capítulo 14

1989 Palavras
Lívia estava submersa até os ombros, a água quente envolvendo seu corpo cansado, quando o telefone vibrou sobre a bancada de pedra. O som a tirou do torpor lentamente, como se estivesse voltando de muito longe. Ao ver o nome na tela, seu coração disparou. Saimon. Era a segunda vez que ele ligava naquele dia. Um sorriso espontâneo surgiu em seus lábios, quente, esperançoso. Por um instante, pensou que talvez ele estivesse com saudade. Talvez tivesse algo a dizer. Talvez estivesse voltando. — Alô — atendeu, a voz suave, quase feliz. Não houve resposta imediata. Apenas a respiração dele do outro lado da linha. — O que está acontecendo entre você e o Lucas? — perguntou, direto, sem preâmbulos. O sorriso dela se desfez. — O quê? — Lívia se sentou na banheira, a água ondulando ao redor. — Do que você está falando? — Não finja — a voz dele estava baixa, contida, perigosa. — Eu vi as fotos. Vocês dois juntos. Próximos demais. O peito dela apertou. — Fotos? Saimon, não existe nada entre mim e o Lucas. — Engraçado — ele respondeu, com ironia fria. — Porque parece exatamente o tipo de coisa que explicaria por que você ainda não saiu da ilha. Nem do trabalho. Nem da vida que tinha antes de mim. Ela fechou os olhos, sentindo a frustração subir. — Isso não é justo. — Então explique — ele rebateu. — Porque, daqui, parece que você está confortável demais ao lado dele. — Eu estou trabalhando! — a voz dela subiu, quebrando um pouco. — Estamos em época de reprodução das tartarugas. A praia está cheia de ninhos, a movimentação aumentou, e qualquer erro pode significar dezenas de perdas. Eu não posso simplesmente virar as costas! Houve um silêncio curto. Tenso. — Uma explicação conveniente — disse ele, por fim. Lívia sentiu como se levasse um golpe. — Você acha mesmo que eu usaria isso como desculpa? — perguntou, magoada. — Você sabe o quanto isso importa pra mim. — Eu sei o quanto você importa pra mim. — respondeu ele, com dureza. — E sei também que, quando alguém quer ir, encontra um jeito. Quando não quer encontra motivos. — Não é isso — ela sussurrou. — Eu só preciso de tempo. — Tempo para quê? — Saimon perguntou. — Para decidir se fica com o passado ou se vem viver o presente comigo? As palavras dele cortaram fundo. — Eu não estou escolhendo o Lucas — disse ela, com firmeza, apesar da dor. — Nunca estive. — Então por que ainda está lá? — ele insistiu. — Por que ainda permite que ele se aproxime? Por que não se afasta? Ela respirou fundo, sentindo as lágrimas ameaçarem. — Porque fugir não resolve tudo — respondeu. — E porque eu não quero que pareça que estou indo atrás de você por obrigação. Do outro lado da linha, o silêncio voltou. Mais pesado. — Eu não quero ser uma obrigação, Lívia. — ele disse, enfim. — Quero ser uma escolha. — Você é — ela respondeu de imediato. — Então prove. A ligação terminou. Lívia ficou ali, a água já fria, o telefone ainda junto ao ouvido, sentindo o peso da distância se instalar entre eles como algo quase físico. Ela percebeu, com uma clareza dolorosa, que amar não era suficiente se ambos estivessem esperando que o outro desse o primeiro passo. Lívia acordou com a sensação de que o corpo não era mais seu. A cabeça latejava. O estômago revirava. O cheiro do ar parecia intenso demais, como se o mundo tivesse se tornado maior do que ela conseguia suportar. Tentou se levantar, mas as pernas fraquejaram e ela se sentou de novo na cama, o rosto entre as mãos, sentindo o suor frio se acumular na testa. A boca seca, os olhos pesados. Algo não estava bem. Sentia-se mais fraca a cada respiração. Ao se arrastar até o banheiro, a visão turvou mais uma vez, e ela teve que se apoiar na pia. A ânsia aumentava. Infecção intestinal, talvez? Pensou, tentando se