capítulo 15

1546 Palavras
Lívia conseguiu engolir algumas colheradas do caldo que Luiza preparara com cuidado, soprando a superfície quente antes de levar à boca da nora. O sabor era suave, quase neutro, mas desceu como uma pequena vitória. Pouco depois, sua mãe chegou trazendo um embrulho, de onde saiu o cheiro reconfortante de pães ainda quentes. — Só um pouquinho — insistiu ela, sentando-se ao lado da filha. Lívia comeu devagar. Não era muito, mas foi o suficiente para acalmar o estômago por alguns minutos — e, para as duas mulheres, para dizer que ela não estava completamente vazia por dentro. As duas mães trocaram um olhar breve, silencioso. Algo martelava na mente de ambas. Um pensamento incômodo, insistente, que nenhuma das duas ousou colocar em palavras. Não ali. Não ainda. Preferiram proteger Lívia do peso daquela possibilidade, ao menos até terem certeza de alguma coisa. No início da tarde, saíram juntas em direção ao consultório. Lívia caminhava devagar, apoiada entre as duas, como se o corpo não lhe pertencesse por completo. O médico ouviu tudo com atenção: os enjoos, os vômitos persistentes, o cansaço extremo, a falta de apetite. Fez perguntas, anotou, observou demais. — Vamos precisar de alguns exames — disse, com a calma de quem não queria alarmar, mas também não podia minimizar. — Prefiro que você fique internada para acompanharmos de perto. O coração de Lívia apertou. — Internada? — repetiu, num fio de voz. — É o melhor — respondeu ele, gentil. — Assim evitamos riscos desnecessários. As mães concordaram de imediato. Nenhuma delas discutiu. Poucas horas depois, Lívia estava acomodada em um quarto simples, o braço estendido para a coleta de sangue, o soro pingando lento na veia. O cheiro de hospital a deixou levemente enjoada outra vez, mas agora era um enjoo diferente — mais profundo, mais estranho. Luiza fez a ligação que o filho temia e esperava ao mesmo tempo. Do outro lado da linha, em Atenas, Saimon sentiu o mundo estreitar quando ouviu a palavra “internada”. — Como ela está? — perguntou, a voz tensa demais para esconder qualquer coisa. — Estável — respondeu a mãe, com cuidado. — Mas os médicos querem investigar melhor. Ele desligou e, sem pensar duas vezes, foi direto para o aeroporto. Tentou o primeiro voo. Lotado. O segundo. Cancelado. O terceiro só sairia na manhã seguinte. O desespero fez com que ele não fosse embora. Saimon sentou-se em uma das cadeiras do saguão, ainda com a roupa da empresa, o paletó largado ao lado, a gravata afrouxada, os cotovelos apoiados nos joelhos. Passou a mão pelos cabelos repetidas vezes, incapaz de ficar parado. Pela primeira vez desde que a deixara na ilha, sentia algo próximo do medo real. As imagens que haviam chegado mais cedo — Lívia na rua, Lucas segurando seu braço, a proximidade que o ferira tanto — simplesmente desapareceram da mente dele. Não importavam mais. Nada importava, além do fato de que sua esposa estava em um leito de hospital e ele não estava lá. — Aguenta mais um pouco — murmurou para si mesmo, como se ela pudesse ouvir. — Estou indo, Lívia. Prometo. E, na pequena ilha de Célia, enquanto a noite começava a cair, Lívia dormia sob o efeito do cansaço e do soro, sem saber que, naquele mesmo instante, duas mães compartilhavam o mesmo pensamento silencioso — e que Saimon aguardava, a poucas horas de distância, com o coração apertado por algo que ele ainda não tinha coragem de nomear. O sol m*l havia tocado as cortinas claras do quarto quando o médico retornou. Seus passos eram tranquilos, diferentes da pressa contida do dia anterior. O semblante, antes cauteloso, agora parecia… sereno. Lívia estava sentada na cama, os joelhos cobertos pelo lençol branco, os dedos entrelaçados com força no colo. Luiza permanecia de pé ao lado da janela, enquanto sua mãe ocupava a cadeira próxima, atenta a cada gesto do profissional. — Bom dia — disse ele, com um leve sorriso profissional. — Já temos os resultados dos exames. O coração de Lívia acelerou. Sentiu um frio percorrer-lhe a espinha, como se o corpo soubesse antes da mente. — Alguns valores estavam alterados — continuou o médico, consultando a prancheta. — Desidratação, deficiência nutricional leve, anemia. Algo comum quando o corpo passa por estresse intenso e alimentação irregular. Tudo isso é tratável. Luiza soltou o ar devagar. A mãe de Lívia relaxou minimamente os ombros. Mas o médico não fechou a pasta. Ergueu o olhar. — Há algo mais importante do que qualquer outro dado aqui. O silêncio se instalou pesado, quase palpável. — Lívia… — ele