Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – O Início do Caos
O despertador tocou. Eu ignorei.
Tocou de novo. Continuei ignorando.
Na terceira vez, minha mãe resolveu resolver a questão do jeito dela.
— LETÍCIA, PELO AMOR DE DEUS, LEVANTA DESSA CAMA!
Enterrei o rosto no travesseiro e gemi como se estivesse sendo arrancada de um coma profundo. Sábado. Nove da manhã. Eu poderia estar tendo um sonho maravilhoso com praia, dinheiro fácil ou até mesmo com a Taylor Swift me dando ingressos pro show. Mas não. Eu estava sendo convocada para o trabalho forçado.
— JÁ VOU! — gritei de volta, mesmo sabendo que minha voz saiu abafada e completamente não convincente.
O motivo de todo esse estresse matinal era simples: mudança.
Detesto mudanças. Detesto carregar caixa, detesto reorganizar tudo depois, detesto o cheiro de caixa de papelão nova. Minha estratégia foi genial: peguei todas as minhas coisas, joguei dentro de caixas aleatórias, passei fita adesiva cruzada três vezes e pronto. Organização é superestimada de qualquer forma.
Sou uma adolescente completamente normal. Às vezes tomo Toddy sem agitar a caixinha. Isso deveria contar como um traço de personalidade interessante.
Desci as escadas pulando os degraus de dois em dois e parei na frente dela com os braços abertos, como quem apresenta um show de talentos.
— Prontíssima. Pode bater palmas.
Minha mãe me olhou de cima a baixo com aquela expressão clássica de “em que momento eu errei na criação dessa menina?”. Vou responder por ela: em nenhum. Eu sou só excêntrica.
— Ótimo. Vamos. Os móveis já foram no caminhão.
No carro, só nós duas e algumas caixas menores. Liguei o rádio no volume máximo antes que ela pudesse protestar.
“I saw you in a dream / You wore a thin disguise...”
The Weeknd invadiu o espaço com aquela voz melancólica e eu fechei os olhos por um segundo, deixando a música me levar para longe daquele dia tedioso.
Mas, claro, minha mãe desligou o rádio.
— Ah, mãe! Sério? Eu tava no clima.
— Você não tá ouvindo?
— Ouvindo o quê? Os velhos discutindo na padaria? Isso é patrimônio cultural, devia ser museu.
Ela riu, balançou a cabeça e voltou a prestar atenção no trânsito. Mas não disse nada sobre fones de ouvido.
Coloquei um dos lados, apoiei o cotovelo na janela e deixei o mundo lá fora virar um borrão cinza. O prédio novo era bonito. Pelo menos isso. Piscina enorme, salão de festas, sala de cinema, até máquina de pipoca no corredor. Quase um shopping.
Minha mãe estacionou o carro, desceu e já foi tentando equilibrar quatro caixas ao mesmo tempo. Quase caiu. Eu apenas observei.
— Vai ficar aí parada? — ela perguntou, claramente prestes a desabar.
Corri antes que ela deixasse tudo cair e sobrasse pra mim. Peguei duas caixas, apertei o botão do elevador de serviço e subi apertando o número quinze. Cobertura. Minha nova casa.
O elevador abriu.
Dei um passo.
Meu pé enroscou em alguma coisa — melhor dizendo, em alguém — e eu caí com tudo. As caixas voaram, meu joelho raspou no chão, e um corpo mole amorteceu parte da queda. Por sorte, nada de vidro. Minha mãe não me mataria hoje.
— Aí, m***a. Desculpa — falei sem olhar pra cima, ainda tentando entender o que tinha acontecido.
— Você não olha pra onde anda, não?
A voz era grave. Irritada. Masculina.
Levantei os olhos.
E ali, caído no chão do corredor com uma expressão de ódio puro estampada no rosto, estava o garoto mais bonito que eu já vi na vida.
Cabelos escuros levemente ondulados caindo sobre o rosto, olhos castanho-escuros, um brinco pequeno em uma das orelhas e alguns anéis prateados nos dedos. Camisa preta levemente amassada, o que, de alguma forma, só deixava ele mais atraente.
Ele tinha cara de quem não prestava. Aliás, certeza.
— m***a, garota. Presta atenção na próxima vez — ele disse, levantando do chão num movimento rápido e seguindo em direção às escadas.
— RETIRO MEU PEDIDO DE DESCULPAS! — gritei atrás dele.
Ele nem olhou pra trás.
Odeio gente grossa. Odeio gente bonita e grossa. Pior combinação possível.
Foi aí que a ficha caiu.
Se ele estava nesse andar, ele morava nesse andar.
No mesmo andar que eu.
Puta m***a.
