Capítulo 16

1374 Palavras
Pete on Eu nunca soube o que era estar verdadeiramente livre. Passei a vida toda preso a correntes invisíveis, moldado pelas expectativas e mentiras do meu pai. Desde pequeno, ele me dizia que nossa família era poderosa, que eu deveria seguir seus passos sem questionar. Mas agora, sentado nesta sala fria, observando a escuridão além da janela, percebo que nunca fui mais do que um peão no seu jogo. Vegas abriu meus olhos para a realidade. Eu queria odiá-lo por isso, mas não consigo. Foi ele quem arrancou o véu de ilusões que cobria minha vida e me mostrou a verdade nua e crua. Meu pai nunca me viu como um filho, apenas como um instrumento para fortalecer seu império. E eu, por tanto tempo, me iludi achando que poderia conquistar seu amor. A cena da reunião com os fornecedores de Nabin ainda está fresca na minha mente. Vegas não precisou dizer muito — sua presença e o peso de sua reputação fizeram a maior parte do trabalho. Alguns fornecedores aceitaram trocar de lado sem hesitação, outros precisaram de uma ameaça mais direta. E alguns, bem, nunca mais serão um problema. Pela primeira vez, vi de perto como esse mundo realmente funciona. Eu deveria estar aterrorizado, mas o que sinto é algo diferente. Determinação. Nabin não merece minha lealdade. Ele traiu minha confiança, me tratou como uma peça descartável e agora, quando ele deveria estar lutando por mim, simplesmente me esqueceu. O tempo todo, fingi que poderia existir alguma redenção para ele, mas a verdade é clara: meu pai precisa cair. E eu estarei ao lado de Vegas para garantir que isso aconteça. Levanto-me do sofá e caminho até o quarto. Vegas está lá, sentado à beira da cama, mexendo no celular. Ele levanta os olhos quando me vê, sua expressão impassível, mas eu sei que ele está me avaliando. Desde que declarei minha decisão, ele tem me observado com ainda mais atenção, como se tentasse entender se estou realmente pronto para o que vem a seguir. — Alguma novidade? — pergunto, cruzando os braços. — Nossos informantes dizem que Nabin está se movendo. Ele sabe que estamos cortando seus recursos. — Vegas coloca o celular de lado e me encara. — Isso significa que ele vai reagir. E quando ele reagir, precisamos estar preparados. Sinto um aperto no peito, mas não de medo. É como se tudo estivesse se encaixando, como se minha vida finalmente estivesse tomando um rumo. — O que eu preciso fazer? — pergunto, firme. Vegas se levanta e caminha até mim, seus olhos escuros cheios de algo que não consigo decifrar. — Você já escolheu um lado, Pete. Agora, precisa estar pronto para ir até o fim. Eu já tomei minha decisão. E desta vez, não há volta. A noite avança lentamente, mas o sono não vem. Minha mente está acelerada, percorrendo todos os cenários possíveis. Nabin sabe que estamos nos movendo contra ele, e eu me pergunto se ele sente a mesma inquietação que eu. Se ele sente medo. Saio do quarto e encontro Vegas na sala, ainda acordado, um copo de uísque na mão. Ele me observa se aproximar, os olhos avaliando cada detalhe da minha expressão. — Não consegue dormir? — ele pergunta, a voz baixa, quase um sussurro. Balanço a cabeça e me sento ao lado dele. — É estranho. Passei a vida toda achando que sabia quem eu era, mas agora... parece que estou me tornando alguém completamente diferente. Vegas me observa por um longo momento antes de falar. — Às vezes, destruir o passado é a única maneira de construir algo novo. Fico em silêncio, absorvendo suas palavras. Ele está certo. E talvez seja isso que mais me assuste. — Amanhã de manhã, vamos agir. — Vegas continua. — Temos um encontro marcado com um dos últimos aliados de Nabin. Se ele não aceitar nossa oferta, você sabe o que precisa ser feito. Meu estômago se revira, mas não por medo. Pela primeira vez, sinto que estou no controle da minha vida. — Eu sei. — digo, determinado. Vegas sorri de leve e levanta o