Capítulo 4

2265 Palavras
Damian — Ei, precisamos sair daqui agora! — grito, correndo de volta para a sala de estar enquanto visto minhas roupas às pressas, minha mente em chamas com o pânico crescente. Felizmente, ela me segue sem hesitar, também se vestindo rapidamente. Assim que Helô termina, seguro sua mão com força e descemos as escadas correndo. O rugido da lareira se torna mais alto e ameaçador a cada degrau. O cheiro acre da fumaça invade minhas narinas, e o calor começa a nos envolver como uma prisão viva. Ao alcançarmos o térreo, vejo os olhos de Helô se arregalarem em choque. As chamas já consumiam parte da loja — seu templo, seu sonho, sua vida. Sem pensar duas vezes, a ergo no colo. — Não! — ela grita, estendendo a mão em desespero em direção ao inferno que antes era a Elegance. — Minha loja! Tudo o que construímos, tudo pelo que lutamos! — Eu te peguei — digo com firmeza, apesar da adrenalina pulsando nas veias. Corro até a porta e irrompo no ar gelado da noite. O contraste entre o calor sufocante do incêndio e a brisa fria lá fora é como um tapa no rosto. Coloco Helô no chão com cuidado, mantendo um braço protetor ao seu redor enquanto ela soluça, os olhos fixos no fogo que devora seu sustento. Avalio rapidamente a cena. O fogo, embora intenso, parece limitado à área principal da loja. Com os equipamentos certos, talvez eu mesmo pudesse apagá-lo... mas isso levantaria muitas perguntas que não quero responder agora. Puxo meu celular e ligo para o 911: — Há um incêndio na Elegance, Rua 43. Enviem os bombeiros imediatamente. Minutos depois, ouvimos as sirenes rasgando a noite. Um caminhão do Corpo de Bombeiros de Nova York para em frente à loja, e os homens saltam como sombras treinadas, já em ação. O chefe se aproxima. Graças a Deus, é alguém conhecido — um velho amigo da família. — Don Lucchese, qual é a situação? — O fogo parece confinado à área principal da loja — relato com calma controlada. — Ninguém se feriu, mas precisamos salvar o que for possível. Enquanto os bombeiros combatem as chamas, envolvo Helô num abraço apertado. Ela treme entre meus braços, soluçando baixinho. Meus olhos percorrem a multidão que começa a se formar. Não, isso não foi um acidente. — Ah, não… a Elegance! — grita uma mulher. — Quem faria algo assim? — Aquele lugar ajudou tanta gente… Cada lamento alimenta minha fúria. Eu sei exatamente quem fez isso. Giovanni Barrone. O bastardo não aceitou o "não" de Helô quando ela se recusou a pagar pela tal “proteção”. O chefe dos bombeiros volta até nós com expressão sombria. — Don Lucchese, Sra. Saldano, vamos ter que envolver a polícia. Tudo indica que foi incêndio criminoso. Assinto com o maxilar tenso, sentindo o gosto metálico da raiva na boca. — Claro, chefe. Cooperaremos com tudo. No canto do olho, vejo vans de notícias chegando. Repórteres e câmeras se posicionam, sedentos por uma manchete. Um deles reconhece Helô e se aproxima com o microfone em punho. — Sra. Saldano! Pode nos dizer o que houve? Isso vai afetar os programas de extensão comunitária? Rapidamente, me posiciono entre ela e os repórteres. Carlo aparece atrás de mim. — Sem comentários por agora — digo, firme, afastando os microfones. Câmeras se voltam para nós, capturando cada gesto, cada lágrima. Elegance não era só uma loja. Era um refúgio. Um farol no meio do caos para muitos. Um ataque à Elegance é um ataque ao coração do bairro. — Giovanni... — Helô sussurra, os olhos vermelhos cravados nas chamas. — Isso tudo é culpa do Giovanni. A puxo para mais perto, protegendo-a como posso. — Vamos superar isso. Eu prometo. Giovanni não vai sair impune. Ela vira o rosto para mim, os olhos suplicantes. — Sophia... preciso saber se o Sophia e o Sr. Salva estão bem. E se… e se… — Eu sei — interrompo suavemente. — Carlo vai te levar até o apartamento do Sr. Salva. Fique lá essa noite. É mais seguro. Ela hesita, olhando para trás, para a loja em ruínas. Aperto sua mão. — Vai. Eu cuido de tudo aqui. Te encontro depois. Carlo a conduz até o carro, e eu me viro para encarar o chefe dos bombeiros e os primeiros policiais que chegam à cena. — Don Lucchese — cumprimenta o capitão. — Pode nos contar o que aconteceu? Passo a próxima hora prestando declarações, omitindo o que precisa ser omitido e destacando apenas o que convém. Quando finalmente as chamas são extintas e os agentes se afastam, caminho pelos escombros