.
RAFAELA—Ele vai viver. _ Os homens se entreolham. Um deles assente e sai para avisar quem manda. Sempre avisam Tigre quando algo sai do controle… ou quando algo dá certo demais.
[...]
Horas depois, o homem ainda está desacordado, mas estável. O silêncio volta a ocupar o espaço. Jéssica limpa os instrumentos. Eu tiro as luvas, sentindo o peso do dia cair sobre meus ombros.
JÉSSICA—Doutora…_ Ela hesita. —O Tigre quer saber quem é._ meu estômago revira.
RAFAELA—Diz que ainda não acordou. _ Ela assente e sai. Eu fico.
Não sei por que fico. Talvez porque algo naquele rosto, mesmo coberto de cortes e sangue seco, me puxe para perto. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo… algo fugiu do controle do Tigre antes mesmo de ele perceber.
O homem geme baixo. Os olhos se abrem devagar. E quando ele me encara… eu sei.
Não porque alguém me contou. Não porque ele fala. Mas porque o olhar dele não é de quem cresceu aqui. Não é de quem obedece por medo.
É um olhar treinado. Lúcido demais.
XXX—Onde eu estou? _ A voz sai rouca, mas firme. Meu coração dispara. Se ele fala demais, se pergunta demais, se alguém escuta… aproximo meu rosto do dele, mantendo a expressão neutra.
RAFAELA—Você foi ferido. Está vivo porque eu sou boa no que faço. _ Ele me observa em silêncio. Um segundo. Dois. Depois, um canto da boca se move, quase um sorriso contido.
XXX—Rafaela. _ Meu sangue gela.
RAFAELA—Como sabe meu nome?
XXX—Porque você não é como eles. _ Ele respira com dor. —E porque você não vai me entregar. _ Não é uma pergunta. É uma certeza.
Nesse instante, entendo duas coisas com clareza brutal.
A primeira: esse homem não é alguém que Tigre possa saber quem é.
A segunda: salvar a vida dele pode ter sido o erro mais perigoso da minha vida.
E, ainda assim, quando escuto passos se aproximando do lado de fora, meu corpo se coloca automaticamente entre ele e a porta. Não por coragem.
Mas porque, pela primeira vez em anos… algo mudou dentro de mim.
AMORES VAMOS LA COMEÇAR COM MAIS UM SURTO.