Capítulo II

4271 Palavras
15 de Fevereiro de 1881 Janaina estava feliz em ser útil. A pequena garotinha que tinha acabado de fazer cinco anos de idade estava sentada em uma das vinte cadeiras pomposas da sala de jantar do Barão ajudando animadamente sua mãe a polir a prataria. A mãe por sua vez cantava como sempre fazia e a luz da manhã entrando no vitral colorido deixava o ambiente ainda mais místico aos olhos da menina. A mãe havia cumprido o que prometera: assim que Janaína completasse seu quinto aniversário, ela a deixaria ajudar nas tarefas que realizava dentro do casarão. Até então a menina nada fazia em seu tempo livre além explorar as terras na qual pertencia, colhia frutas no topo das árvores, nadava no lago em dias mais quentes, andava a cavalo nos potros mais jovens, corria pela extensa plantação de café e outras coisas mais que sua mente elaborava. Um certo dia até decidiu que iria dar uma volta completa no terreno no senhor Barão, baseada unicamente na pequena cerca decadente que rodeava os limites do território. Porém m*l havia chegado a um quarto do percurso e o sol já estava se pondo, o que a obrigou a voltar para casa, muito insatisfeita por não ter completado sua missão e com uma mãe irritada lhe esperando. Porém, mesmo com a sua mente fértil, ela estava ficando entediada. Queria algo útil para fazer além de explorar por aí. Sua a mãe a proibira de perturbar os outros trabalhadores, para evitar atraso nas suas tarefas, mas Janaína não podia evitar, por mais que tentasse ajudar seus amigos, sejam eles os próprios primos ou a outras pessoas, sua mente se distraia facilmente e quando dava por si, estava fazendo outra coisa totalmente diferente. Sabendo disso, a mãe lhe prometeu que ela poderia ficar no casarão e ajudá-la. Até então a garota era impedida de entrar lá, mas agora estava crescida. E que magnifico era o casarão do Barão de Nova Inglaterra! De uma arquitetura larga e sólida, o lugar parecia um verdadeiro palácio, com tetos altos e janelas imponentes. Mesmo sendo de dois antares, era tudo tão grande que podia facilmente caber mais três andares ali dentro. A pintura branca das paredes o fazia se destacar ao longe e o jardim, sempre muito bem cuidado, o contornava com maestria. Por isso o lugar chamava tanto a atenção de Janaína, e quando finalmente teve a oportunidade de entrar pela primeira vez, praticamente ficou o dia inteiro de boca aberta e exaltando sua beleza. Cada móvel era cuidadosamente entalhado e rústico nos incontáveis cômodos, as paredes eram cobertas por quadros bucólicos de lindas paisagens e o teto de pinturas renascentistas magnificas. E os livros! Ah, que coleção impressionante de livros o Barão possuía em sua própria biblioteca. Quando Janaína descobriu aquele cômodo ficou absurdamente perturbada com tamanha beleza. Logo se apressou a tomar um daqueles nas mãos e achou interessantíssimo encontrar um monte de palavras em suas folhas. – Para que serve? – perguntou a sua mãe, que limpava alguns deles. – Para contar histórias. – Contar histórias... – repetiu a garota. Que invenção mais incrível, contar histórias com palavras! Quantas histórias ela não tinha criado em suas aventuras por aí para no dia seguinte esquecer de tudo. Se pudesse guardá-las em livros, podia consultar sempre que quisesse. – O velho Mané sabe ler, por que você não pede para ele lhe ensinar um pouco? O velho Mané era o escravo mais antigo dali. Trabalhou até onde sua perna pôde lhe sustentar, mas agora era praticamente um mentor. Janaína achou excelente a ideia e naquele mesmo dia pediu ao Sr. Mané que a ensinasse a ler e a escrever. Não pôde levar os livros do casarão, obviamente, mas o velho tinha seus próprios velhos e gastos e utilizava um graveto para que a garota pudesse escrever no barro tudo o que ele ditava. Então assim os dias da garotinha passaram a ficar muito mais ocupados, elas os intercalava entre ajudar sua mãe, ter aulas com o velho Mané e exercitar a leitura por conta própria na