a dor da perda

1512 Palavras
Cerca de três horas depois, Otávio pousou em um heliporto, já havia um carro lhe esperando, com o coração na mão, Otávio seguiu em direção ao hospital a qual Barbara havia dito a ele que Mariana estava internada, enquanto o carro passava pela cidade que havia vivido dezoito anos sofridos de sua vida, ele olhava tudo, estava diferente, reconheceu apenas uma coisa ou outra, afinal fazia quatorze anos que não colocava os pés naquela cidade. Ao chegar ao hospital, Otávio foi até a sala de espera, assim que passou pela mesma, viu uma jovem loira de rosto delicado e olhos azuis, abatida com lágrimas caindo pelo rosto, ele parou, era ela, ele a conhecia pelas incontáveis fotos que Mariana a enviava dela. – Barbara… – ele disse, então ela o olhou e suspirou de alívio. – que bom que veio. – ela disse com a voz trêmula, perto de sua mãe, mantinha a compostura, mas longe dela, desabava. – como ela está? – ele perguntou aflito. – está bem debilitada, os médicos pediram que eu saísse um instante, estão examinando. Cerca de vinte minutos se passaram, então dois médicos caminharam em direção a Barbara, ela levantou-se, logo Otávio deduziu que, eram aqueles que estavam examinando Mariana. – como está minha mãe? – senhorita Barbara, como já sabe o caso é complicado…– disse ele de forma delicada, calculada para não causar desespero. – complicada como? – Otávio perguntou. – o senhor é? – Otávio, irmão da paciente. – bem, não vamos mentir pra vocês, não vemos possibilidade de recuperação, ela tem pouco tempo. – pouco quanto? – Bárbara perguntou aflita. – umas horas talvez, alguns dias no máximo. – Bárbara levou as mãos até o rosto tentando conter as lágrimas mas era difícil. – não são nossas regras, mas abrimos exceções para alguns casos com esses, podem ficar os dois ao lado dela. – disse o médico de forma humana, Bárbara olhou para Otávio, ele assentiu com a cabeça, e a acompanhou em direção ao quarto de Mariana, assim que passaram pela porta, ela suspirou de alívio vendo seu irmão e lágrimas caíram pelo rosto dele. – que bom que veio. – ela sussurrou. – não poderia deixar de vir, você sabe que te amo, por que não me contou antes, eu teria largado tudo pra cuidar de você, teria te dado o melhor tratamento. – eu sei que sim meu irmão, mas eu não queria te preocupar, você viu que moça linda é minha filha. – ela disse mudando de assunto, ele apenas assentiu com a cabeça. – ela é tão inteligente, meu tesouro, meu orgulho, minha baby. – ela disse em um sussurro, Bárbara se aproximou, olhou sua mãe com carinho e disse. – mãe, a senhora exagera. – Mariana sorriu e a olhou com orgulho, amava aquela menina mais tudo. – não filha, você é perfeita, eu te amo, te amo mais que tudo meu amor. – disse Mariana, Baby se aproximou um pouco mais, então a abraçou, em seguida depositou um beijo na testa da mãe. – eu te amo mãe, pra sempre. – Mariana soltou um suspiro cansado, sentia uma dor tão intensa, só não gritava por falta de forças, sabia que o fim estava próximo, sentia a morte a rondando então ela olhou nos olhos da filha e disse. – baby, me dê uns minutos a sós com Otávio. – Barbara assentiu, então saiu os deixando a sós. – Otávio, ela vai sofrer, vai sofrer muito, a mãe de sangue a abandonou, ela já perdeu o pai, agora a mim… – não falei assim Mariana, você vai ficar aqui com a gente, vai se recuperar, eu tenho fé. – disse ele com lágrimas já caindo por seu rosto. – eu não vou, os médicos já me desenganaram, por favor Otávio, cuide dela, eu imploro. – Mariana… – só me deixe falar Otávio, por favor. – Tudo bem. – ela é alérgica a frutos do mar, amendoim, e ela detesta peixe, diz que sente enjoo apenas de sentir o cheiro. – disse ela e Otávio sorriu. – ela ama doces, chocolates e a cor rosa, ela ama também cadernos fofos, ursinhos de pelúcia, ela ama escutar músicas, canta sem parar no quarto, e a amiga dela, a Priscila, é bem maluquinha, mas é uma boa garota. – Mariana, não se esforce. – eu preciso que saiba de tudo. – disse ela, então ele assentiu com a cabeça e a deixou continuar. – ela fica dramática e ainda mais sensível quando está de TPM, ela delira quando tem febre alta, e aquele namorado dela, não sei, não me passa muita