copo, como se brindasse ao nosso futuro incerto. — Então, bem-vindo ao jogo, Pete. O sol nasce lentamente, tingindo o céu de tons alaranjados e vermelhos. A cidade desperta, mas minha mente já está alerta há horas. Hoje será um divisor de águas. Saio do quarto e vejo Vegas pronto, vestindo um terno escuro impecável. Ele estende uma arma para mim. — Vai precisar disso. — Sua voz é firme, mas seu olhar carrega um aviso silencioso. Este não é mais um teste. É real. Seguro a arma com firmeza, sentindo seu peso na minha mão. Nunca imaginei que um dia seguraria algo assim, mas agora parece quase natural. Respiro fundo e a guardo no coldre sob o paletó. Descemos juntos para o carro, onde um dos homens de Vegas nos espera. O caminho até o ponto de encontro é silencioso. Eu observo a cidade passar pela janela, absorvendo cada detalhe, cada rosto desconhecido. Eles vivem suas vidas sem saber que, em poucas horas, o equilíbrio de poder desta cidade pode mudar drasticamente. Quando chegamos ao galpão abandonado onde a reunião será realizada, sinto meu coração acelerar. Vegas sai primeiro, andando com sua presença dominante e implacável. Eu o sigo de perto, tentando manter minha postura firme. Lá dentro, um grupo de homens já nos espera. O líder deles, um sujeito alto e de feições duras chamado Marco, cruza os braços ao nos ver. — Então, finalmente decidiram me fazer uma visita? — Ele sorri, mas seus olhos permanecem frios. Vegas não perde tempo com rodeios. — Você sabe por que estamos aqui, Marco. Se ainda tem algum juízo, já tomou sua decisão. Marco solta uma risada seca. — E se eu disser que ainda estou considerando minhas opções? Antes que eu perceba, Vegas saca sua arma e a aponta diretamente para a testa de Marco. A sala inteira congela. — Você não tem opções. Ou está conosco, ou está morto. Escolha agora. Meu coração bate forte, e de repente a realidade me atinge com força. Eu sabia que Vegas era brutal, mas ver isso de perto, estar envolvido, é diferente. Minhas mãos começam a suar, minha respiração se torna irregular. Esse é o momento em que preciso mostrar que estou do lado dele… mas tudo dentro de mim grita para recuar. Engulo em seco e dou um passo para trás, meu corpo tenso. Vegas percebe e me encara de relance, mas mantém a arma firme. Marco observa a troca de olhares e sorri, como se tivesse encontrado uma fraqueza. Meu estômago se revira. — Acho que o garoto ainda não está pronto para esse jogo — ele provoca. Vegas não reage imediatamente, mas eu sei que ele está avaliando cada detalhe. Eu quero ser forte, quero mostrar que pertenço a esse mundo, mas nesse momento, não tenho certeza se consigo. Quando voltamos para casa, o silêncio entre nós é pesado. Finalmente, tomo coragem para falar. — Vegas… eu não sou como você. Eu tentei, mas não sou. — Minha voz sai baixa, quase vacilante. Ele me encara por um momento antes de suspirar. — Eu já sabia disso, Pete. Só estava esperando você perceber. Sinto um peso sair dos meus ombros, mas também uma dor estranha. Como se eu estivesse deixando algo importante para trás. — O que acontece agora? — pergunto. Vegas sorri de leve, mas há algo triste em seu olhar. — Agora você decide se quer ficar… ou se quer fugir desse mundo para sempre. Sinto um peso sair dos meus ombros, mas também uma dor estranha. Como se eu estivesse deixando algo importante para trás. — Então vamos embora, juntos. — digo, com firmeza. — Fugimos de tudo isso, encontramos um lugar só nosso. Eu não quero esse mundo, mas também não quero te deixar para trás. Vegas me observa por um longo momento antes de soltar um leve sorriso. — Você acha que conseguimos escapar desse jogo? — pergunta, sem ironia, mas com um toque de esperança. — Eu acho que podemos tentar. — respondo. E pela primeira vez, vejo dúvida nos olhos de Vegas. Talvez, só talvez, ele também queira isso.
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