concentrar em algo que explicasse a dor no estômago. Mas a verdade é que ela já não sabia mais há quanto tempo não comia de forma saudável. Estivera tão envolvida com o trabalho, com os ninhos das tartarugas, com as demandas que surgiam de todos os lados. Os pais e a sogra mandavam comida para garantir que ela se alimentasse, mas era uma alimentação fria, repetitiva, de quem sabia que ela não tinha tempo. Foi só quando se debruçou no vaso sanitário que o mundo realmente se desfez. O vômito foi violento, e ela não conseguiu impedir que seu corpo reagisse. Quando finalmente parou, ela se sentiu exausta, como se tivesse corrido uma maratona inteira sem sequer ter se preparado. Se deitou ali mesmo, debruçada, a testa colada no frio da porcelana, a respiração irregular. A dor na cabeça estava piorando, a visão continuava nublada. O que está acontecendo comigo? O telefone tocou, interrompendo seus pensamentos, e ela se forçou a levantar a mão para olhar a tela. Era Saimon. Ela olhou para o celular, sem força para atender, e deixou o aparelho voltar a cair na cama. Não queria falar com ele. Não sabia nem o que diria. Naquele momento, ele parecia tão distante, como se fosse apenas mais uma lembrança de algo que ela não soubera como cuidar. Com um suspiro, ela se apoiou no banco e tentou se recompor. Precisava de água. Mas, quando foi beber, o estômago a rejeitou novamente, e ela teve que se debruçar no vaso outra vez. A infecção intestinal parecia uma explicação razoável, mas ela sabia que o cansaço também estava tomando conta. 1Nos últimos dias, não dormira direito, com a mente sempre acelerada, preocupada com o trabalho, com os pais, com o que teria de resolver no futuro próximo. E a saudade que insistia em lhe apertar o peito. Saudade de Saimon. Mas as palavras dele, as acusações feitas por telefone, não saíam de sua cabeça. Algo dentro dela gritava para que ela resolvesse logo essa situação, mas ao mesmo tempo, algo mais profundo, mais silencioso, a impedia de fazer qualquer coisa. Ela queria tanto que as coisas fossem mais fáceis. Queria poder simplesmente se deixar ir, correr até ele, mas a vida parecia não permitir. O telefone tocou de novo. Agora, o que mais ela poderia fazer? Ela o atendeu, ainda deitada, sentindo-se fraca e derrotada. Não havia mais nada que pudesse esconder. — Saimon — ela respondeu, a voz fraca, quase imperceptível. Do outro lado da linha, ele respirou fundo. Era nítido que ele não sabia o que dizer, mas parecia que algo no tom dela o deixou preocupado. — Lívia, você está bem? — perguntou, a preocupação transparecendo na voz. Ela fechou os olhos por um momento, não conseguindo mais segurar as palavras. — Não… não estou bem. Estou... — ela interrompeu, a voz falhando. — Não consigo nem ficar em pé. Ele ficou em silêncio por um instante, como se processasse a informação. Depois, a voz dele voltou, mais suave, mas ainda com aquela firmeza que ele tinha quando se importava demais. — Fique onde está. Eu vou voltar para aí. Vou pegar o próximo voo e, — Não! — ela interrompeu, forçando-se a se sentar. A dor no estômago voltava. — Não precisa vir. Eu vou me cuidar, Saimon. Não se preocupe. Mas a dúvida ainda estava lá. Se ela estava realmente sendo sincera ou se estava se enganando de novo, acreditando que poderia lidar com tudo sozinha. — Eu não estou fazendo isso por você. Não estou apenas dizendo isso porque você está doente, Lívia — ele disse, a voz cheia de tensão. — Eu só... eu só não entendo. Você não está me dando uma chance para fazer as coisas certas. Eu quero cuidar de você e não pode me impedir disso. Ela baixou o olhar, sabendo que ele tinha razão. Mas não sabia mais se queria ou se podia continuar lutando. A conversa acabou abruptamente. Ela desligou a chamada, sentindo