confiança, Otávio, minha menina vai sofrer, ela vai sentir minha falta, e agora ela só tem a você, eu peço, imploro, pelo nosso amor de irmãos, por tudo que é há de mais sagrado nesse mundo, não a deixe…não a deixe…sozinha nunca. – disse Mariana, sendo interrompida pela falta de ar. – eu prometo Mariana. – eu te amo meu irmão. – disse ela e aquelas foram as últimas palavras que ela teve forças para dizer, logo um suspiro pesado mesclado a um gemido escapou de sua boca, seus olhos que ainda escorriam lágrimas ficaram estáticos, Otávio a olhava sem saber o que fazer, mas logo um barulho agudo vindo de uma máquina o despertou. – Mariana, Mariana, não faz isso comigo, não deixa a gente, aquela garota precisa de você, Mariana, Mariana. – ele gritou, mas não teve resposta, ouvindo os gritos, uma enfermeira entrou correndo, vendo a situação ela correu até a sala de um dos médicos, que rapidamente veio, eles tentaram reanimar ela, mas sem sucesso. No corredor, Otávio aguardava por uma boa notícia, clamando a Deus que, os médicos tivessem conseguido reanimar, mas então um deles saiu, o olhou com certa pena, então as palavras vieram. – eu sinto muito. – aquilo devastou Otávio, por uns instantes, ele ficou apenas paralisado, com lágrimas caindo pelo rosto, mas logo tornou a falar. – vamos preparar os papéis do óbito para que possam dar entrada nos trâmites do velório. – Otávio assentiu, então lembrou-se de Bárbara, ele tinha que contar. Otávio saiu em busca de Baby, em um corredor não muito distante, ela estava sentada em uma cadeira, apenas encarando o nada, quando viu ele, seu rosto coberto de lágrimas, a dor estampada em sua expressão, ela levantou-se, em passos lentos ele se aproximou, mas não precisou dizer nada, era óbvio, ela entendeu, sentiu a dor exalando dele. – não, não…minha mãe não. – disse ela enquanto caia de joelhos no chão, completamente sem forças, as palavras eram tão dolorosas, que doeram ainda mais no peito de Otávio, então ele ajoelhou diante dela, e a segurou em seus braços, enquanto ela desabava em um choro de desespero. – eu sinto muito. – ele sussurrou enquanto ela se encolhia em seus braços, sentindo a dor lhe dilacerar por dentro. – isso não é justo, não é justo. – ela disse entre soluços, ele também não achava, mas haviam poucas coisas em sua vida que achava justas, mas não tinha uma resolução para isso. – eu também não acho, mas Deus sabe de todas as coisas. – disse ele, ela não disse mais nada, apenas se desmanchou em lágrimas nos braços dele, que ficou ali, com ela em seu aconchego por em torno de trinta minutos, enquanto pessoas passavam por perto, olhavam a cena com pena. Aos poucos Bárbara se acalmou, então se soltou dos braços dele e com a dor estampada em seu rosto o olhou diretamente por uns instantes apenas se encaram, reconhecendo a dor um no outro, então ela disse. – eu preciso cuidar dos trâmites do velório. – Otávio segurou as duas mãos dela, ela estava tentando ser forte, mas ele entendia bem aquela dor. – nós precisamos, você não está sozinha Bárbara. – ela suspirou, algumas lágrimas mais caíram por seu rosto e internamente ela agradeceu por ele estar ali. – obrigada. O restante da noite se Deus em trâmites demorados e dolorosos, primeiro no hospital, para a liberação do corpo, depois com a funerária, quando acertaram tudo, o silêncio imperou dentro da sala daquela funerária, eles não sabiam o que se dizer, m*l se conheciam. – bem, como o velório só começa amanhã às sete, eu vou pra casa…é, você vem comigo? – ela perguntou. – bom, é, pode ser. – disse ele, havia certa distância entre eles, Bárbara assentiu, então acompanhou Otávio para fora da funerária, onde o carro que ele havia alugado os aguardava, ambos entraram no carro, e então Barbara suspirou, era um alívio estranho, o qual ela tratou logo de externalizar. – obrigada. – pelo que? – ele perguntou de forma simples. – por ter pago pelo velório da minha mãe, não sei de onde tiraria dinheiro, gastamos tudo com o tratamento dela. – era esse o alívio dela, o fato de sua mãe ter um velório digno. – não fiz mais que minha obrigação, ela é minha irmã. – disse ele, então o silêncio se estabeleceu novamente.
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