06 Ruby

2064 Palavras
Eu poderia negar um milhão de vezes, mas a minha única preocupação ainda continuava sendo o Dean. Era ele, eu queria ter ido embora com ele e não queria estar aqui agora. Não dá para segurar algo que escapa das suas mãos toda hora, não se pode segurar o que já estava destinado a ir embora desde o início, eu sei disso. Mas não significa que ainda não dói. Eu sabia que isso iria acontecer uma hora ou outra, e aconteceu. O Dean descobriu sobre a minha vida dupla, entendeu tudo errado e não quer mais me ver. As vezes também os caminhos tomam rumos que não queremos, mas que são necessários para que fiquemos bem. Naquela noite em que o Elayja, o garoto daquela maldita escola particular em que todos aqueles riquinhos mimados me odiavam pelo simples fato de ser pobre apareceu no quarto como o meu primeiro cliente, por dentro fiquei apavorada. Eu tive contato com ele algumas raras vezes, uma delas em uma aula prática de educação física. Apenas ouvia sobre ele, o garoto rico como todos aqueles outros. Nunca nem sequer esbarrei com ele pelos corredores, e também sequer o via pelos cômodos da instituição. — Seu nome é Elyja, Elay é apelido. — Respondi grosseira caminhando para trás, mesmo já estando colada na parede, eu estava recuando dele como se ele fosse um criminoso que tivesse a intenção de me machucar. — O que eu entendi era que era para o Senhor Nakashima estar aqui, e não você. — Você está com medo de mim, Ruby? — Elyja questiona desencostando a cabeça da porta, e a forma como ele me chamou pelo nome como se fôssemos íntimos me desencadeou ainda mais um receio. — Eu nunca mais soube nada de você. Bom… até agora. Por que desapareceu daquela escola? — Não tenho medo de você, e você sabe bem o porquê que fui embora. O que quer? Quer me humilhar também? Veio até aqui para me rebaixar como aqueles idiotas, como aqueles seus amiguinhos? — Questionei em um esbravejo, meu rosto esquentando cada vez mais enquanto ele parecia calmo e compreendendo tudo o que eu estava sentindo. — Te humilhar? — Ele falou como se a minha pergunta fosse a maior idiotice que ele já ouviu. Então começou a caminhar em minha direção, tentei caminhar para trás na medida em que ele se aproximava mas já não tinha mais para onde caminhar. Quando menos percebo ele está de frente para mim, e eu sem nenhuma reação ergui o queixo encarando seus olhos escuros me sentindo próxima demais dele. — Não… — Elayja sussurrou deslizando a ponta do indicar por meu braço nu até chegar em uma mecha de cabelo minha, escorrida em meu ombro, e então ele a segurou entre os dedos como se apreciasse o toque. Seus dedos percorreram para o meu pescoço até a minha nuca e eu virei o rosto para o lado de uma vez dando sinais de que sentia repudia do seu toque, e então como se estivesse se contendo ele apoiou os antebraços cobertos pela jaqueta preta em cada lado do meu rosto fazendo com que assim, parasse de me tocar. Seu rosto ficou próximo demais do meu, me fazendo prender o ar sem perceber, meu peito subia e descia, Elyja encarou meu b***o rapidamente mas voltou a encarar meus olhos, não havia malícia, eu arriscaria até mesmo dizer que foi sem querer. Meu vestido é decotado propositalmente e ele tentou quebrar o contato visual olhando para baixo. — Eu não vejo nenhuma necessidade de fazer isso com você, peço perdão por aqueles que acharam que tinha alguma necessidade e foram uns idiotas com você. A voz dele soprou meu rosto. Encaro seus lábios rosados e úmidos por meio segundo, quando volto a olhar para os seus olhos percebo que ele observava o meu comportamento atentamente. — E o que você quer então? — Questionei tentando manter a firmeza, sem parecer mole demais ou que tenha dado trégua. O corte de cabelo dele era atrativo, as mechas de cabelos compridas na altura dos olhos