o peso daquilo. A verdade era que o que ela sentia por Saimon era claro, mas ainda não sabia como reagir a isso. Como depositar o amor dela em alguém que acabou de conhecer, sendo que um que ela conhecia a vida toda, foi capaz de magoar ela como Lucas fez?! Lívia fechou os olhos, tentando processar tudo o que passava em sua mente. Ela precisava de respostas. E talvez a primeira delas fosse descobrir o que, de fato, a mantinha presa àquela ilha. A ligação de Saimon foi curta, tensa. Ele não fez perguntas demais, mas o tom da voz não deixava dúvidas: estava preocupado de verdade. Menos de duas horas depois, a mãe dele já subia os poucos degraus da casa de Lívia. Ela não bateu. Empurrou a porta com cuidado, como quem já se sentia no direito de estar ali, e entrou chamando o nome da nora em voz baixa. O silêncio respondeu. A casa parecia parada no tempo, abafada, pesada. Seguiu direto para o quarto. Lívia estava deitada de lado, o corpo encolhido, os cabelos espalhados pelo travesseiro. A pele, normalmente quente e viva, agora estava pálida demais, quase translúcida. Olheiras profundas marcavam seus olhos fechados, denunciando noites m*l dormidas e um cansaço que não era apenas físico. — Lívia… — chamou a sogra, aproximando-se da cama. No mesmo instante, o cheiro do perfume chegou primeiro. Era suave, floral, elegante demais para aquele momento. O estômago de Lívia revirou violentamente. Ela abriu os olhos de repente, levando a mão à boca, e se virou às pressas, m*l tendo tempo de se apoiar antes de se debruçar novamente sobre o balde ao lado da cama. A ânsia veio forte, fazendo seu corpo estremecer. A mãe de Saimon congelou por um segundo, surpresa, e logo deixou a bolsa sobre a cadeira, puxando os cabelos de Lívia com cuidado, afastando-os do rosto. — Meu Deus! Você está assim há quanto tempo? — perguntou, a voz agora completamente diferente, sem dureza alguma. Lívia não conseguiu responder de imediato. Apenas respirava com dificuldade, sentindo a garganta arder e o estômago vazio protestar como se ainda houvesse algo a expulsar. Quando finalmente conseguiu se recompor, recostou-se de novo na cama, os olhos marejados, a voz fraca: — Desde ontem à noite, talvez antes. Não sei ao certo. A sogra sentou-se ao lado dela, pousando a mão fria na testa quente da nora, avaliando-a com atenção. Havia algo ali que não parecia apenas uma indisposição comum. — Você comeu alguma coisa diferente? — perguntou, já pensando em possibilidades. Lívia balançou a cabeça devagar. — Quase não tenho comido. O trabalho tem me exigido muito. — suspirou. — Achei que fosse só cansaço. A mãe de Saimon a observou por um longo momento, os olhos atentos demais para quem já criara filhos e reconhecia sinais que não se aprendem em livros. O olhar dela desceu, quase instintivamente, para o ventre de Lívia, ainda plano, mas protegido pelas mãos que ela mantinha ali sem perceber. O silêncio se estendeu. — Vou preparar um chá — disse por fim, levantando-se. — E depois vamos levá-la ao médico. — Não precisa. — Lívia tentou protestar, mas a sogra já caminhava para a cozinha. — Precisa sim. — respondeu, firme, sem levantar a voz. — Meu filho ligou desesperado. E você é minha nora. Não vai passar por isso sozinha. Lívia fechou os olhos, sentindo algo estranho apertar o peito. Não sabia se era alívio, vergonha ou um medo silencioso que começava a ganhar forma. Enquanto ouvia os sons da cozinha, uma pergunta martelava em sua mente, insistente, incômoda: E se isso não for apenas cansaço? E, longe dali, Saimon dirigia com o celular ainda na mão, o coração apertado por uma sensação que ele não conseguia nomear — mas que, pela primeira vez, parecia muito próxima do pânico. ...
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