biblioteca do Barão. Essa última, porém, só podia ser feita nos dias em que sua mãe limpava o cômodo, para que não incomodasse a senhoria. – Estou quase acabando aqui filha, depois vou acender as lareiras – disse sua mãe quando terminou de polir o último garfo de prata. – Não quer que eu te ajude, mamãe? – Igual da última vez que você sujou o chão da Baronesa de cinzas? Ou quando você quase incendiou o tapete? A garotinha nada pode fazer a não ser sorrir um sorriso desdentado. A mãe também sorriu e balançou a cabeça, depois lhe deu um beijo na testa. – Por quê não pergunta a Joel se ele precisa de ajuda com os potros? Soube que um deles já está grande o suficiente para treinar a montaria e faz tempo que você não vai aos estábulos. Ela achou a ideia excelente e não perdeu tempo ao cruzar correndo a casa, aproveitando para dar tchauzinho a toda a pessoa que encontrava no caminho. Quando chegou ao lado de fora, o sol já estava abaixando enquanto ela continuava a correr por todo o jardim até chegar ao enorme estábulo onde o Barão criava uma quantidade significativa de cavalos e Joel era responsável pelo cuidado, assim como seu pai foi um dia. Sua mãe não só havia criado Janaína, mas seus primos, Joel e Taiane, desde que o pai deles havia falecido a dois anos. Os gêmeos eram seis anos mais velhos que Janaína e nasceram escravos, isso significava que eles eram obrigados a trabalhar desde os quatro anos. Assim, Janaína só podia brincar com eles após o sol se recolher, quando todos estivessem reunidos em casa. Ainda assim, a brincadeira era limitada, pois a mãe não os deixava acordados até tarde, para que não se cansassem para o trabalho do dia seguinte. Quando cruzou o grande abeto que ficava ao lado do estábulo, encontrou Joel agachado no chão removendo pregos de algumas ferraduras. – Oi Joel – cumprimentou a garota anunciando sua chegada e abraçando as costas fortes do menino de onze anos. – Ah, oi pirralha. O que está fazendo aqui? Ele se levantou e limpou as mãos numa flanela encardida. Mesmo sendo um adolescente, Joel era muito alto e forte para sua idade, o trabalho braçal pesado com certeza contribuiu para sua estatura. – Mamãe disse que cresceram potros novos. Posso montá-los? – É verdade, o filhote da Estrela acabou de atingir a altura perfeita para montaria, mas hoje não vai poder vê-lo, o filho do patrão está usando o redondel, e o próprio patrão está com ele. – Jura? – animou-se Janaína e saiu em direção a pista, mas Joel segurou seu pequenino braço. – Onde você pensa que vai, menina? – Vou ver o filho do patrão treinar – e tentou puxar seu braço, mas teria tido mais resultado se tentasse levantar um cavalo. – Está louca? Não pode atrapalhar o treino do pequeno Barão. – Não vou atrapalhar, vou só ver – ela tentou erguer o braço e quando Joel fez menção em impedir ela o girou por outro lado e escapou do seu laço. Depois disso saiu correndo para o atravessar dentro do estábulo, passando por todas as baias. Janaína adorava aquele lugar, tinha um amor por aqueles equinos inexplicável, e se sentia orgulhosa por ter batizado um quarto deles, principalmente as éguas. Joel era um tratador muito zeloso, e sempre a deixava montar os potros quando estavam prontos para montaria, mas seu maior sonho era montar o garanhão adulto do Barão, Meteoro, mas Joel não permitia que ela chegasse perto a não ser para escovar seu pelo. Quando garotinha ficou próximo o suficiente do redondel, subiu em uma das grades da cerca e começou a observar de forma discreta. O filho mais velho do Barão, Arthur Martin, tinha quase dezesseis anos, com uma aparência muito parecida com a do pai, seus modos eram sérios e nobres, como um garoto herdeiro de um império de café deveria ser. Entretanto, naquele dia, o rapaz estava mais nervoso que o habitual, pois era a primeira vez que treinava em um cavalo adulto e imponente, três vezes maior que seu tamanho. E não só isso, mas seu pai, o Barão, estava próximo avaliando seu desempenho. Por muito