Anjo Nosso de Cada Dia

1049 Palavras
Rosa acordou como se fosse um dia normal. Eu não preguei o olho, apesar de estar cansada. Carregar a quantidade de poder que recebi de volta no meu corpo é bastante difícil, já que eu tô um pouco degenerada. Rosa colocou um vestido amarelo rodado com pequenas margaridas. Estava linda. Colocou suas sandálias e seu chapéu, pegou uma bolsa e estava pronta para sair. Se eu pudesse, não a deixaria sair de casa. Eu andava ao lado dela e ninguém via. No início, fiquei assustada ao perceber que ninguém podia me ver enquanto eu estava atrás ou ao lado de Rosa. As pessoas passavam literalmente no meio de mim como se eu fosse fumaça... E aí, o momento fatídico, aparentemente iria acontecer. O farol estava fechado, e os pedestres atravessavam de forma ordenada. Rosa se distraiu e acabou indo após alguns segundos. Quando estava chegando perto da calçada, um homem de moto se aproximava e eu percebi que os dois colidiriam. Foi por isso que eu a empurrei, com toda a energia que eu tinha, para frente. Ela caiu na calçada e ralou os joelhos, e a moto não encostou em um fio sequer dos cabelos dela. Na verdade, se eu fosse um humano, estaria morta, porque fiquei literalmente na frente da moto. Rosa chorava com os joelhos levemente ralados. Uma moça, vestindo um jeans e uma camiseta vermelha, ofereceu ajuda. Ela tinha cabelos castanhos e bem curtos, e usava uma corrente com uma cruz no pescoço. – Meu nome é Rosa. Obrigada pela gentileza. – Ela sorriu. A outra a olhava de forma magnética. Eu sei, Rosa é linda. E não lembra de mim. – O meu é Alisson. Prazer em conhecer você. Pena que não foi em um momento melhor... – Ela sorriu. Epa, eu conheço esse sorriso... Eu também conheço esse sorriso no rosto da Rosa. Era esse o preço que eu pagaria? Eu a veria feliz... Com outra pessoa? Bom, foi nesse momento que eu percebi o quanto eu amava a Rosa. Eu percebi que proteger ela era meu destino de qualquer forma, e lá estava eu. Era minha missão. Lembrei-me de uma poesia que escrevi de madrugada. "Eu parei de respirar Para poder te salvar Deixei minha alma rasgar Desisti de te ter Porque eu te amo e não consigo viver Sabendo que o mundo não tem mais você" Senti lágrimas descerem pelo meu rosto a medida que a conversa entre Rosa e Alisson desenrolava. Eu estava vendo... A minha garota... Literalmente se apaixonando por outra... Ah, droga... – É claro que eu aceito um café, Alisson! Demorou pra perguntar. – Ela sorriu e passou a mão no cabelo. Eu engoli seco. Meu coração se quebrou em mil pedaços. Rosa estava vivendo, e eu não podia culpá-la, ela sequer lembrava de mim... Por que eu a culparia por algo? Os quarenta minutos tomando café foram horríveis, e eu podia ver o espectro do anjo da guarda de Alisson. Ele era bem mais forte que eu. Talvez por não ser a p***a de um anjo caído. Sei que não recuperei minha força ainda, mas vagarosamente tenho me sentido mais forte. O dia foi intenso. Tive medo de perder a Rosa, mas cumpri minha missão: Ela estava em casa, deitada, pronta pra dormir. E quando ela fechou os olhos... Disse uma frase estranha. – Queria sonhar com a moça do cabelo azul de novo. Eu... É estranho eu estar falando com você, Deus? É, eu nem acredito em você, mas algo em mim... Algo em mim mudou de ontem pra hoje. Então, eu gostaria de sonhar com a moça de cabelo azul. Ela me traz uma paz que eu só sinto... Só sinto quando sonho com ela. Acredite se quiser, mas a medida que Rosa falava com Deus, era como se um rolo mágico de palavras se formasse e eu o enrolei em minha mão. Era a primeira oração da Rosa que seria levada ao céu. E eu sei que são os anjos da guarda que levam as orações pro céu, e é por isso que... Bom, acho que seria levada.  Aquela oração informal devia ser levada até o céu? A moça de cabelo azul sou eu? Eu tenho essa missão, não é? Afinal, eu... Eu sou o anjo da guarda dela... Fiz o envio da oração através do poder que tenho. Ela subiu feito um redemoinho pequeno, discreto, bem diferente da oração de outras pessoas. Eu jamais saberia se a oração de Rosa foi atendida ou se ela sonhou comigo... A menos que ela falasse para alguém. Assisti Rosa dormir. Por Deus, como eu queria tocá-la, beijá-la, amá-la e abraçá-la... Mas era como se a minha garota estivesse em uma p***a de caixa de vidro. Rosa se tornou intocável. Eu aceitei isso, por ela. Aceitei quebrar meu próprio coração para cuidar da minha garota. Na manhã seguinte, ela acordou animada como sempre. Eu fico sentada no sofá do quarto dela durante a noite. Às vezes entro embaixo da cama, pra me distrair. Às vezes deito ao lado dela e revivo mentalmente as coisas que vivemos e que ela não lembra... Quantos anjos como eu será que existem? Eu nem sabia que um anjo podia ter o coração partido, até ver a Rosa trocar telefones com outra pessoa. Rosa penteava os cabelos em frente ao espelho. E aí, o telefone dela tocou. Era a Alisson. – Bom dia, princesinha! – Ela sorriu assim que ouviu a outra chamá-la de princesa. Eu senti uma facada no coração. Como dói! Isso é a p***a do inferno! Espera... O inferno... É isso? – Bom dia, Alisson! Quanta animação... – Rosa mordeu o próprio lábio inferior. Ela estava completamente na da Alisson. As duas conversaram por alguns minutos. Eu sentia lágrimas escorrerem por meu rosto como se fossem reais... E eu percebi que o tapete de Rosa estava ficando manchado, com as minhas lágrimas. Como isso era possível? Eu não sei. Eu só sei que assim que vi, fui até a sacada e chorei sozinha por alguns instantes, até ver a Rosa saindo pela porta da frente. Eu não tinha mais tempo pra chorar... Era hora de cuidar da Rosa e servir ao papel ao qual fui designada. Como Shakespeare diz, o mundo não para, para consertarmos nosso coração partido.
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