Ana teve um sonho estranho novamente, dessa vez a garotinha estava com ela, era tarde e Ana se viu no jardim com alguns brinquedos, a garotinha correu para o pomar, Ana a seguiu, notou seu corpo pequeno e leve, provavelmente na idade da garotinha, de repente estava noite, Ana andava pelo pomar, parou em uma mesa de madeira velha, onde a garotinha estava sentada, tinha uma lanterna na mesa, Ana sentou-se em frente a ela.
-Por que esse buraco tão grande?- perguntou a garotinha e uma voz atrás de Ana respondeu.
-Vou plantar algumas mudas, o que vocês acham de um pessegueiro ou mais uma cerejeira?
Ana virou de costas e viu o avô cavando, havia um buraco imenso no chão e algumas lanternas ao seu lado.
-Os dois.- disse a garotinha Sofia, o avô de Ana riu.
-Acho que podem ser os dois, o que acha Eliseu? Pessegueiro e cerejeiras?
Dois homens se aproximaram, um Ana reconheceu que era Sr. Eliseu, o amigo dos avôs, mas o de trás Ana não conseguia ver o rosto, ele carregava algumas coisas.
O sonho mudou novamente, Ana não estava mais na chácara, estava na cidade e entrava em uma casa vermelha, seu avô estava na frente destrancando a porta, como uma casa comum no interior, tinha um grande quintal a sua volta, mas estava m*l cuidado, eles entraram, dentro estava limpo, mas não havia muitos móveis, na sala apenas havia uma mesa de madeira e algumas cadeiras, eles seguiram para um quarto, Ana sentou-se no chão e começou a desenhar nas paredes, o avô tirava algumas madeiras pregadas na janela.
Ana viu uma poça vermelha no chão e molhou seu giz nela e continuou desenhando.
-Meu Deus! O que fizeram aqui?- disse o avô e Ana se virou para ver o avô encarando a poça vermelha.- Ana não encoste nisso!Nós vamos embora!- disse o avô a puxando pela mão.
-Vovô, já consertou a casa toda? – perguntou Ana confusa, eles tinham acabado de chegar.
-Preciso comprar algumas coisas, quer tomar sorvete?- perguntou o avô sorrindo.
- Quero!!- respondeu toda animada segurando a mão do avô enquanto subiam na caminhonete branca.
Ana acordou cansada, parecia que não havia dormido, sentia seus membros pesados e ao olhar no smartphone notou que já passavam das onze horas da manhã, sentiu-se culpada, queria passar o tempo com sua avó que estava sempre sozinha e lá estava ela dormindo até quase meio dia.
Desceu as escadas e foi em direção a cozinha, conseguia ouvir a avó e Marta conversando e pareciam falar das visitas no domingo, quando chegou na cozinha as duas começaram a perguntar se ela estava bem, porque segundo elas Marta acordava todos os dias às 5:00 horas da manhã e avó às 5:50 e o único motivo que ela imaginaram para ela estar dormindo tanto é estar doente, Ana não comentou que nos finais de semana esse era o seu horário normal para acordar, apenas disse que teve alguns pesadelos.
-Dona Lurdes é bom benzer a menina, conheço uma benzedeira muito boa- disse Marta.
-Para que?- perguntou a avó.
-Esses pesadelos, dormir m*l, deve ser mau-olhado.
Ana ergueu uma sobrancelha e perguntou se aquilo era sério.
-Eu acho que é porque estou acostumada a dormir apenas em minha cama- disse Ana.
- Marta você leva uma blusa dela para benzer para mim?- perguntou a avó.
- Levo sim é bom, já levei do Igor também, mas levei escondido porque ele não acredita nessas coisas e olha que a benzedeira falou que estava cheio de encosto e inveja.
-Depois você traz uma roupa para Marta Ana - disse Avó e Ana achava tudo aquilo uma bobagem, mas sabia que sua avó era muito supersticiosa, então apenas acenou, Marta fazia o almoço hoje e avó estava sentada na mesa, Ana foi visitar o avô o enfermeiro do plantão era o Bruno, estava dormindo na poltrona no fundo da sala, Ana tentou não fazer barulho, lembrou-se de seu sonhos de seu avô cuidando dela sempre sendo gentil, sentiu algumas lágrimas se formando em seus olhos, as enxugou e saiu do quarto.
Ela almoçou junto com avó, o enfermeiro e Marta, após comer foi até o lado de fora, viu Beto e um homem que ela não conhecia trabalhando, quando ouviu uma voz vindo de trás dela.
-Você não viu minhas mensagens?- disse Igor, ela se virou rápido e deu de cara com ele, eles tinham poucos centímetros de diferenças então seus olhos estavam quase na mesma altura, os dois se afastaram um pouco envergonhados, Ana viu os cabelos escuros colados na testa por causa do calor e sua pele parecia mais bronzeada.