tempo o garoto só ficou dando voltas no redondel, ora dando trotes, ora corridas curtas, até que o pai interrompeu seu treinamento e chamou Joel com um estalar de dedos. Cinco minutos depois foi estrategicamente colocado na pista três obstáculos de salto de tamanhos variados. Janaína ficou temerosa, não se lembrava se aquele cavalo em específico já tinha tido feito algum salto. Observou que, apenas com um olhar, o filho compreendeu o que o pai queria e se colocou o cavalo novamente em movimento. No começo, Arthur ficou apenas praticando os saltos mais baixos e quando pegou confiança arriscou os médios. – Ora, vamos Arthur, tente o último – disse o Barão numa voz dura. O filho olhou apreensivo para o obstáculo mais alto, que tinha o dobro de altura do médio, respirou fundo, e foi em sua direção. Porém, faltando apenas um metro, o garanhão deu uma guinada para o lado e o garoto caiu no chão. Três escravos foram correndo a seu auxílio, mas como o menino havia caído na areia, estava inteiramente bem. O pai lhe ordenou que tentasse de novo, e assim o fez. Janaína achou que o garoto não ia conseguir, o terceiro obstáculos realmente era muito alto, mas quando o cavalo conseguiu saltar, mesmo com dificuldades, Janaína explodiu em gritos e palmas. O Barão olhou imediatamente para ela, bem como seu filho, mas pôde ver um sorriso discreto nos lábios do velho senhor. *** Alguns meses haviam se passado e um certo dia a pequena Janaína estava explorando os corredores do casarão em busca de mais uma de suas rotineiras aventuras. m*l ela sabia que naquele dia em particular encontraria a maior de todas elas. Ao passar por uma das muitas porta altas e pesadas, de repente ouviu vozes exaltadas vindas lá de dentro. Lembrando das repreensões da mãe sobre perturbar os serviços do Barão e da Baronesa, ela já havia decidido dar meia volta e ir embora, porém, em meio a conversa, um barulho muito alto de madeira batendo em madeira a assustou. Ela ficou com medo, mas alguém podia estar em grande perigo e não havia mais ninguém naquele cumprido corredor. Com cuidado ela colocou a cabeça no vão dá porta e observou. O cômodo era um dos escritórios do Barão. A primeira coisa que Janaína encontrou foi um homem de meia idade, careca e barrigudo, ele estava encurvado sobre alguma coisa, mas quando se mexeu ela pôde ver sobre o quê. Tinha um garoto ali, um garoto magricela e de pele clara, os cabelos penteados cuidadosamente para trás, mas alguns cachos escapavam em sua testa. Não devia ser muito mais velho que Janaína, aparentava ter em torno de sete anos e estava com lágrimas nos olhos. O homem parecia muito bravo com ele, batia com uma vara grande de madeira na mesa, fazendo um barulhão e gritava com o menino numa língua que Janaína desconhecia, mas não parecia lhe dizer coisas boas. Janaína não pensou muito no que faria, mas já estava dentro do cômodo interrompendo a discussão. O homenzarrão se virou para ela com uma expressão aborrecida. – O que há? – perguntou. – Er... – a menina não sabia o que dizer, a verdade era que não tinha pensado muito a respeito do que faria, quando deu por si já estava lá dentro – Um dos cavalos foi roubado senhor, acredito que seja o seu. O homem se levantou num pulo. – O que?! Por todo os infernos! Onde fica o estábulo? – Seguindo a leste do jardim, senhor. Então o homem saiu a passos rápidos, empurrando Janaína para o lado e bateu a porta com força. – O estábulo não fica a leste – respondeu o garoto depois que o homem se afastou o suficiente, a voz ainda embargada pelo choro, mas tentava manter a postura firme o bastante para o seu tamanho. Janaína deu um sorriso orgulhoso. – Eu sei. O garoto a olhou em completa confusão. – Então por que fez isso? – Para ele levar mais tempo pra voltar, assim você pode escapar com facilidade. – E por quê? A garota colocou as mãos na cintura com impaciência. – Você precisava fugir dele, eu só te ajudei com isso. O garoto a olhou espantado, a poucos momentos antes estava mesmo