da Elegance. O estrago é sério, mas não irreparável. Algumas áreas estão carbonizadas, mas a estrutura principal resiste. Ainda assim, ver isso me dá um frio no estômago. Giovanni vai pagar. Pego o celular e ligo para Julian. Ele atende no quarto toque, a voz sonolenta. — Chefe...? São três da manhã… — A Elegance pegou fogo — digo com frieza. Ele inspira com força e desperta instantaneamente. — O que você precisa, chefe? — Marque uma reunião com os outros Dons. No Cristal Lake. Amanhã cedo. — Considerado feito. — E mande nossos homens instalarem um sistema de segurança decente na loja. Ainda hoje. Nada de confiar em segurança terceirizada. Desligo. Encaro o que restou da Elegance. Giovanni não faz ideia do que acabou de acordar. Agora é pessoal. Na manhã seguinte, Carlo e eu chegamos ao Cristal Lake . A fachada discreta esconde um mundo de poder e segredos. As portas de mogno se abrem silenciosamente, revelando um interior de luxo refinado — lustres de cristal, couro italiano, madeira escura e o aroma permanente de charutos cubanos e uísque envelhecido. O jazz suave preenche o ambiente, um pano de fundo quase teatral para conversas sérias. Aceno para Lorenzo Alighieri assim que entramos. Seus olhos astutos captam tudo. Ele apenas inclina a cabeça em um gesto de respeito. Como dono do Cristal Lake, Lorenzo é o mediador ideal — respeitado, mas neutro. Na sala reservada, encontro Dário De Luca, Lionel Bianchi e Alberto Caputo já sentados. Homens que não precisam levantar a voz para comandar. Eles são o pilar de La Familia. São os únicos que podem conter Giovanni… ou autorizá-lo a desaparecer. Os seguranças se mantêm em silêncio às costas dos Dons. Carlo assume sua posição atrás de mim. Lorenzo se aproxima e me entrega um copo de uísque com um leve sorriso. — Como sempre, Don Lucchese — diz ele, deixando o copo diante de mim. Agradeço com um aceno e tomo um gole. O líquido desce como fogo, acalmando os nervos. Coloco o copo sobre a mesa. O silêncio pesa. Encaro um a um os homens diante de mim. Os rostos impassíveis, olhos atentos. Eles já sabem por que estou aqui. Mas agora é minha vez de falar. E quando eu terminar… Giovanni Barrone não terá mais onde se esconder. — Senhores — começo, com a voz firme apesar da gravidade da situação —, temos um problema que requer atenção imediata. — Nós pensamos, Damian — diz Dário , entediado. — Por que mais você nos chamaria aqui tão cedo? Inclino-me para a frente, encarando Dário com um olhar duro. — Primeiro, gostaria de saber por que a proteção que pedi outro dia não foi atendido. Dário pisca, claramente surpreso. Mas sua máscara de Don rapidamente volta ao lugar. — Decidi que não valia a pena alocar meus homens para um pedido tão t**o. Sinto a raiva subir como uma maré. — Quando peço um favor, ele deve ser atendido. Ponto final. — Não — retruca Dário , a voz fria como aço. — Eu decido qual favor deve ser concedido. Ponto final. A tensão na sala é palpável. Minhas mãos se fecham em punhos debaixo da mesa. Antes que eu possa responder, Valentino me interrompe: — Claramente, não foi por isso que Damian nos chamou aqui — diz ele, com a voz suave, mas carregada de impaciência. — Por que não vamos direto ao ponto? Respiro fundo, forçando-me a relaxar. Valentino tem razão. Temos problemas maiores. — Tudo bem — digo, com a voz tensa. — Giovanni Barrone foi longe demais. Ele está ameaçando territórios neutros, exigindo taxas de proteção exorbitantes... e agora recorreu ao incêndio criminoso. Dário arqueia uma sobrancelha. — Incêndio criminoso? Essa é uma acusação séria, Damian. — Não é uma acusação. É um fato — respondo, firme. — Ele tentou incendiar a Elegance ontem à noite. Valentino, ainda mexendo no celular, zomba: — A alfaiataria? Não parece ser um assunto digno da nossa atenção. Cerro o maxilar, controlando a raiva. — É mais do que apenas uma loja. É um ponto de encontro da comunidade, um território neutro respeitado por todas as Famílias há gerações. Houve um acordo entre Salva Saldano e Valentino Barrone para deixar a Elegance em paz. Alberto, desconfortável com sua nova posição, pigarreia: — Embora isso seja lamentável, Damian, o que espera que façamos? Não podemos microgerenciar os territórios de cada Don. — Não se trata de microgerenciamento — rebato. — As ações de Giovanni estão comprometendo o equilíbrio que todos trabalhamos tanto para manter. Ele está