O cheiro de mofo queimava as narinas de Lara. O chão de concreto frio do cativeiro roubava o calor dos seus pés descalços, e as paredes cinzentas pareciam se fechar mais a cada segundo. Lá fora, nenhum som. Nem carros, nem vozes. Nem vida. Somente o silêncio da exclusão — o silêncio que Solange Ferraz escolheu para ela. Lara apertou os olhos tentando identificar a origem da claridade fraca que vinha de uma fresta no alto da parede. Talvez fosse um porão de fazenda, ou um cômodo subterrâneo de alguma casa abandonada. Mas nada fazia sentido. A única certeza era a dor no corpo e o medo nos ossos. Ela não lembrava direito como chegara ali. A memória era um borrão. Um carro preto. Um lenço com cheiro adocicado. Alguém dizendo “só obedece, favelada”. Depois, escuridão. — Alguém aí?! — gritou,