pensando se havia alguma maneira de escapar do Sr. Alvarez. Mas como a garota o olhava com presunção, ele rapidamente respondeu: – Eu não precisava de ajuda, arrumaria uma maneira de escapar dele. Janaína cruzou os braços magrelos. – Sei, não parecia para mim. – Então precisa de óculos. O garoto começou a arrumar seus papéis de qualquer jeito. Estava irritado por não ter sido esperto o bastante para pensar numa forma de fugir daquelas terríveis aulas de alemão. – Ei, não precisa ficar zangado – falou Janaína se prontificando a recolher alguns papéis também – todo mundo precisa de ajuda. Às vezes eu preciso também, e então peço para meu primo Joel ou minha prima Taiane. Hoje eu te ajudei, amanhã pode ser sua vez. O garoto pareceu satisfeito com o que ela disse, pois fazia total sentido em sua cabeça. – Mas o que você fez para aquele senhor brigar com você? – perguntou enquanto o ajudava a guardar os papéis em uma grossa pasta de couro. O garoto se empertigou. – Eu não fiz nada. Ele é meu professor de alemão. – Parecia que estava brigando com você. – Mas só porque eu sou muito burro. A garota o olhou com curiosidade. Ele não parecia um garoto burro. Ela conhecia muitos garotos burros, principalmente os que viviam perturbando-a. Todos eles eram burros e idiotas. – Você sabe ler e escrever? O garoto ficou com uma expressão confusa no rosto. – Sei. – Então você não é burro. Os garotos que brincam comigo não sabem contar até cinco. Eu estou aprendendo a ler, então daqui a pouco vou deixar de ser burra também. O garoto pensou por uns instantes em suas palavras. – Não precisa saber ler para não ser burro. Meu pai chama vários homens que trabalha com ele de burros, e todos sabem até escrever livros. – Uau! – exclamou a garotinha. – Além disso, foi muito inteligente a forma como você se livrou do Sr. Alvarez. De repente Janaína ficou muito feliz pelas sábias palavras do garoto e principalmente, por não ser mais burra. – Mas você quer que eu te ensine? – perguntou o garoto se dirigindo a porta e dando espaço para Janaína passar. – Me ensinar o quê? – A ler e a escrever. Sou muito bom nisso – e estufou o peito em pompa. – Mas por quê? – a garota nunca tinha recebido uma oferta assim antes, tão espontânea. – Ora, você me ajudou e agora eu te ajudo. Não foi o que disse? Seus olhinhos castanhos brilharam por saber que teria mais um professor, seu sorriso foi radiante em resposta. – Mas para te ensinar eu preciso saber o seu nome. – Oi, eu sou Janaína – e ergueu a mão na altura da cabeça para cumprimentá-lo. – Eu sou Thomas – e iria estender a mão também, mas Janaína recolheu a sua rapidamente atrás das costas. – Você é o filho do Barão – disse assustada e não era uma pergunta. O garoto ergueu uma das sobrancelhas. – Sou – e deu de ombros. – Ah... Janaína sabia que não podia conversar com os filhos do Barão, sua mãe a havia dito que eles não tinham contato com os criados. Mas Janaína tinha acabado de salvar sua vida de um homem m*l que falava estranho, e Thomas parecia muito feliz por ser resgatado. Então, pensou, isso a fazia uma super-heroína, e heroínas podiam ser amigas das pessoas que tinham salvado, certo? Afinal, que estranho seria salvar alguém e depois dar as costas para ela. Além disso, ela queria muito, mais um professor. No final das contas as "aulas" de Thomas era basicamente fazer as lições que seus próprios professores particulares passavam. Não era tão legal quanto aprender com o Sr. Mané, mas ao menos Janaína podia usar os livros da biblioteca do Barão com liberdade. Thomas cada vez mais se mostrava um bom amigo, tinha paciência quando ela mostrava dificuldade e era engraçado todo o tempo. Todos os dias ela esperava por ele ao terminar suas terríveis aulas de alemão para então se ocuparem um quarto de hora na biblioteca. Depois disso Janaína levava Thomas a seus muitos lugares favoritos na fazenda. Ela se espantara pelo fato do garoto conhecer tão pouco do lugar que era do seu próprio pai, e Thomas explicou