antagonizando a comunidade, chamando atenção indesejada. Dário se recosta, o rosto com a cicatriz contorcendo-se em pensamento. — Você tem razão. Mas intervir nos assuntos de outra Família... não é algo que fazemos levianamente. Valentino finalmente guarda o celular. — Vamos ser sinceros. Isso é mesmo sobre a comunidade, Damian? Você nunca deu a mínima para a Elegance antes. — Aposto que o Damian conheceu a neta tentadora do Sr. Salva Saldano — ironiza Dário , olhando para mim com um sorriso enviesado. — É por isso que ele está aqui. Minha raiva ameaça explodir, mas mantenho a voz sob controle. — Trata-se de respeitar o nosso código. Um código que Giovanni parece ter esquecido. Alberto se remexe. — Mesmo que concordemos que algo deve ser feito... o que está propondo? Não podemos simplesmente tirá-lo do poder. — Por que não? — desafio. — Ele é um risco. Suas ações colocam todos nós em perigo. Dário levanta a mão. — Calma, Damian. Remover um Don não é algo que fazemos de maneira impulsiva. Valentino concorda com a cabeça. — E mesmo que fizéssemos, quem tomaria o lugar dele? O d***o que você conhece... — Então me deixem lidar com ele. Dêem-me autoridade para colocá-lo em seu devido lugar. Os três Dons trocam olhares. Antes que possam responder, a porta se escancara. Giovanni entra com Lorenzo, um sorriso cínico nos lábios. A tensão na sala se eleva instantaneamente. Os guarda-costas se movem em alerta. Vejo Carlo levar a mão discretamente ao paletó. Giovanni observa a todos, o sorriso se alargando. — Senhores, espero não estar interrompendo nada importante. O rosto de Dário permanece impassível. — Giovanni. Essa é uma reunião privada. — Ah, eu sei muito bem — responde ele, com falsa leveza. — Mas achei que vocês gostariam de ouvir algumas... notícias interessantes de Chicago. Valentino ergue uma sobrancelha. — Chicago? E o que diabos você tem a ver com aquilo? Giovanni sorri, enigmático. — Digamos que tenho feito novos amigos. Amigos poderosos. Lorenzo Alighieri pigarreia. — É verdade. Dizem que a Chicago Outfit está bastante interessada no Sr. Barrone aqui. Um silêncio pesado se instala. Vejo os outros Dons calculando riscos e possibilidades. Alberto, ainda mais pálido, pergunta: — E os irlandeses? Qual é a posição deles nisso tudo? Os olhos de Giovanni brilham. — Engraçado você perguntar. Eles também estão... bastante interessados em expandir sua influência em Nova York. A ameaça paira, clara como o dia. Giovanni não está apenas ameaçando. Ele está jogando xadrez enquanto todos pensávamos estar em uma partida de cartas. Inclino-me, voz baixa e firme: — E o que exatamente você espera ganhar com isso, Giovanni? Ele se vira para mim. — Ganhar? Ora, Damian... estou apenas zelando pelos nossos interesses mútuos. Afinal, ninguém aqui quer ver um incidente infeliz quebrar a paz que todos prezamos. Lorenzo dá um passo à frente. Sua voz corta o ar: — Senhores, a Bratva tem interesse em manter a ordem. Se esse conflito afetar nossos negócios ou se espalhar para nossas propriedades, não hesitaremos em intervir. A sala mergulha em silêncio. A cicatriz de Dário se contrai, Valentino franze o cenho, Alberto quase sua frio. Giovanni, por outro lado, parece saborear cada segundo da tensão crescente, o sorriso presunçoso colado ao rosto. Levanto-me devagar, chamando a atenção de todos. — Chega — digo com firmeza. — Precisamos recuar. Todos nós. O sorriso de Giovanni cresce, mas o ignoro. — Essa situação exige delicadeza. Agravá-la só trará consequências desastrosas. Meus olhos percorrem os Dons. — Dêem-me tempo. Vou resolver isso antes que a cidade vire cinzas. O silêncio pesa como concreto. Então, Dário assente, relutante: — Muito bem, Damian. Você terá sua chance. Mas não se esqueça — nossa paciência é limitada. Vejo o brilho satisfeito nos olhos de Giovanni, e isso me corrói. Mas não posso reagir agora. Ser impulsivo seria dar a ele o que deseja. De repente, uma explosão ensurdecedora sacode a sala, fazendo as paredes tremerem. O som reverbera como trovão. O ar se enche de poeira. — Que diabos foi isso?! — grita Dário , a voz abafada pelo zumbido em nossos ouvidos. Olho ao redor. Os guarda-costas já estão em posição, armas em punho. Minha mão alcança instintivamente a pistola sob o casaco. Eu conheço esse som. Foi um carro. Um carro explodindo. E isso muda tudo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR