capítulo 13

1215 Palavras
Um mês se passou. Na ilha, o tempo não andava — se repetia. Lívia ainda acordava cedo, ainda atravessava as mesmas ruas de pedra, ainda sentia o cheiro do mar misturado ao de café fresco vindo das casas vizinhas. Tudo parecia igual, exceto ela. Saimon ligara apenas uma vez. — Como você está? — perguntara, a voz distante, controlada demais. — Estou bem — mentira automática. A dias se sentia cansada demais e sem nenhum apetite. — Seus pais? — Bem também. Silêncio. — Cuide-se, Lívia. E foi só. Nenhuma cobrança. Nenhuma promessa. Aquela ausência de insistência pesava mais do que qualquer briga. No trabalho, pedir demissão tornara-se um gesto impossível. Sempre havia algo novo: uma análise atrasada, um estudo urgente, um pedido que “só ela” poderia atender. Ou talvez fosse apenas medo. Lucas permanecia ao seu lado, como se nada tivesse acontecido. — Você anda distraída. — comentou ele certa manhã, apoiando-se na bancada do laboratório. — Isso não é comum em você. Lívia continuou organizando os materiais, sem olhá-lo. — Estou cansada. — Da rotina? — ele insistiu. — Ou… de outras coisas? Ela respirou fundo, fechando a gaveta com mais força do que o necessário. — Lucas, por favor. — Você não vai mesmo para Atenas? — perguntou, fingindo casualidade. Ela finalmente o encarou. — Por que isso te importa? Ele sustentou o olhar por um instante longo demais. — Porque você pertence a esta ilha — disse, por fim. — Sempre pertenceu. A frase a atingiu como algo errado, quase invasivo. — Eu não pertenço a lugar nenhum — respondeu. — E muito menos a alguém que me usou como substituta. O rosto dele endureceu. — Não foi assim. — Foi exatamente assim — Lívia rebateu, a voz baixa, mas firme. — Você me quis porque eu parecia com a Judith. Você mesmo disse. Lucas passou a mão pelo cabelo, incomodado. Sim, de fato foi isso que aconteceu e até aquele momento, ele sentia que a deusa finalmente tinha dado tudo o que ele queria. Mas, o convívio com Judith se tornou exaustivo rápido demais, e ele sentia uma falta, uma necessidade de estar com Lívia, ouvir a voz dela e sua alegria espontânea. — Isso não apaga o que tivemos. — ele insistiu, querendo uma oportunidade para que talvez ainda tivesse uma chance, já que os boatos diziam que Simon teria abandonado ela. — Apaga sim — ela respondeu, sentindo o peito apertar. — Porque me faz perceber que eu nunca fui suficiente. Só conveniente. Ele se aproximou um passo. — Lívia, eu sinto sua falta. Ela recuou. — Não confunda falta com posse. O silêncio caiu pesado entre eles, até o fim do expediente. Ao saírem do prédio no fim do dia, Lucas segurou Lívia pelo o braço, oferecendo uma carona como fez por dois anos, e em todos esses dias em que ela retornou ao trabalho. E como todas as vezes, ela recusou de imediato. Do outro lado da rua, Judith observava. A câmera profissional pendia casualmente do pescoço, mas seus olhos estavam atentos demais. Ela esperou o momento certo — quando Lucas tocou o braço de Lívia num gesto que poderia parecer íntimo fora de contexto. Clique. Depois outro. Clique. O enquadramento perfeito: Lívia séria, Lucas próximo demais. Judith sorriu. Desde que nascera, aprendera a conviver com o brilho doce da irmã. Lívia sempre fora a escolhida: pela simpatia, pela gentileza, pela facilidade com que as pessoas a amavam. Judith aprendera cedo que beleza não era tudo — e que inveja podia ser paciente. Então ele a deixou, pensou, satisfeita. Saimon não lutou por você, e agora você quer estar com Lucas novamente. Não terá um, nenhum dos dois. Na casa dos pais, mais tarde, Judith vasculhou gavetas