A Terra Não Tem Paz

1118 Palavras
Sabe quando você sente que não há lugar nenhum onde exista paz? Bom, eu conhecia o que era paz antes de vir pra Terra. E hoje, eu entendo o porque dos anjos serem anjos da guarda dos humanos. É realmente difícil viver aqui sem ajuda. Estou deitada na cama da casa do Caim. Sinto que não pertenço mais a esse lugar. Antes, eu sentia que aqui era minha casa... Agora, é como se eu estivesse de favor. Agora, é hora de ir até a escola. Viver a vidinha medíocre de um ser humano comum. A professora de história está falando sobre Nietzsche. Tem uma frase dele que eu gosto muito. "Aquele que luta contra monstros, deve tomar cuidado para não se tornar um. Isso porque, quando você olha muito para um abismo, ele te olha de volta." Esse cara teve um surto psicótico depois de ver um cavalo ser espancado. Acho que eu entendo ele. Eu, como Nietzsche alertou, tenho olhado demais para os abismos dessa terra. Será que estou me tornando igual? - Senhorita Brown, poderia responder a pergunta no quadro? Sem pânico, Billie. Você não ouviu nada do que a professora disse, mas é capaz de sair dessa. A pergunta no quadro fala sobre a vertente do pensamento de Nietzsche. - Ele é racionalista e prega o equilíbrio. - A professora sorriu ao me ouvir falar. Acertei, apesar de estar perdida nos meus pensamentos. Na hora do intervalo, Rosa estava sentada com algumas meninas. Depois que ela perdeu a memória e a gente não trocou nada além de um selinho em um dia r**m, eu meio que não sei o que fazer. Sentei sozinha. Não que eu não tivesse opções, mas eu sentei sozinha porque quis. Talvez seja melhor me afastar e cuidar do caos em que minha cabeça se tornou depois de tudo que aconteceu. E isso me faz lembrar da Luz. Onde será que ela está? - Billie! - Novamente, fui tirada dos meus pensamentos. Dessa vez, era a Ellen. Eu odeio a voz dessa menina, ela é altamente irritante. - Finalmente longe da Rosa. Quer sentar com a gente? - Na verdade, eu tô de saída. - Sim, eu realmente tô de saída. Eu saí. Fui me esconder na biblioteca. Ao menos aqui, ninguém irá me incomodar. Tenho prestado bastante atenção na literatura dos humanos. E eu escolhi um livro celta para ler dessa vez. Eu não ouvi o sinal porque estava perdida no livro. Eu precisava entender o que estava acontecendo entre Tristão e Isolda. Resumindo a história... Tristão era um cavaleiro amaldiçoado pelo próprio nome e Isolda uma princesa loira, linda e que morava na casa do c*****o. Certo dia, um fio de cabelo da Isolda voou da casa do c*****o até o reino onde Tristão morava. O rei do reino de Tristão se apaixonou pelo fio de cabelo loiro, porque é bem normal as pessoas se apaixonarem por fios de cabelo... E mandou Tristão procurar a dona desse fio. Obsessivo? Talvez. Acontece que, Tristão, mandado para proteger e procurar Isolda, a encontra... O coração dos dois se conecta imediatamente. Isolda é uma princesa, e ele é só a p***a de um cavaleiro. Ele entrega o pedido de casamento ao pai da princesa e a leva em direção ao rei. Ah, o Tristão tava triste, porque ele achou a Isolda uma gata e sabia que não ia poder ficar com ela. Acontece que, bom... Existem sogras e mães muito sacanas. A mãe da Isolda deu para um empregado uma poção do amor para que Isolda bebesse junto com o rei e os dois tivessem uma vida feliz. Mas, pra f***r com tudo, a anta da Isolda bebeu com o Tristão. Os dois não podiam mais ficar separados. Tristão obviamente comeu a Isolda a viagem inteira, e eu faria o mesmo, de acordo com a descrição que ele faz dela. E aí... Chegou o momento em que eles precisavam se separar. A Isolda mentiu a vida inteira e seguiu sua vida, se encontrando com Tristão vez ou outra. Por algum motivo louco, mesmo com o fim da poção, eles ainda se amavam. E aí, o rei descobriu. Mandou matar Tristão. E quando ele morreu, Isolda morreu de tristeza. Eu fechei a p***a do livro revoltada. p***a, p***a, eles lutaram a p***a do livro inteiro e não conseguiram? Procurei na biblioteca e achei a segunda versão desse livro... E veio com uma continuação. Nesse livro, por ser uma lenda, havia uma parte a mais na história. Tristão e Isolda foram enterrados juntos, e viraram árvores que entrelaçam seus galhos. Ao menos em morte ficaram juntos. - Te procurei pela escola toda... - Era Rosa. Ela se sentou do meu lado. Eu estava no chão da biblioteca, sentada embaixo da sessão de livros celtas. - Eu me perdi nesse livro. Por que as pessoas que se amam não podem simplesmente ficar juntas e serem felizes? Isso é triste. - Soltei o livro, chateada. - A vida é assim, Billie. Infelizmente, as vezes, a vida separa pessoas que se amam. Eu não conheço esse livro, mas tô vendo que ele mexeu com você. - Concordei com a cabeça. - Eu não tô muito bem esses dias, pra falar a verdade. E ver que o mundo pode ser tão triste... Me faz sentir como se eu tivesse olhando pro abismo. E sentir como se ele estivesse me olhando de volta, como Nietzsche diz. - Rosa deitou a cabeça no meu ombro. Eu acabei passando um dos braços ao redor dela, a puxando para perto. - Fica comigo hoje, Billie? Você me fala o que tá te deixando triste... E eu te falo o que tá me deixando triste. Talvez a gente precise disso. - Concordei com a cabeça. Ela ficou em silêncio por alguns instantes, antes de voltar a falar. - Já sentiu como se algo muito importante tivesse simplesmente sumido da sua cabeça? Merda. - Já. - Menti. - Eu sinto como se tivesse esquecido algo que mudaria o sentido da minha vida. E por algum motivo, isso envolve você. - Ela falou. Eu dei-lhe um beijo no topo da cabeça. Merda de novo. - Não fica pensando nesse tipo de bobagem. O que é importante, acaba voltando pra nossa memória. - Ela sorriu. - Vem, já acabou a aula faz tempo. Me leva pra minha casa, vai. - Ela se levantou e começou a me puxar para que eu me levantasse também. Eu o fiz. Eu espero que a Rosa não se lembre que eu sou um anjo. Se ela lembrar, terei que fazer aquilo de novo... E ela vai me esquecer mais e mais. E talvez eu suma da memória dela para sempre.
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