Capítulo 15

1110 Palavras
Pete on Eu nunca imaginei que um dia teria que escolher entre a lealdade ao meu pai e a verdade. Mas aqui estou eu, sentado no mesmo lugar onde, horas atrás, Vegas me confrontou com a realidade que eu tentei ignorar por tanto tempo. Nabin me criou, me alimentou, me deu um sobrenome. E agora, sou forçado a aceitar que tudo isso foi baseado em mentiras. As coisas que ele fez, as pessoas que ele machucou... eu nunca quis enxergar. Sempre preferi acreditar que os negócios dele eram apenas "estratégias" e que, no fim das contas, ele tinha um bom coração. Mas a verdade é que um bom coração não constrói um império sobre sangue e medo. Vegas tinha razão. Eu estava no meio dessa guerra, e não tinha mais como fingir que era apenas um espectador. Levantei-me do sofá, sentindo o peso da minha decisão me puxar para baixo. Mas, ao mesmo tempo, havia uma estranha sensação de alívio. Eu finalmente sabia onde estava e o que precisava fazer. Quando Vegas me sequestrou, eu pensei que fosse odiá-lo para sempre. Mas, com o tempo, percebi que quem realmente me manteve cativo minha vida inteira foi o meu próprio pai. No início, quando fui levado, Nabin fez toda uma cena de preocupação, fingindo desespero. Mas agora, depois de tudo, ele sequer se importa. Não houve nenhuma tentativa real de me resgatar, nenhuma demonstração de afeto. A verdade é que ele nunca se importou. Eu fui apenas uma peça no jogo dele, um nome, um rosto, um herdeiro para carregar sua linhagem e, talvez, um dia servir aos seus interesses. Mas nunca fui um filho de verdade. Nunca fui amado. A dor dessa constatação queimava no meu peito, mas junto dela vinha uma raiva silenciosa. Eu perdi tanto tempo tentando conquistar o amor de um homem que nunca me quis de verdade. E agora eu percebo que talvez seja melhor colocar um fim nisso de uma vez por todas. Fui até o quarto onde Vegas estava, planejando cada movimento para desmantelar os negócios de Nabin. Ele ergueu o olhar quando entrei, avaliando minha expressão com aquele olhar intenso e calculista dele. — Então? — Vegas perguntou, como se já soubesse minha resposta. Eu inspirei fundo antes de responder. — Eu quero saber tudo. Quero ajudar a derrubar o império do meu pai. Por um segundo, algo brilhou nos olhos de Vegas. Um misto de satisfação e talvez um traço de preocupação. — Não há volta depois disso, Pete. — Ele disse com seriedade. — Se você entrar nesse caminho, vai carregar esse peso para sempre. Eu já carregava um peso enorme por ignorar a verdade por tanto tempo. O que era mais um? — Eu sei. E estou pronto para isso. — respondi com firmeza. Vegas assentiu lentamente, antes de se levantar. Ele caminhou até mim, colocando uma mão firme no meu ombro. — Então vamos começar. As horas seguintes foram um mergulho profundo no submundo que Vegas comandava. Ele me levou até um dos esconderijos subterrâneos, um espaço seguro onde seus homens se reuniam para planejar os próximos passos. O lugar era escuro, iluminado apenas por luzes fluorescentes azuladas, e a atmosfera estava carregada de tensão. — Temos que cortar as pernas de Nabin antes que ele possa reagir. — Vegas disse, puxando uma cadeira para que eu me sentasse ao seu lado. — Já conseguimos que alguns dos fornecedores dele se afastassem, mas ainda existem aqueles que precisam de um incentivo maior. Eu sabia o que ele queria dizer. Se não aceitassem mudar de lado, seríam eliminados. — Você acha que ele vai perceber? — perguntei, ainda tentando absorver tudo. — Cedo ou tarde, sim. Mas quando isso acontecer, ele já vai estar enfraquecido demais para contra-atacar. — Vegas respondeu friamente. O mais assustador é que eu não sentia medo dessas palavras. Parte de mim queria ver meu pai perder tudo, sentir o que é estar indefeso. Um dos capangas de Vegas entrou na sala com seu celular em mãos. — Temos um problema. — disse. — Um dos fornecedores está hesitando. Ele quer uma reunião. Vegas suspirou, cruzando os braços. — Então vamos dar a ele uma reunião. Mas ele só sai de lá com uma decisão definitiva. Meu coração acelerou. Eu estava prestes a ver, de perto, como esse mundo realmente funcionava. A reunião aconteceu em um galpão afastado. Homens armados cercavam o lugar, garantindo que ninguém saísse sem permissão. O fornecedor chegou acompanhado de dois seguranças, a expressão no rosto era de quem sabia que estava entrando num campo minado. Vegas estava sentado em uma cadeira no centro da sala, com um cigarro entre os dedos. Ele parecia relaxado, mas eu sabia que cada movimento dele era calculado. — Então, você tem uma decisão para tomar. — Vegas disse, exalando fumaça. O homem engoliu em seco. — Eu... Nabin foi um parceiro de longa data. Eu não posso simplesmente virar as costas pra ele. — Claro que pode. — Vegas sorriu, mas seus olhos estavam frios. — É isso ou você e sua família pagam o preço por sua lealdade errada. O fornecedor hesitou, o suor escorria por sua testa. Eu senti um aperto no estômago. A decisão dele determinaria seu destino. — Eu... eu estou dentro. — Ele finalmente cedeu. Vegas sorriu satisfeito. — Boa escolha. E ali, eu percebi que esse era o mundo no qual eu estava entrando. Um mundo sem segundas chances. Mas agora, eu também queria vingança. Horas depois da reunião, voltamos para casa. Meu corpo estava exausto, mas minha mente estava inquieta. O fornecedor cedeu à pressão, mas outros viriam. O jogo ainda estava sendo jogado. Entrei no quarto e me joguei na cama, sentindo a presença de Vegas se aproximar. Ele se sentou na beira do colchão, me observando. — Como você está? — Ele perguntou, sua voz mais suave do que de costume. — Confuso. — respondi honestamente. — Mas determinado. Vegas assentiu. — Você está fazendo o certo. O silêncio se instalou entre nós por alguns instantes. Então, sem pensar muito, eu segurei a mão dele. — Vegas... se isso tudo acabar, você ainda vai me querer por perto? — minha voz saiu baixa, carregada de emoção. Ele entrelaçou nossos dedos, apertando minha mão levemente. — Pete, eu já tomei muitas decisões erradas na vida, mas ficar com você não é uma delas. — Ele disse, seu olhar fixo no meu. — Eu vou estar aqui. Sempre. Meu coração acelerou, e pela primeira vez em muito tempo, senti que não estava sozinho. Mas o inferno ainda estava por vir. E eu estava pronto para queimá-lo por completo.
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