06 E PATÉTICO

1547 Palavras
JESSICA NARRANDO É difícil… difícil demais saber tudo o que o Tigre faz com a Rafa e não poder fazer nada. Em outros morros, dependendo de quem comanda, uma denúncia ao chefe já resolveria muita coisa. Já faria alguém intervir. Já colocaria limite. Mas aqui não. Aqui o chefe é o chefe dos chefes. Aqui o chefe é quem agride. É quem trai. É quem maltrata. Meu nome é Jéssica Almeida. Tenho vinte e sete anos. Morena, olhos castanhos, cabelos longos da mesma cor, batendo na cintura. Nasci e fui criada no Morro da Maré e, desde que me entendo por gente, esse lugar sempre foi marcado pela violência. Mas desde que o Tigre chegou… a violência deixou de ser o pior. O medo tomou o lugar de tudo. Antes dele, com o antigo dono, os moradores ainda saíam para a rua. Ainda conversavam nas portas de casa. Ainda existia um resto de normalidade, mesmo dentro do errado. Ele não era santo. Longe disso. Mas era melhor que o Tigre. Não governava pelo terror. Não espalhava medo só para provar poder. Cobrava quando alguém estava no erro. Sim. Mas não por qualquer coisa. Não só por existir. Bom… como já devem saber, eu sou enfermeira aqui no morro. Não era o lugar onde eu queria trabalhar. Nem a forma como eu queria exercer a minha profissão. Mas, desde que a Rafaela me chamou para trabalhar ao lado dela… eu não me vi fazendo outra coisa além de ficar aqui. Ao lado dela. Seguindo. Resistindo. Cuidando de quem precisa, do jeito que dá. Aqui existe um hospital. Ou algo que tentaram transformar em um. Temos paredes, macas, alguns equipamentos. Mas recursos… quase nenhum. Tudo é improviso. Tudo é no limite. Tudo depende mais da nossa vontade de salvar do que das condições para isso. Mesmo assim, eu fico. Porque, se a Rafa continua, eu continuo também. E porque, no meio de tanto caos, ainda existem pessoas que precisam de cuidado… mesmo que o mundo delas esteja desmoronando ao redor. Tigre é o tipo de homem que causa medo só por respirar no mesmo ambiente que você. Mesmo com todo esse medo espalhado pelo morro, os moradores ainda tentam seguir vivendo. Ainda tem pagode nas praças, alguns bailes improvisados nas madrugadas… a vida insiste em girar. Mas basta ele aparecer para tudo mudar. O clima pesa. As conversas diminuem. Os sorrisos somem. As pessoas ficam tensas, andando como se pisassem em ovos, com receio de qualquer passo em falso custar a própria cabeça. Conheço a Rafa desde criança. Não éramos amigas, mas sempre via ela na escola. Raramente nas ruas. Era o tipo de menina que vivia focada no futuro, como se deixasse para viver depois. Sempre educada, sempre correta. Um “oi”, “bom dia”, “boa tarde”. Às vezes trocávamos duas ou três palavras e só. Nada além disso. Foi apenas depois de adultas, já formadas, que eu realmente a conheci. E vou te falar uma coisa… Quando conheci a Rafaela de verdade, percebi de imediato que ela era uma mulher incrível. Forte, inteligente, diferente de qualquer pessoa que já tinha passado por aqui. Tigre não deixou ela concluir nem dois anos de estágio. Em menos de um ano e meio, já tinha trazido ela para trabalhar no morro. E, sendo sincera… rafa parece que nasceu para isso. Para operar. Para salvar. Eu nunca vi Rafaela perder um paciente aqui dentro. Sim, muitos morreram. Mas aqueles que já chegaram sem chance nenhuma, sem nem dar tempo de começar a lutar. Porque, quando existe a mínima possibilidade… ela agarra com tudo. Luta até o último segundo. Rafa nasceu com o dom de salvar vidas. Mas, até hoje, eu ainda não vi ninguém capaz de salvar a vida dela. A última invasão foi pesada demais. Muitos feridos. Muito sangue. Muito desespero. Mas nenhum como o moço deitado naquela maca. Ainda não sei o nome dele e, para falar a verdade… prefiro continuar sem saber. Tigre já está desconfiado só pelo fato de ele ter sobrevivido. E eu não sou o tipo de pessoa que sabe mentir. Muito menos quando estou com medo. E eu estou com medo agora. Então, quanto menos eu souber sobre esse homem que suportou um ferimento daqueles com tanta força, melhor para mim. Melhor para a minha sobrevivência. Melhor para continuar respirando dentro desse morro. Mas parece que a Rafa não pensam como eu. Não sei o que a Rafa viu… ou o que já sabe sobre esse homem. Mas ouvi um dos vapores do Tigre comentar que ela se