— Quando nosso filho ou filha tiver idade para assumir os negócios, voltamos para Célia. — Saimon disse, a voz baixa, carregada de convicção. — Eu prometo.
Lívia sorriu, um daqueles sorrisos que nascem do peito e aquecem tudo ao redor. Não havia dúvida nos olhos dele. Apenas futuro.
— Antes de tudo. — ele continuou, como quem revela algo pensado com cuidado — eu já consegui uma entrevista pra você na Universidade de Atenas. Quando formos se desejar, poderá ir falar com eles.
Ela o encarou surpresa, o coração acelerando.
— Você já pensou nisso tudo?
— Pensei em você. — corrigiu com suavidade. — No que te faz ser quem é.
Lívia riu baixo, emocionada, e balançou a cabeça.
— Então é por isso que meu pai parecia tão calmo esses dias. — murmurou. — Quando você decidiu que iria comigo para Atenas?
Lívia respirou fundo antes de responder. O olhar se perdeu por um instante, como se revisitasse aquele momento exato.
— No hospital — disse enfim. — Quando você disse que nada era mais importante do que cuidar de mim.
Ele pousou a mão novamente sobre o ventre dela, gesto que já se tornara natural, necessário.
— Ali eu entendi — continuou, ela. — Que eu podia perder qualquer coisa, menos você.
Lívia sentiu os olhos arderem. Encostou o rosto no peito dele, ouvindo o coração firme, presente. Ali, entre promessas simples e decisões definitivas, o amor deixou de ser medo.
Virou escolha.
Virou lar.
...
Lívia caminhava sem pressa pelas ruas de pedra da ilha, sentindo o sol suave da tarde aquecer-lhe a pele. Entrou em pequenas lojas, escolheu tecidos leves, vestidos mais soltos, observando com um misto de surpresa e ternura o reflexo do próprio corpo nas vitrines. A cintura já não era a mesma — havia ali um início discreto de curva, um segredo crescendo silencioso dentro dela.
Sorriu sozinha.
Não de vaidade, mas de aceitação.
Ao sair de uma das lojas, ajeitando a sacola no braço, ouviu o próprio nome ser chamado.
— Lívia.
O tom era conhecido demais para ser ignorado.
Ela parou.
Lucas estava alguns passos atrás, as mãos nos bolsos, o semblante tenso como alguém que ensaiara aquela abordagem inúmeras vezes e ainda assim não sabia por onde começar.
— Eu, — ele pigarreou, aproximando-se. — Posso falar com você um instante?
Lívia sentiu o corpo enrijecer levemente. Não por medo. Mas por cansaço. Ainda assim, assentiu.
— Pode.
Caminharam até a sombra de uma figueira próxima. O silêncio entre eles era pesado, carregado de tudo que nunca fora dito — ou dito tarde demais.
Lucas respirou fundo.
— Desde a noite de Afrodite, tem algo me corroendo. — confessou, finalmente olhando nos olhos dela. — Eu tentei ignorar. Fingir que passou. Mas não passou.
Lívia cruzou os braços, não como defesa, mas como quem se prepara para ouvir algo difícil.
— Então diga, Lucas.
Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto.
— Quando te vi ali, escolhida pela deusa, enquanto o sacerdote abençoava você e seu marido. — engoliu em seco. — Eu senti como se tivesse perdido algo que nunca tive coragem de assumir.
Ela franziu levemente a testa.
— Você disse que esteve comigo apenas porque eu lembrava minha irmã — lembrou, a voz calma, mas firme. — Foram suas palavras.
— Eu sei. — respondeu rápido. — E me arrependo delas todos os dias. Não era mentira, mas também não era toda a verdade.
Lívia manteve o olhar fixo nele, sem ceder um centímetro.
— E qual é a verdade agora?
Lucas respirou fundo, como quem se lança de um precipício.
— Que eu errei. Que te machuquei. E que só percebi o tamanho disso quando te perdi.
O silêncio caiu entre eles. Ao longe, ouviam-se vozes da vila, o som do mar quebrando nas pedras.
Lívia levou a mão instintivamente ao ventre, gesto pequeno, mas definitivo.
— Lucas — disse, com suavidade e clareza — isso que você sente chegou tarde.
Ele seguiu o movimento da mão dela, e algo se quebrou em seu olhar.
— Eu sei — murmurou. — Eu vi você diferente. Mais plena.
— Estou — confirmou. — E não é algo que eu esteja disposta a colocar em risco. Nem por dúvidas, nem por arrependimentos.
Lucas assentiu devagar, como quem recebe uma sentença que já esperava.
— Eu precisava dizer. — concluiu. — Mesmo sabendo que não mudaria nada. Queria pedir perdão. Sei que não mereço, mas, queria pedir mesmo assim.
Lívia deu um pequeno sorriso triste, mas honesto.
— Às vezes, dizer não é para mudar o fim. — respondeu. — É só para aceitar que ele chegou. Eu perdôo você Lucas. Seja muito feliz.
Ela se afastou, retomando o caminho pela ilha, sentindo o peso do passado finalmente ficar para trás.
E, pela primeira vez desde a noite de Afrodite, Lucas ficou ali, parado, entendendo que a deusa havia escolhido certo. Certo para Lívia.
Saimon havia parado o carro a uma curta distância da praça quando a viu. Lívia estava de frente para Lucas, o corpo sereno, os gestos contidos. Ele reconheceu de imediato a cena — não pelo que parecia, mas pelo que não parecia. Não havia tensão, nem proximidade excessiva, nem aquele fio invisível que denuncia algo m*l resolvido.
Ainda assim, o impulso veio.
Saimon segurou o volante com mais força, o instinto gritando para descer, intervir, marcar território. Mas não o fez. Respirou fundo.
Confie, disse a si mesmo.
Confie nela. Confie no que construíram.
Deu a volta no quarteirão e estacionou poucos metros adiante. Quando Lívia surgiu com as sacolas nas mãos, o rosto tranquilo, ele soube que fizera a escolha certa.
Ela abriu a porta do carro e entrou sorrindo, inclinando-se para deixar um beijo macio em seus lábios — simples, íntimo, verdadeiro.
— Eu vi e conversei com o Lucas — disse, enquanto ajeitava o cinto.
Saimon não respondeu de imediato. Apenas a olhou, atento, oferecendo o silêncio como espaço para que ela continuasse.
— Ele disse que se arrependeu do que falou naquele dia — completou. — E eu o perdoei.
O coração dele bateu uma fração mais lento.
— Perdoou? — perguntou, sem dureza. Apenas querendo entender.
— Sim — Lívia confirmou, apoiando a mão sobre a dele. — Não quero carregar nenhum peso comigo. Minha irmã está com ele. Que sejam felizes.
Ela respirou fundo, como se aquele ato tivesse encerrado algo antigo dentro de si.
— Lucas precisava disso — acrescentou. — Mais do que eu precisava.
Foi ali que Saimon compreendeu. Não havia sobrado dor, nem saudade, nem resquício. O perdão não vinha do amor que foi, mas da paz que agora existia.
Ele levou a mão dela aos lábios e a beijou com ternura.
— Então está tudo encerrado — murmurou.
— Está — respondeu Lívia, sorrindo.
Saimon ligou o carro, sentindo algo raro e precioso se acomodar em seu peito:
certeza.
Certeza de que aquela mulher ao seu lado escolhera ficar — não por destino, não por obrigação, mas por vontade.
...