escorridas e rebeldes. Sentia vontade de colocar a mão e tocá-los, senti-los em meus dedos. Passei a me perguntar se talvez ele não teria sentido isso comigo também, e por isso tocou o meu cabelo. Ele abria a boca diversas vezes parecendo procurar por as palavras, mas parou enquanto passou a encarar a minha boca. Parecia hipnotizado retribuindo o meu olhar anterior como se eu tivesse olhado para ele com desejo e aberto espaço para um clima, como se acreditasse ter sido correspondido, achando ser o momento certo para atacar. Virei o rosto quando ele começou a se aproximar, empurrei o seu peito o suficiente para que eu pudesse sair da sua prisão e caminhei até à porta pisando fundo no chão, queria ir embora dali. Eu não sou garota se programa, e eu não quero t*****r com alguém por dinheiro. Quando giro a maçaneta a porta não abre, e então puxo algumas vezes com força como se fosse adiantar mas ela continua não abrindo. Eu bufei alto sentindo a raiva tomar conta de mim, viro para ele e questiono: — Mas que merda! Por que a porta não abre?! O Elyja ficou em silêncio ainda na mesma posição em que estava quando saí caminhando. De frente para a parede ainda com os braços apoiados nela. Encarei as suas costas paradas, firmes sem mover um mísero centímetro, a cabeça também abaixada da mesma forma em que estava antes, eu poderia estar louca mas podia ouvir ele respirando alto como se estivesse nervoso e ofegante. — Você trancou a porta, não trancou? — Questionei mas não tive resposta. — Elyja! Ele virou para mim me olhando normalmente, mas com os olhos aparentando serem mais profundos do que já são naturalmente. — Se sair agora terá problemas com a Ruth. — Foi tudo o que ele falou. Apenas um aviso. Ele estava me confundindo, eu não estava entendo absolutamente nada. O Elyja pagou a Ruth, comprou a noite comigo. Não parecia estar disposto a ter relações comigo, e só tentava se aproximar. — Por que veio até aqui? Me diz. Por que você está aqui? Por sexo? Você poderia ter quem quisesse sem pagar uma fortuna como você pagou, o que veio fazer aqui? Ele apenas tirou os sapatos e deitou na cama encarando o teto, como se não estivesse me ouvindo. Descansou o braço atrás da cabeça e fechou os olhos como se estivesse prestes a dormir despojado, enquanto eu o encarava esperando por uma resposta. — Você realmente precisa pagar garotas de programa para… — Eu ia perguntar se ele pagava garotas de programa para dormirem com ele, mas ele sequer deixou eu terminar de falar. — Você não é garota de programa! — Me cortou. Eu o encarava sem reação, sem saber o que fazer, sem respostas, sem entender os milhares de porquês. Não é tão r**m quanto ter sido comprada por um velho e ele querer me forçar a ter relações com ele, óbvio que nem se compara. Mas também é r**m pelo fato de que eu não sei sequer o que está acontecendo aqui. — Você nunca fez programa. — Ele complementou a própria fala, e coçou o nariz como se estivesse se explicando. — Até agora. — Retruquei. — Não precisa t*****r comigo se não quiser, ainda não se deu conta disso? Semicerrei os olhos com as mãos atadas, em pé ao lado da cama vendo ele deitado, Elyja me olha e sinto desespero misturado com um estremecimento. Sinto vontade de sair dali, sair correndo mas é como se tivessem raízes me segurando no chão como se eu fosse uma árvore. — Não estou entendendo você. — Mudei a direção do olhar para outro ponto me sentindo intimidada. — Pagou tão caro, e não está disposto a t*****r comigo? — Quem disse que eu não estou disposto? — Levantou o tronco se apoiando nos antebraços e retrucou de uma vez, quando o encarei com uma sobrancelha arqueada ele se recompôs e pigarreou desconcertado. — É… sou homem… homem não n**a coisas assim… de uma mulh… — Ele estava se explicando parecendo envergonhado, e senti que a camada