Respirei fundo, peguei as caixas do chão, arrastei até a porta do apartamento e meti a chave na fechadura com mais força do que deveria.
Desci de novo. Mais caixas. Mais dor nas costas.
Quando cheguei na portaria, minha mãe estava conversando animadamente com alguém.
— Ai, filha! Que bom que você voltou! — ela disse, com um sorriso que já me deixou com o pé atrás.
Do lado dela, o mesmo garoto do elevador. Só que agora estava limpo, arrumado, apoiado na parede com uma expressão de tédio soberano.
— Esse aqui é o Caio. Filho do síndico. Mora no mesmo andar que a gente! — minha mãe falou, praticamente vibrando.
Sorri pra ela. Sorriso falso. Daqueles de quem já está calculando todas as formas de se livrar de um vizinho indesejado.
Caio me olhou de cima abaixo com um meio sorriso debochado.
— Prazer, Letícia. Ouvi falar muito de você.
Ele pegou minha mão e beijou. Sim, beijou. Com requintes de sarcasmo.
Deus me livre.
— Mãe, precisa de mim pra mais alguma coisa? — perguntei, torcendo mentalmente pra ela dizer não.
— Não, filha. Sobe com o Caio. Ele vai levar umas caixas também.
Beijo na bochecha. Sorriso pro vizinho. E tchau.
Beleza. Em cinco minutos, esse cara já tinha virado e*****o da minha mãe.
Andamos até o elevador em silêncio. Ele resolveu quebrar primeiro.
— Vou ser bem direto. Não gosto de você.
Parei. Olhei pra ele. Ele olhou pra mim. O silêncio durou três segundos.
— Isso era pra me afetar? Porque, querido, saiba que é recíproco.
Dei dois tapinhas no ombro dele com a maior superioridade que consegui fingir.
— Você se acha demais, não acha?
— Ah, só às vezes. — Pisquei.
Ele revirou os olhos.
Quando chegamos na porta do meu apartamento, a ficha caiu de novo.
A chave.
Cadê a chave?
Revirei o bolso da calça jeans, a mochila, os bolsos do moletom. Nada.
— Não, não acredito. Como você perde a chave do apartamento, cara? — Caio perguntou, com uma voz tão irritada que parecia que o imóvel era dele.
— Dá pra ficar quieto só um segundo? Estou pensando.
— Você é muito irresponsável.
— Nossa, disse o adulto mais adulto do mundo. Eu não perdi a chave, eu só esqueci onde coloquei. Tem diferença.
— Esse seu jeito tá me irritando.
Ele se aproximou. Muito.
— Estranho, porque eu não lembro de tentar te agradar — respondi, chegando ainda mais perto.
O rosto dele ficou a centímetros do meu. Dava pra ver os pontos nos olhos escuros, a linha da mandíbula, o brinco brilhando sob a luz do corredor.
Ele me encostou contra a parede. Devagar. Não com violência, mas com uma intensidade que gelou minha espinha.
— Olha, linda. Você não brinca comigo, tá? Não sabe do que eu sou capaz...
O barulho do elevador cortou a frase no meio.
Nós dois pulamos pra trás ao mesmo tempo.
Minha mãe.
— Mãe? Você não tinha ido pro trabalho?
— Eu ia, filha. Mas aí vi isso no chão do estacionamento.
Ela balançou a chave na mão.
— Ainda bem que não perdi! — falei rápido demais.
— Ah, você achou que tinha perdido a chave novinha do apartamento? — Ela cruzou os braços.
— Claro que não, mãezinha linda. Eu sabia o tempo todo que a chave estava com você. Jamais entraria em pânico por isso.
Ela negou com a cabeça e se virou pro Caio.
— Viu só como ela é, Caio? Ainda bem que agora a gente tem um vizinho responsável pra cuidar dela quando eu estiver fora, não é?
Caio sorriu. Com aquele sorriso inocente de quem nunca aprontou nada na vida.
— Claro que sim.
Ele ia pagar por isso.
— Ai, mãe, tá bom. Você já tá atrasada. Fica tranquila que eu mesma cuido das coisas.
— Não sei se confio nos seus tipos de cuidado...
— Aquilo da chave foi um caso isolado! Um evento raro!
Ela riu, me entregou a chave, apertou meu rosto com as duas mãos e entrou no elevador.
— Juízo, Letícia!
O elevador fechou.
Silêncio.
— Então... — comecei, sem olhar pra ele.
— Te encontro por aí, vizinha.
Caio deu meia-volta, abriu a porta do apartamento ao lado e sumiu.
E eu fiquei ali, parada, com a chave na mão e uma certeza absoluta no peito.
Essa ia ser a pior vizinhança da minha vida.