-Ainda não, meu celular está sem bateria...- disse Ana.
-Eu mandei bom dia e perguntei se amanhã à noite quer ir em uma festa na casa de uma amiga? Sabe sair um pouco.
Ana não considerava uma pessoa muito de festas, costumava ir por insistência das amigas e do namorado, mas também pensou que passaria o mês todo na chácara e seria bom conhecer mais alguém da idade dela, por mais que adorasse sua avó e Marta fofocando das senhoras da igreja.
-Bem acho que iria ser legal, que horas?
Os dois combinaram que Igor iria buscá-la no dia seguinte, Igor voltou ao trabalho e Ana foi caminhar pela propriedade, então começou a pensar se era boa ideia sair com alguém que ela m*l conhecia para casa de alguém que ela não conhecia, mas ela lembrou que ele tinha sido legal com ela, era uma pessoa fácil de conversar e aparentemente ajudava os tios em tudo, Ana virou-se e viu Igor com um machado cortando um tronco de uma árvore que estava quase morta, ela notou seus braços fortes e pensou como ele ficava realmente bonito trabalhando, ela percebeu que estava encarando demais e deixando sua imaginação indo por caminhos que não deveriam, ele tinha uma namorada e lembrou-se dele falando todo animado sobre ela. A empolgação pelo convite da festa sumiu um pouco.
A tarde foi calma, assistiu a novela com sua avó, conversou com seus amigos por mensagem e com os pais, ajudou a avó a lavar algumas roupas de cama, tomou café da tarde, Ana pensou que estava realmente ficando um pouco entediada.
Ajudou a avó terminar o jantar, avó disse estar cansada e foi para cama mais cedo, eram 20:00 e Ana não tinha nada para fazer, colocou seus fones de ouvido e foi andar pela casa, abriu as portas dos quartos vazios, tinham dois um ao lado do seu e outro ao lado do de seus avôs, subiu as escadas e foi para o segundo andar, não havia subido lá desde o dia que chegou na casa, havia uma sala com alguns móveis velhos e algumas portas, na primeira porta era um quarto cheio de caixas e móveis velhos empilhados, não havia modo de andar por aquele quarto, então Ana tentou o próximo e a porta não abriu, estava trancado, Ana decidiu que perguntaria para sua avó no outro dia.
Ana deitou-se no sofá antigo, estava ouvindo música enquanto lia algumas mensagens, quando ouviu algo, olhou para os lados e nada, teve uma sensação estranha, então olhou para frente novamente a cortina estava balançando como se o vento estivesse forte, mas a janela estava fechada e da parede toda, era apenas uma, Ana sentou-se rapidamente e de repente viu botas quando elas levantaram, tinha alguém atrás delas, novamente Ana ouviu algo, uma voz que dizia: “Ana”.
Ana desceu as escadas correndo, apenas percebeu que estava correndo quando chegou no térreo, estava na sala principal da casa, sua respiração estava pesada, quando ouviu alguém vindo do corredor.
-Ana tudo bem?- perguntou Elena, que vinha com uma xícara de chá nas mãos.
-Eu...eu acho que tem alguém lá em cima...não tenho certeza...
-Onde?
As duas subiram, Elena pegou o relógio de bronze e falou para Ana ficar com o celular em mãos, as duas subiram as escadas, quando chegaram ao segundo andar não viram nada, Elena olhou por trás das cortinas e não havia nada, decidiram acordar a avó de Ana para avisar por via das dúvidas.
-Não é melhor ligar para a polícia?- perguntou Elena.
-Meu bem, será que não foi um sonho? Você escutou algo? A polícia demora meia hora para chegar- falou a avó, parecia tranquila.
-Eu estava acordada vó.
-Podemos ir com o meu carro e se realmente tiver alguém lá encima e tiver armado?- dizia Elena
As três estavam na sala juntas, ouviram um carro chegando e batidas na porta bem rápidas, a voz de Beto chamando, Elena atendeu a porta, Igor na verdade foi o primeiro a entrar, usava sua roupa de dormir e estava com uma espingarda em suas mãos, o tio também tinha uma arma e usava calças de dormir e uma camisa m*l abotoadas atrás vinha marta com dois cachorros imensos na coleira e um facão com 60 cm em uma das mãos. Avó havia ligado para os vizinhos quando Ana a acordou.
Os dois armados foram para os andares de cima com um dos cães e Marta ficou embaixo com um cão e seu facão, Ana olhou surpresa para os vizinhos, Marta era uma mulher pequena e pouco gorda, sempre tinha o cabelo claro em um coque e ali estava ela de camisola e um casaco armada, Elena também pareceu surpresa.