com a naturalidade de quem sempre soube onde procurar. Encontrou o que queria entre papéis: um cartão esquecido, com um número escrito à mão. O contato de Saimon. Digitou a mensagem com cuidado, escolhendo as palavras certas. Não precisava mentir. Apenas sugerir. | Achei que você deveria saber como sua esposa está sendo consolada. | Anexou as fotos. Enviou. Do outro lado do mar, em Atenas, um telefone vibrou. Judith pousou o celular sobre a mesa e respirou fundo, satisfeita. Talvez Saimon tivesse abandonado Lívia. Mas ela não perderia a chance de garantir que, se ainda restava algo, aquilo fosse destruído. A reunião seguia em ritmo acelerado, gráficos projetados na parede, vozes se sobrepondo em argumentos técnicos. Saimon estava sentado à cabeceira da mesa, postura impecável, expressão neutra — o tipo de homem que ninguém ousava interromper. As duas semanas que passou na ilha, cobrou um preço maior que seus sentimentos. Agora ele tinha trabalho acumulado e m*l estava tendo tempo para ir em casa. Algumas vezes dormiu no sofá do escritório. O celular vibrou. Número desconhecido. Ele ignorou na primeira vez. Na segunda, lançou um olhar rápido, quase irritado. E então viu a prévia das imagens. O ar pareceu rarear. Na primeira foto, Lívia estava parada na rua, o corpo levemente inclinado para trás, enquanto Lucas segurava seu braço. O gesto parecia pequeno — mas íntimo demais. Familiar demais. Na segunda, estavam ainda mais próximos. Próximos demais para serem apenas colegas de trabalho. Próximos demais para um passado que deveria ter ficado enterrado. Algo se partiu dentro dele. — Com licença — disse, levantando-se antes que alguém pudesse reagir. Saiu da sala de reuniões sem esperar resposta, os passos firmes demais para alguém que acabara de receber um golpe. No corredor silencioso, encostou-se por um segundo na parede, fechando os olhos. Estás semanas trabalhara mais do que em qualquer outro momento da vida. Dormira pouco. Comera m*l. Preencheu cada espaço vazio com reuniões, decisões, contratos — qualquer coisa que o impedisse de pensar no que deixara na ilha. Mas não havia um único dia em que não pensasse em Lívia. Ele não ligara mais. Não insistira. Não pedira que ela viesse. Parte dele acreditava que o amor precisava ser escolha, não imposição. Queria que ela sentisse falta. Que decidisse por conta própria. Talvez tivesse esperado demais. Talvez ela tivesse esperado que ele voltasse para buscá-la. Mas não voltara. E agora aquelas fotos. Saimon abriu novamente a imagem, ampliando-a. O toque no braço. A inclinação do corpo dela. A proximidade que denunciava i********e — ou, ao menos, permissão. O maxilar dele se fechou. — Então é isso — murmurou para si mesmo, a voz baixa, perigosa. Não era apenas ciúme. Era algo mais fundo. Um sentimento antigo que ele conhecia bem: controle escapando pelas mãos. E isso ele não tolerava. Digitou uma mensagem rápida para o número desconhecido. > Quando foram tiradas? A resposta veio quase imediata. > Hoje. O coração dele bateu uma única vez, pesado. Hoje. Não semanas atrás. Não antes. Agora. Saimon bloqueou a tela e respirou fundo, endireitando o corpo. O homem que voltou para a sala de reuniões não era exatamente o mesmo que havia saído. Havia algo mais duro em seus olhos. Algo decidido. Se Lívia ainda era sua esposa — então aquilo precisava ser resolvido. E se ela tivesse escolhido ficar, ele precisava ouvir isso da boca dela. Não por fotos. Não por terceiros. Pegou o celular novamente. Desta vez, não ligou para o número desconhecido. Ligou para Lívia. ...
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