numa voz triste. – Meus pais não têm tempo para me levar a passeios pela propriedade, eu peço, mas estão sempre ocupados cuidando dos negócios ou de algo relacionado a educação do meu irmão Arthur. Janaína se compadeceu dele. Devia ser muito triste não poder conhecer um lugar tão lindo, principalmente quando esse lugar era sua própria casa. – Não se preocupe – e segurou sua mão – eu mostro tudo para você. E foi num desses muitos passeios que ambos descobriram uma paixão em comum: cavalos. Janaína sabia o nome de todos no estábulo e era amiga daqueles equinos. Já Thomas lia muito a respeito e sabia diferenciar cada raça. Como estava com o filho do patrão, a garota tinha permissão de tomar um dos cavalos e passear com Thomas sempre que estavam juntos. Até que um certo dia a Baronesa os encontrou cavalgando pelo jardim e ficou em prantos. – Thomas! Thomas, meu filho, desça já desse animal. A mulher suspendeu a barra do vestido até a altura dos joelhos e veio correndo aos garotos, que nada mais faziam além passear lentamente sobre o lombo dos potros. Entretanto, pelo estado da Baronesa, parecia que estavam saltando montanhas com os animais. Thomas rapidamente desceu de seu pequeno animal e ajudou Janaína com o dela. – O que pensa que está fazendo? – gritou a elegante Baronesa quando os alcançou. – Perdoe mamãe, estava apenas cavalgando um pouco. O rosto da mulher estava vermelho pela corrida e algumas mechas se soltavam de seu penteado perfeito. – Estás louco? Você poderia cair e se machucar – e começou a apalpar o corpo do garoto. – Pare com isso, mãe – repreendeu Thomas envergonhado – Estávamos devagar. – Não importa, você não sabe andar de cavalo. – Sei sim! – teimou ele com a voz alterada. A Baronesa ignorou seus protestos quando finalmente notou Janaína ali. – E você mulata, quem és? – O meu nome é Janaína, madame – e fez uma mesura desajeitada. – Fique longe do meu filho, não quero ele andando com más influências. Thomas se colocou a frente da garota, assustando a mãe. – Ela não é má influência. Eu que a chamei para andar a cavalo. Janaína é minha amiga e eu gosto dela. – Ôh, meu querido, você já tem muitos amigos aqui – disse a mulher segurando os ombros magricelas do garoto. – Não tenho não! São todos amigos do Arthur e eles nunca tempo de brincar comigo. Gosto de Janaína. A mãe se endireitou e ficou séria, olhando de uma criança para a outra. – Quantos anos tem, minha jovem? – perguntou num tom mais amável. – Cinco, senhora. – Cinco? E seus pais não estão preocupados com você? – Não conheço meu pai e minha mãe está ocupada arrumando os vasos de flores. – Quem é sua mãe? – Rosa. É escrava. – Ah, a Rosa? Sim, sim, conheço ela. Gosto muito do seu serviço, muito delicada e prestativa. Muito bem, como você é filha da Rosa confio no seu caráter, pode brincar com Thomas quanto puder, só que estão proibidos de subir num cavalo. – Mas mãe... – Nada de "mas", Thomas. Tem sorte por não contar ao seu pai o que vi hoje. Agora vamos entrar, está escurecendo e esfriando. Despeça-se de sua amiga. – Tá bem – concordou o garoto desanimado – Tchau, Jani. Ao ver Thomas e a Baronesa se distanciando, Janaína não pôde deixar de perceber que foi a primeira vez que ele lhe deu um apelido. Gostou muito disso, mas principalmente gostou da forma como a defendeu diante da mãe. Ela já estava esperando tomar uma bofetada no rosto, no mínimo. Janaína então voltou saltitante até sua casa na colônia, sentindo que acabara de conquistar um amigo de verdade. *** – Meu tio é capitão de um navio inglês i****a. Meu pai disse que ele nada tem na cabeça além de água salgada, então por que vai me mandar viver com ele, Jani? – o garoto, sentado numa pedra a beira do lago, jogou um punhado de pedras longe em completo sinal de frustração. Aquele tinha sido o ano mais divertido de Thomas desde que nascera. Sem mais as obrigações de ficar trancado dentro do casarão o dia todo, graças as habilidades de Janaína em sair escondida de qualquer lugar, ele