-Que bom que vieram, as meninas queriam chamar a polícia- disse Avó.
-Nossa se eles acreditarem que a ligação é séria, pode esperar 30 ou 40 minutos- disse Marta fazendo carrinho em seu cachorro gigantesco.
-Por isso vocês tem armas?- perguntou Elena.
-É para caçar os porcos do mato, eles são bravos e matam os cachorros, quando começa aparecer onça perto do sítio, Beto dá uns tiros a noite, mas é só para espantar ou se não comem todas as galinhas, uma já matou um cachorro velho meu..
-Meu avó também tinha algumas armas quando era criança.- Ana lembrou-se- Onde estão vó?
-Não sei, apenas seu avô sabe onde enfiaram elas.
-Por que a senhora não contrata caseiros para propriedade? Para a senhora não ficar sozinha-perguntou Elena.
-Não precisa, Marta e Beto cuidam de tudo.
-Sempre achei estranho mesmo, a Senhora e o Sr. Lorenzo são os únicos que moram afastados da cidade que nem cachorro tem- disse Marta com seu jeito simples de falar.
-Para que vou querer cachorro? Para ficar cavando para todo lado?
-Eles avisam sempre que alguém chegar perto.- disse Marta.
Igor desceu as escadas.
-Dona Lurdes nós olhamos o primeiro e o segundo andar não achamos nada, mas no segundo andar tem uma sala trancada, meu tio pediu a chave para olharmos dentro.
-Aquela sala está trancada a muito tempo, só tem bagunça lá dentro, nem me lembro onde coloquei as chaves.
-Nós podemos quebrar a fechadura se a senhora não se importar- disse Igor.
-Não precisa, acho que foi só um sonho de Ana.
-Não foi-disse Ana, ela não estava dormindo.
Marta fez chá e Igor e Beto depois de olhar o térreo foram verificar a propriedade, Ana sabia que a propriedade era grande, mas boa parte era coberta por árvores e mato, então ela nunca se arriscava a caminhar por lá.
Depois que voltaram eles falaram que podiam passar a noite na casa com elas, avó falou para usaram os quartos vazios do primeiro andar, os cães ficaram na varanda,todos checaram as portas e janelas antes.
Quando Ana saiu do banheiro deu de cara com Igor, a avó sempre deixava a luz do corredor acesa.
-Oi, como você está?
-Bem levei um susto, você acha que realmente não tem mais ninguém em casa?- respondeu Ana, ela não sabia o que dizer.
-Olhamos por todo lado, embaixo das camas, atrás das portas e não achamos nada, talvez tenha fugido, mas o benefício de morar no interior é que quase nunca acontece algo, mesmo crimes ou coisas do tipo.
-Não estava dormindo, vi as botas de alguém que estava atrás das cortinas.
-Entendi, já volto – disse Igor e saiu andando.
Ana foi para seu quarto, deixou a luz acesa e a porta entreaberta, ele bateu na porta e entrou ao vê-la sentada na cama, ele se aproximou e entregou para ela uma faca de caça, estava dentro de uma bainha de couro velha.
-Você se lembra de seu avô te ensinando a caçar quando éramos criança? Nós só pegamos coelhos- disse Igor rindo- Lembro da primeira vez você não queria deixar seu avô m***r o coelho, mas Sofia te convenceu, ela já estava acostumada
-Lembro um pouco de caçar com meu avô, acho que ele já matou alguns lobos guarás quando era pequena – Ana sentiu-se culpada, sabia que o animal estava em extinção- e lembro de pescarmos juntos.
Igor assentiu, ele ficou olhando para Ana por alguns segundos, Ana começou a corar
- Estou no quarto ao lado, qualquer coisa você grita?
-Lembra um caçador não pode gritar, assusta a presa- disse Ana.
-Você se lembra!- disse Igor sorrindo – deixe a faca embaixo de seu travesseiro, lembre-se de segurar com força o cabo dela caso precise usá-la. Boa noite Ana- disse isso e foi para o seu quarto.
Ana ficou feliz de conseguir lembrar-se de uma memória com Igor, de quando seu avô a ensinava a caçar, mas via apenas Igor, o Avô e o pai de Igor, mas não sabia o por que mas Sofia nunca estava em suas lembranças, apenas em seus sonhos. Nesse momento o ar faltou em seus pulmões e algo ressoou em sua cabeça, Sofia, a voz que a chamou quando viu que tinha alguém atrás das cortinas, a voz fina que a despertou e a fez correr, a voz que vinha de trás dela, em sua mente a voz se repetia, a mesma de seus sonhos, Ana não conseguia entender. Essa noite Ana não conseguiu dormir.