de gelo que senti antes estava refrescando. — Tudo bem, eu já entendi. — O interrompi. Encarei a porta e em seguida o encarei ali deitado naquela cama, penso em Ruth e o ódio que ela teria de mim se eu fugisse de alguém tão importante para os negócios dela. O filho do sócio dela, sócio esse que ela lambe o chão que ele pisa. Acho que seria meio cedo para tirar as conclusões de que estou em segurança aqui com ele, mas não tem porquê ele estar tão calmo assim sem me forçar a nada. Eu só preciso separar o dia amanhecer. Caminho devagar até a beirada da cama enquanto Elyja me observa, me acomodei perto dele e senti um frio na barriga com a sensação de tê-lo ao meu lado junto com a sensação de sentir a sua coxa encostando na minha. — Eu paguei a Ruth com a intenção de te ajudar, não sou mulher mas vendo as atitudes e o modo como todos aqueles homens se comportam, acho que se um deles tivesse pagado por um programa seu, você iria ser… — Ele demorou um pouco para falar, devia achar a palavra muito impactante. — Iria ser estuprada. Senti nojo, vi que você estava desesperada. Voltei a minha atenção para ele, prestando atenção no que ele estava falando. Agora estava em silêncio deixando que ele falasse e se explicasse, não confiava 100% nele, mas a situação era bem melhor do que poderia ter acontecido se ele não fosse ele quem estivesse aqui. Tenho absoluta certeza que nenhum daqueles homens iria ter trocado pelo menos duas palavras comigo. — Ah, e eu tranquei a porta porque imaginei que você iria se assustar e fosse tentar fugir sem pensar antes. — Ele se explicou outra vez. — Por que fez isso por mim? — Semicerrei meus olhos encarando os dele, os olhos que são apertados e escuros cheios de mistério. Quando ele está sério, o seu olhar parece de um i****a mulherengo, aí quando ele abre a boca para falar é alguém gentil e educado. Eu não consigo confiar, sinceramente não consigo. Algo me diz que há algo por trás, que ele está me manipulando e que tem algo de r**m prestes a acontecer comigo através dele. — Te ajudar, apenas isso. — O Elyja encarou os próprios pés parecendo não querer me olhar nos olhos. — De graça? Sem esperar por nada em troca? — Questionei ainda mais afundo, sem um pingo de confiança. — Você não acredita que ninguém possa querer te ajudar só por ajudar mesmo? — Ele me encarou fixamente nos olhos agora, parecendo me repreender. Eu não tinha recebido um olhar tão fixo dele como esse, ainda não tinha, foi algo que meu corpo processou lentamente pela estranheza. — Não. Ninguém nunca quis me ajudar de graça, a troco de nada. Não acho que um desconhecido iria ser diferente. — Me considera um desconhecido? — O modo como ele questionou isso soou como se ele tivesse se ofendido, o que me fez ficar confusa. Afinal de contas, ele realmente não era um desconhecido? Amigos não éramos. — Sim. — Respondi como se fosse óbvio. — Não somos amigos. As primeiras palavras que troquei com você fazem somente alguns minutos. Ele respirou fundo, parou de me olhar, deitou novamente com o rosto para cima e passou a encarar o teto. — É, tem razão. Então sem saber o que responder eu fiquei em silêncio, me pergunto se iríamos ficar a noite inteira assim, em silêncio. Era desconfortável, ainda mais porque eu tinha a sensação de que ele havia se chateado, não sei porquê, e também era estranho eu estar me importando com isso. Quando o dia amanhecer talvez nunca mais eu o veja, como da última vez, quando eu fui embora daquela merda de escola particular e fui para uma escola pública perto de uma periferia com pessoas oprimidas como eu, onde fui muito mais bem aceita. Apesar de que eles não sabem da minha vida, porém, agora o Dean sabe, e em nenhum instante sequer eu consegui relaxar sabendo dessa informação.
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