capítulo 17

1205 Palavras
Saimon acordou com a sensação incômoda de que sua coluna estava fora do lugar. O pescoço rígido, as costas reclamando da posição nada ideal em que passara a noite. Fez uma careta silenciosa, movendo-se com cuidado para não acordá-la. Mas foi ao erguer o olhar que tudo pareceu se alinhar novamente. Lívia estava acordada. O rosto tinha mais cor, os olhos menos opacos, e havia algo sereno em sua expressão que ele não via havia dias. Aquela simples constatação foi suficiente para renovar suas forças como nenhuma noite bem dormida conseguiria. — Bom dia. — murmurou ele, a voz rouca. Ela sorriu. Saimon se culpou por ter dormido tanto. Por não ter estado atento o tempo todo. A mão subiu até o rosto, como se quisesse se desculpar sem palavras. — Desculpa… eu— Lívia não o deixou terminar. Inclinou-se para frente e o beijou. Um selinho lento, demorado, inesperado. Não havia urgência, nem pedido escondido. Era apenas afeto puro, tranquilo, certo. Ele ficou imóvel por um segundo, surpreso e então relaxou, retribuindo com a mesma suavidade. Quando se afastaram, ela o observou por um instante, como se escolhesse cuidadosamente as palavras. — Podemos ficar juntos para sempre? — perguntou. Saimon engoliu em seco. O coração bateu forte, confuso, tentando acompanhar aquela virada repentina. Ele franziu levemente o cenho, buscando entender. — Você quer dizer aqui? Na ilha? Eu já disse, irei ficar com você. Vou entregar Ela negou com a cabeça, um sorriso calmo nos lábios. — Quero dizer ficar comigo. Onde for. Como for. O sorriso dele veio lento, verdadeiro. — Lívia. — disse, aproximando-se mais da cama. — Nunca existiu uma ideia em que eu deixasse você ir. Nem por um instante. Ela respirou fundo, como se soltasse algo que carregava há tempo demais. — Que bom — respondeu, com simplicidade. — Porque eu quero muito você. Algo dentro dele finalmente relaxou. Saimon fechou os olhos por um instante, sorrindo como alguém que acabara de encontrar exatamente o que procurava sem saber. Sabia que ainda havia muito a resolver: decisões difíceis, mudanças grandes, conversas com o pai, a empresa, a reorganização de uma vida inteira. Mas, pela primeira vez, tudo isso parecia secundário. A única certeza que ele tinha — firme, clara, inabalável — era aquela. Os sentimentos que nutria por Lívia não eram passageiros. Não eram fruto do acaso, nem da tradição, nem da circunstância. Eles cresciam. E, enquanto ele segurava a mão dela com cuidado, sentiu que, qualquer que fosse o caminho dali em diante, não precisaria mais trilhá-lo sozinho. Lívia recebeu alta naquela manhã, carregando consigo uma pequena pasta cheia de receitas, vitaminas e recomendações que pareciam intermináveis. Repouso, alimentação reforçada, horários rígidos. Tudo anotado com cuidado excessivo — como se o médico também sentisse a necessidade de protegê-la além do necessário. Em casa, o clima era outro. Luiza e a mãe de Lívia praticamente disputavam cada gesto. Uma queria preparar o chá, a outra ajustar os travesseiros. Uma lembrava dos horários das vitaminas, a outra insistia em cobri-la melhor, mesmo com o calor leve da ilha. — Ela precisa comer de três em três horas — dizia uma. — E descansar, nada de esforço — completava a outra. Saimon observava a cena encostado no batente da porta, claramente divertido. Havia algo reconfortante naquele excesso de cuidado, naquela rede silenciosa que se formava ao redor de Lívia. — Eu posso cuidar da minha esposa — comentou, com um meio sorriso, já arregaçando as mangas. Sem dar espaço para discussão, foi até a cozinha. Preparou uma refeição reforçada, simples, mas nutritiva. Caldo, legumes bem cozidos, pão macio. Fez tudo com atenção quase cerimonial, como se cada gesto fosse uma promessa silenciosa. Quando voltou, sentou-se ao lado dela e a ajudou a comer, paciente, atento a cada reação. Lívia o observava com aquele olhar tranquilo, seguro, que só nasce quando o medo finalmente cede lugar à confiança. Mais tarde, Saimon afastou-se por alguns minutos e fez a ligação que vinha adiando. Entregou ao pai o telefone da empresa. Daniel atendeu sem hesitar, como se já soubesse o que o filho diria antes mesmo de ouvir. — Fique com sua família — respondeu, firme. — A empresa pode esperar. O que você está construindo agora, não. Saimon desligou com o peito aquecido. Não era apenas alívio. Era orgulho. Orgulho de ser filho daquele homem. Orgulho de poder escolher sem culpa. Orgulho de saber que, pela primeira vez, não estava dividindo sua vida entre dever e sentimento. Tudo estava exatamente onde deveria estar. ... Um mês se passou, e Saimon não se afastou de Lívia nem por um segundo. Tornou-se presença constante, silenciosa quando precisava ser, atenta em todos os momentos. Cuidava dela como se o mundo inteiro coubesse naquele corpo frágil que, aos poucos, voltava a ganhar cor, força e vida. Entre remédios, refeições bem pensadas e longos períodos de descanso, havia também carícias lentas, beijos suaves e um sentimento que crescia sem pressa, mas com intensidade avassaladora. Na consulta daquela semana, o médico sorriu satisfeito. — A anemia está controlada. Continue com os cuidados, mas o pior já passou. Lívia saiu do consultório sentindo algo diferente no peito. Leveza. Segurança. E, acima de tudo, certeza. Naquela tarde, sentaram-se juntos no sofá da varanda, de frente para o mar calmo que refletia o céu claro. A brisa suave balançava as cortinas, trazendo consigo o cheiro salgado da ilha. Lívia acariciou a mão de Saimon, entrelaçando os dedos aos dele com naturalidade. — Querido? A palavra o atravessou inteiro. Querido. Não como hábito. Como escolha. Saimon virou-se para ela, atento de imediato. — Algo está te incomodando? — perguntou, observando cada nuance do rosto dela. Lívia sustentou o olhar, os lábios se curvando em um sorriso sereno. — Não é exatamente um incômodo — admitiu. — É uma decisão. O coração dele acelerou, mesmo que o rosto permanecesse calmo. — Minha demissão foi aceita — continuou. — Já conversei com meus pais… e com seus pais também. Ele franziu o cenho, confuso, como se o cérebro precisasse de mais alguns segundos para acompanhar o que o coração já começava a entender. — Lívia. — murmurou. — O que você está dizendo? Ela apertou levemente a mão dele, como quem ancora uma verdade. — Estou livre para ir com você para Atenas. Saimon a encarou, incrédulo. — Você está falando sério? — Estou. — A voz saiu firme, sem hesitação. — Estou pronta para ir com você para Atenas. Para construir nossa vida lá. Juntos. O silêncio que se seguiu não foi de dúvida. Foi de impacto. Saimon levou a mão livre ao rosto dela, tocando-a como se precisasse confirmar que aquele momento era real. Os olhos dele se umedeceram, e o sorriso que surgiu foi lento, carregado de emoção contida. — Eu nunca quis te forçar — confessou baixo. — Só queria que viesse porque escolheu não porque eu pedi. — E é exatamente por isso que estou indo — ela respondeu, encostando a testa na dele. — Porque eu escolhi você. Ele a puxou para mais perto, envolvendo-a com cuidado, como se ali estivesse tudo o que importava. A ilha ficaria para trás. Mas o que estavam construindo, finalmente, seguiria inteiro. ...
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