disse com cuidado — você está grávida. O mundo pareceu parar. — Grávida? — a palavra saiu fraca, incrédula. — Aproximadamente seis semanas — confirmou. — Pelos cálculos, tudo indica uma gestação saudável até o momento. Mas, vamos fazer uma ultrassom para ter certeza. Lívia levou a mão ao ventre instintivamente, como se pudesse sentir algo ali. O estômago que tanto a traíra nos últimos dias agora parecia guardar um segredo maior do que qualquer dor. Seis semanas. Seis semanas atrás, ela ainda estava na casa de Saimon. Ainda se perdia nos braços dele, ainda ria do jeito sério com que ele dobrava camisas, ainda acreditava que teria tempo. Luiza fechou os olhos por um instante, a mão pressionando o próprio peito. A mãe de Lívia levou a mão à boca, emocionada demais para falar. — Por isso os enjoos — explicou o médico, suavemente. — O cansaço extremo. O olfato sensível. Seu corpo está trabalhando dobrado. Lívia sentiu lágrimas silenciosas escorrerem sem aviso. Não eram de medo. Não eram exatamente de alegria. Eram de impacto. De compreensão. De uma verdade que agora se impunha sem pedir permissão. Ela não estava sozinha. Nunca esteve. O médico explicou os próximos cuidados, falou sobre repouso, alimentação adequada, acompanhamento regular. Mas Lívia m*l ouvia. Sua mente estava presa a uma única imagem: os olhos verdes de Saimon. Como ele reagiria? Ele, que partira acreditando que ela escolhera ficar. Ele, que esperava que ela fosse até ele por vontade própria. E, naquele instante, enquanto o sol finalmente iluminava o quarto, Lívia entendeu que a tradição da ilha talvez não fosse apenas sobre almas gêmeas… Mas sobre destinos que se encontram, mesmo quando tentam se afastar. Saimon desembarcou em Célia pouco depois do meio-dia. O sol estava alto, inclemente, mas ele m*l percebeu. Não voltou para casa, não deixou a mala em lugar algum. Do aeroporto, seguiu direto para o hospital, o corpo cansado demais para registrar o peso das horas sem dormir, mas o coração atento a cada passo. Na recepção, disse o nome dela com urgência contida. — Sou o marido — explicou, antes mesmo que perguntassem. Poucos minutos depois, caminhava pelo corredor claro demais, o cheiro de antisséptico misturado à ansiedade. Parou diante da porta do quarto, respirou fundo por um segundo e entrou. Lívia estava sentada na cama, apoiada em travesseiros, um copo de água esquecido na mesa ao lado. Quando o viu, seus olhos se arregalaram num reflexo imediato. Não era alegria pura. Era susto. Era receio. Era tudo o que não haviam resolvido ainda, condensado em um único olhar. — Saimon. — murmurou. Isso não o deteve. Em dois passos ele estava ao lado da cama. A mão grande subiu até o rosto dela com cuidado quase reverente, os dedos percorrendo-lhe a bochecha, o maxilar, como se precisasse confirmar que ela estava ali de verdade. — O que aconteceu com você? — perguntou, a voz baixa, tensa. — Você está, — engoliu em seco. — Está tão magra. Lívia desviou o olhar por um instante, sentindo o toque dele como um choque quente demais para o estado em que estava. O polegar dele deslizou até a linha escura sob seus olhos. — Me disseram que você estava internada. — continuou ele. — Minha mãe não quis explicar direito. Eu achei que fosse enlouquecer naquele aeroporto. Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. O coração batia forte demais. — Eu passei m*l — respondeu, simples. — Enjoos, cansaço. Achei que fosse só estresse. Os olhos verdes dele a examinaram com atenção, como se cada detalhe importasse agora. — Você devia ter me ligado — disse, não como acusação, mas como constatação dolorida. — Eu tentei ser forte — ela murmurou. Ele fechou os olhos por um segundo, a testa tocando levemente a dela, como se aquele gesto fosse mais necessário do que qualquer palavra. — Não precisava ser — disse, num tom rouco. — Não comigo. O silêncio que se seguiu era denso. Carregado de tudo o que não haviam dito nas últimas semanas. Saimon ainda não sabia. Lívia sentia o segredo pulsar dentro de si como algo vivo, urgente. Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela outra vez. — O que os médicos disseram? — perguntou. — O que você tem? Lívia abriu a boca e fechou de novo. O coração batia forte demais. O momento chegara sem pedir permissão. Ela pousou a mão sobre a dele, ainda em seu rosto. — Saimon. — começou, a voz trêmula. — Eu preciso te contar uma coisa. E, naquele quarto claro demais para um segredo tão grande, o destino parecia segurar a respiração. ...
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