De fato, o problema era irremediável!
Mahara não conseguiu se despedir dos amigos, sequer conseguiu resolver as burocracias da faculdade. A única coisa que conseguiu fazer foi avisar as suas duas melhores amigas, Annie, uma garota do Canadá que também estava ali para cursar medicina veterinária, e Brenda, estudante de teatro que, nas horas vagas, fazia shows num barzinho que as outras duas gostavam de frequentar.
— Como assim você vai embora? — Brenda foi a primeira a falar, assim que Mahara atendeu a chamada de vídeo.
O rosto redondo e simpático dela encheu a tela ao passo que a morena via os olhos já chorosos com a notícia. Brenda era uma moça pequena e com ares infantis, parecia ser muito mais nova do que era e aquilo lhe rendia muitas situações constrangedoras. Sua voz era levemente esganiçada e fina, principalmente em situações como aquelas, em que ela se via nervosa e irritada.
— Seu pai não pode decidir isso por você assim! — Annie falou entrando na chamada pouco depois, com os cabelos loiros presos num coque bagunçado.
Diferente de Brenda, Annie tinha um rosto e corpo de uma mulher mais velha do que realmente era, suas curvas eram extremamente chamativas e seus olhos tão azuis quanto o céu, eram seu charme maior. Tinha personalidade forte e aquilo ficava expresso em seu rosto, que não ocultava nenhuma de suas reações.
— Não tenho muito o que fazer, meninas — Mahara tentou explicar. — As coisas são diferentes na minha família, vocês sabem.
As duas meninas suspiraram, não conheciam tanto sobre a cultura de Mahara, mas sabiam que existiam muitas diferenças e mesmo que aquilo parecesse um absurdo para elas, uma ordem tão direta do pai da jovem não poderia ser ignorada, afinal, apesar de ter passado longos quatro anos longe, ela amava sua família.
Além de que, se seu pai simplesmente parasse de pagar a faculdade que ela fazia, não teria maiores opções, de um jeito ou de outro, estava fadada a obedecer. Naquele momento, ela amaldiçoava-se por ter se acomodado e não ter seguido seu plano original, que era encontrar um emprego e se tornar completamente independente de seus pais para poder, enfim, viver a vida como queria sem dever nada a ninguém.
— Mas qual é a dele? Por que ele simplesmente resolveu te levar de volta? — Annie perguntou, se sentando na sua própria cama enquanto tentava equilibrar o celular entre os joelhos.
— Não faço ideia, ele não me disse — respondeu a amiga, puxando as roupas de dentro do armário e jogando tudo sobre a cama com uma só mão, indo arrumar as malas. — Espero que não seja permanente.
Mahara escolhia bem o que levar, optando por deixar suas roupas não tradicionais ali, guardando com carinho seus saris e separando um deles para a viagem, precisava estar apresentável para amenizar a ira do pai. A maioria das roupas tradicionais estavam guardadas há muito tempo e ela com toda certeza precisaria de novos, mas não duvidava que peças novas e muito mais bonitas que aquelas já estariam à sua espera, tinha certeza que sua mãe já havia preparado tudo.
— Mas, com certeza, não foi um motivo qualquer… Meu pai é metódico, ele não gosta de coisas feitas às pressas — enquanto falava, Mahara enfiada suas roupas e pertences importantes nas grandes malas, estava com pressa. — Mas, de um jeito ou de outro, vocês vão ficar sabendo de tudo.
— Não fique sem dar notícias, vamos ficar preocupadas — Brenda falou suspirando, ainda triste pela amiga.
— Brenda tem razão — Annie reforçou, juntando os lábios num bico. — Não vou conseguir nem te dar um abraço de despedida.
— Não sejam dramáticas, eu vou voltar!
A frase de despedida foi acompanhada por desejos de boa sorte e muitos estalos de beijinhos enviados a longa distância e, quando as garotas desligaram, ela se sentiu, mais uma vez perdida. Mas não tinha tempo sequer para se sentir confusa. Ignorou as demais mensagens, fazendo um lembrete mental para responder Thommas depois, dando um fim aos encontros casuais que tinham, afinal, a chance de vê-lo novamente seria mínima.
Depois que havia se mudado para NY, deu uma chance à sua vida em todos os aspectos e, que seus pais jamais soubessem, inclusive para o s****l. Nem todas as experiências foram boas, na verdade, muito poucas foram de fato, mas Thommas se mostrou um homem de tirar o fôlego, Mahara só não sabia se ele era de fato bom de cama ou se ela que tinha padrões baixíssimos.
Mas teria que dar um fim àquela conversa antes de chegar em sua casa, afinal, se seu pai resolvesse invadir seu celular ou tirá-lo dela, estaria ainda mais ferrada se Radesh descobrisse que não era mais virgem, como mandava a tradição.
Não queria ser dramática, longe de sua intenção passar como coitada ou algo parecido, mas Mahara se lembrava bem de como fora difícil convencer seu pai a deixá-la ir, sair de sua cidade e de seu país foram feitos quase impossíveis e, agora que estava prestes a retornar, ela tinha plena consciência de que a chance de conseguir se afastar do seu pai sem pôr uma aliança no dedo era mínima.
E se havia algo que ela não pretendia fazer era se casar.
Por vários motivos não desejava um matrimônio, achava que seria oprimida, cativa de um homem que não se importaria com seus sonhos e desejos, fora que, se descobrissem que ela não era mais virgem, dificilmente encontraria um pretendente decente e, provavelmente, jogaria o nome de sua família ao vento.
Se de fato fosse aquele o propósito de seu pai, aquela seria uma situação muito mais difícil de sair do que qualquer outra.