colocou na frente dele mais de uma vez hoje. Disse também que ela peitou o Tigre dentro do hospital. Isso vai custar caro. Sempre custa. Ainda mais agora que ele mandou ela ir embora. Entro no quarto do ferido e ele permanece em silêncio. Só me observa. Tentou puxar assunto quando me viu, mas aqui dentro, quanto menos conversa, melhor para todo mundo. Ajeito o dreno com cuidado, verifico os curativos e percebo que ele é mais resistente do que imaginávamos. O corpo reagiu bem. Forte demais para alguém que quase morreu horas atrás. JÉSSICA — Eu vou te dar o calmante. _ Ele me olha e concorda com um leve movimento de cabeça. RICARDO — Não vai perguntar o meu nome como a sua amiga? _ n**o. JÉSSICA — Prefiro não saber ainda. _ Ele sustenta meu olhar. RICARDO — Não me vê como um paciente? _ Concordo devagar. JÉSSICA — Vejo, sim…, mas também vejo como um problema. _ Ele absorve a resposta sem reagir. Apenas aceita. — Vai dormir logo. _ Ele não fala mais nada. Aplico o calmante no soro e observo o líquido descer lentamente pelo tubo transparente. Em poucos minutos, o efeito começa. Sento na poltrona ao lado da maca e fico ali, em silêncio, escutando apenas o som da respiração dele e o peso da noite que promete ser longa demais. [...] Abro os olhos no susto. Eu tinha pegado no sono. Só temos esse moço internado e, por isso, me permiti descansar alguns minutos na poltrona. Coisa rara por aqui. Perigosa até. Vejo o ferido se mexer na maca, mas não foco nele. Caminho até a porta e a abro. No instante em que vejo Rafaela desacordada sobre uma maca improvisada… eu paraliso. Por alguns segundos, simplesmente travo. Betinho, vapor do Tigre, me encara com expressão dura. Eu não digo nada. Apenas me mexo. Puxo a maca e sigo com Rafaela para a sala ao lado. JÉSSICA—O que aconteceu com ela? _ pergunto, mesmo já sabendo a resposta. BETINHO—Não pergunta. Só cuida dela e não deixa ela morrer. _ a voz vem seca. Olho séria para ele. JÉSSICA—Se ele não quisesse que ela morresse… não fazia isso com ela. _ Betinho sustenta meu olhar por um segundo. Frio. BETINHO—Faz teu trampo, mina. _ Me calo. Engulo tudo. Não porque concordo…, mas porque aqui dentro, falar demais só piora. Começo a cuidar dela como posso. JÉSSICA—Sem ela aqui, preciso de ajuda pra fazer o raio-x._ Ele assente. BETINHO—Vou ajudar. _ Não respondo. Apenas puxo a maca e levo Rafaela para a outra sala. Tigre só comprou o que precisava para manter os vapores vivos. Nada além disso. O “hospital” tem o mínimo. Aparelhos velhos, alguns funcionando por milagre. Mas ainda temos o suficiente para localizar balas, identificar fraturas e decidir se vale a pena esperar a recuperação… ou não. Sim. Se um vapor se machuca e a recuperação passa de três meses… Tigre elimina o problema. Simples assim. Betinho me ajuda a colocar Rafaela na maca do raio-x. Assim que posiciono o corpo dela, respiro fundo e começo a examinar o que ele fez com ela dessa vez. [...] Ele bateu para marcar. Para apagar. Mas não para matar. Não há fraturas graves. Apenas o suficiente para lembrar quem manda. O braço estava deslocado. Consegui colocar no lugar com cuidado e rapidez. A costela trincada vai doer... e muito —, mas não é algo que leve tanto tempo para melhorar. Vai exigir repouso. Coisa que eu sei que ela não vai ter. Coloco Rafaela no soro. Ela vai acordar com dor por causa da costela. Muita dor. Temos medicamentos fortes para isso. Guardados. Controlados. Não são feitos para qualquer um. Aqui dentro, nada é para qualquer um. Mas Rafaela… não é qualquer pessoa. JESSICA—Ela vai ficar bem. Mas vai precisar de remédios fortes para dor. _ aviso ao porta-voz, mantendo a voz firme. —Tem uma costela trincada e o braço eu já coloquei no lugar. _ Chega a ser patético ter que explicar isso. Ter que detalhar cada ferimento para o homem que trabalha para o monstro que fez aquilo com ela. BETINHO—Vou passar pro chefe e já volto. _ Apenas concordo com a cabeça e observo ele sair. Quando a porta se fecha, o silêncio pesa. Olho para Rafaela deitada na maca. machucada. Marcada. Ferida mais uma vez. Mas, dessa vez… foi pior. Bem pior. AMORES ME DESCULPE POR ONTEM, TIVE UMA PERDA NA FAMÍLIA E MEU AUTISTA EM CRISE. MAS VAMOS LA COMEÇAR COM O SURTO. COMENTEM E VOTEM MUITO.
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