passara muito mais tempo brincando do lado de fora da casa. Entretanto, uma notícia que recebeu naquela primeira semana de setembro fez todas as suas alegrias se transformarem em nuvens pesadas de chuva. Seu pai, o Barão de Nova Inglaterra, lhe comunicara que dentro de uma semana, Thomas estaria de partida rumo a Inglaterra, terra natal de sua família e onde residia seu tio, Capitão Dominique Martin, dono de uma das frotas mais respeitáveis da marinha real inglesa. Era lá que o Barão e a Baronesa planejavam concluir os estudos do filho mais novo, já que o garoto era livre das responsabilidades que seu irmão mais velho, herdeiro de toda aquelas terras, tinha. No velho mundo, Thomas poderia não só se aproximar de suas raízes, como também aprender na melhor qualidade idiomas, música, arte e ciência. – Seu tio é capitão de um navio? Sério? – impressionou-se a garota, olhando para Thomas com olhos arregalados e brilhantes. – Ele é. O que tem isso? – ele resmungou sem o menor sinal de animação. Janaína pulou de sua pedra e ficou de frente para Thomas. – Você não vê, Thomas? – Ver o que? Que estou sendo obrigado a ir para um lugar chato e fedorento? – Você vai para lá aprender a ser um pirata, é óbvio! Thomas ficou pensativo por uns breves segundos, depois seus olhos se arregalaram e um sorriso começou a surgir no canto de seus lábios, como se aquela fosse a conclusão mais genial do mundo, finalmente sentindo uma pontada de expectativa com a própria partida. Ele também pulou se sua pedra e ficou de frente para a amiga. – Será que é isso mesmo? – e pegou as mãos pequenas da garota. – É sim! Eu tenho certeza. Por que seu pai te mandaria estudar com um capitão se não fosse para você ser um pirata quando crescer? – Por Deus, Jani, você é tão esperta! Mas o que você acha que os piratas fazem? – Ora, coisas importantes! Com certeza não ficam atirando pedrinhas no lago, como nós estamos fazendo. – Mas se fizessem, eu seria o melhor de todos. – Depois de mim, lógico. E para enfatizar seu argumento, atirou uma pedrinha que bateu três vezes no lago antes de afundar. Thomas ficou olhando concentrado e pensando que provavelmente ela tinha razão, mas jamais admitiria em voz alta. – Ei, eu tive uma ideia! – exclamou ele de subido – Por que você não vem comigo, Jani? Podemos ser piratas juntos. A garotinha já podia imaginar quão incrível iria ser entrar num navio de verdade e explorar os sete mares, conhecer mundo distantes e talvez encontrar alguma das criaturas místicas que diziam viver no profundo oceano. Mas... – Não posso Thomas – respondeu seriamente, jogando outra pedrinha com perfeição no lago cristalino – Não posso deixar minha mãe sozinha. – Seus primos podem cuidar dela. – Eles têm um ao outro para tomar conta, minha mãe só tem a mim. Além disso, seus pais nunca concordariam que eu fosse com você. – É... – Ele também ficou desanimado – Mas seria bem mais incrível se você fosse junto. A garotinha não pode deixar de se comover pelo carinho do melhor amigo. Sentiria muito sua falta. – Mas você tem que me prometer uma coisa – disse Janaína, limpando uma lágrima traiçoeira que fugiu do seu rosto. – O que? – Quando você voltar, terá que me trazer uma conchinha. Thomas pensou por uns instantes. – E se eu te trouxer uma sereia, pode ser? – Uma sereia de verdade? – seus olhos se arregalaram. – Sim, e a concha onde ela dorme também. Vou ser um pirata, não é mesmo? Caçar sereias vai ser meu passamento predileto. E então, você quer? – SIM! – gritou a garota pulando no lugar e depois o abraçou. E durante toda a semana as duas crianças ficaram treinando lutas de pirata com pedaços de paus. Se divertiram até o sol se pôr na sexta é feira e depois Thomas foi obrigado a entrar em casa para se aprontar. Janaína ficou esperando no portão principal do casarão até sua carruagem partir, então ela a seguiu correndo por uns bons quilômetros, acenando sem parar até o veículo sumir de vista.
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