Quando finalmente suas malas estavam prontas, correu para o banheiro e, no caminho, ouviu o miado do gato que havia adotado naquele meio tempo, por um momento, havia até se esquecido de Dalih em meio a confusão. O gatinho encarou a dona, completamente confuso , e miou com desgosto quando foi capturado pelas mãos desajeitadas e posto na caixinha de transporte.
Havia dado a ele o nome de sua terra natal, pois o adotou pouco depois de chegar a NY e ainda se via meio saudosa de suas origens. O começo foi difícil, era estranho estar entre pessoas que tinham uma cultura tão diferente da sua e seu gato foi seu escape, ele era sua única companhia no começo, amava o bichano com todas as forças que tinha.
Depois disso, ela finalmente conseguiu tomar o banho que tanto queria para acalmar seus próprios nervos. Arrancou suas roupas e, quando entrou no chuveiro, sentiu a água quente escorrer pelo seu corpo e arrepiar sua pele. Estava tão tensa que demorou para sentir o corpo relaxar de fato, mas sua mente continuava trabalhando.
Enquanto o cheiro doce do sabonete que usava enchia o banheiro, junto ao vapor da água quente, Mahara tentava pensar em possíveis motivos para seu pai decidir, de uma hora para outra, levá-la de volta, mas nada lhe vinha à mente, nada além de uma proposta de casamento.
Saiu do banheiro praticamente correndo e, voltando ao seu quarto, olhou para o sari que usaria, sempre belíssimo e luxuoso como todos os que tinha. Era de um tom esverdeado que contrastava com sua pele com belos bordados dourados que pareciam jóias ou fios de ouro. Ela amava se vestir assim, mas sabia que os americanos eram um tanto quanto desconfiados para com os estrangeiros, então, fazia um bom tempo que não usava suas roupas mais tradicionais. Além disso, apreciava também a forma simples dos americanos de se vestir, afinal, se usasse suas roupas tradicionais chamaria muita atenção e preferia passar despercebida.
Mas isso não significa que não sabia como colocá-las com rapidez. Os tecidos abraçaram seu corpo com perfeição, afinal, todas as suas roupas eram feitas sob medida. Enfeitou-se com suas joias e pintou os olhos de forma bem marcante, passando um batom que tinha o tom bem similar ao de sua boca. Seus cabelos ficaram presos numa trança bonita e longa, sem enfeites como costumava usar em casa, sua roupa já chamaria atenção por si só no aeroporto e Mahara nunca gostou de muitos olhares.
Enquanto se olhava no espelho, encontrou um reflexo que não via há muito tempo. Olhos amendoados grandes marcados pelo preto da maquiagem passada na linha d'água, lábios carnudos e muito bem desenhados, sari perfeitamente alinhado e cabelos que chegavam abaixo dos seus quadris, quase não havia mudado nada naqueles quatro anos, exceto pela pequena tatuagem abaixo do seio direito, mas era um detalhe escondido que ninguém nunca veria, já que os tecidos cobriam o local da tatuagem, que fora perfeitamente calculado para quando esse momento chegasse.
— Vamos, Mah, não vai ser nada demais — sussurrou para si mesma, olhando-se mais uma vez no espelho enquanto suspirava.
Então, antes que desistisse e se escondesse em qualquer lugar onde seu pai não conseguisse achá-la, Mahara pediu o táxi e, desajeitada, saiu arrastando as duas palas e segurando a caixinha de transporte do gato numa das mãos.
Trancou a porta e seguiu pelo corredor em direção ao elevador que não demorou a deixá-la no térreo do prédio. Seguiu para fora e, na calçada, deu uma última olhada na avenida movimentada, sentindo o peito apertar ao se lembrar da pequena vida que havia construído naqueles quatro anos.
“Não é uma despedida”, prometeu a si mesma, fugindo baixinho e se virando, encontrando o táxi esperando-a no acostamento.
Entrou e se acomodou no banco sem sequer olhar para os lados, precisava manter a seriedade e, se olhasse para trás não iria conseguir segurar as lágrimas. Enquanto o carro avançava pela cidade, que fervilhava em movimento mesmo sendo domingo, ela ia se despedindo de cada ponto que via passar e se distanciar, provando que estava, de fato, deixando para trás aqueles anos em que fora verdadeiramente livre, em que viveu exatamente como queria.
Estava deixando tudo aquilo sem saber o que a esperava em casa.
Apesar de tudo, quando finalmente chegou ao aeroporto e sem muita demora embarcou na primeira classe, ela lembrou-se dos seus irmãs e sentiu o peito se aquecer com a ideia de encontrá-los e de ver novamente, seu Pita e sua Mamadi.
Só esperava que o reencontro fosse realmente prazeroso e que não houvessem surpresas.
— Baldi… o que o senhor está aprontando? — ela se perguntou, enquanto se acomodava na poltrona com seu gato ao lado.
O avião não demorou a levantar voo, deixando NY para trás, distanciando-se da selva de pedra cada vez mais até que não houvesse nada além de água no horizonte. Nesse momento, já bem longe do lugar onde pretendia viver pelo resto da vida, Mahara se permitiu derramar solitárias e rápidas lágrimas, fungando baixinho e enxugando os olhos com o tecido do Sari.
“Lord Ganesha… me proteja da irá do meu Baldi e do que ele estiver armando, sei que ele não faria todo esse esforço para nada”, pensou ela enquanto tentava descansar, fechando os olhos. “ Sei que não sou a mais perfeita das devotas, mas sempre fiz minhas orações… não me abandone com esse problema para resolver sozinha…”