Ao chegarem na casa de Bárbara, ela entrou e sentiu o cheiro de sua mãe, ela soltou um longo suspiro e encolheu os ombros, ela virou-se e o viu olhando tudo ao redor.
– tem um quarto vago, você quer descansar um pouco? – ela perguntou.
– claro. – ela o levou até o quarto, ele a acompanhava puxando uma pequena mala, então ela parou em frente a uma porta e abriu. – como se sente? – ele perguntou de forma preocupada, ela parecia apática.
– bem, na medida do possível. – então ele apenas assentiu. – fica a vontade, eu vou para o meu quarto, tomar um banho e descansar um pouco.
Na manhã do dia seguinte, Otávio acordou sentindo a cabeça doer, ele sentou-se lentamente e pegou seu celular, vendo que, era quase seis da manhã, havia chegado ali por volta de uma da madrugada, tinha dormido pouco, estava cansado, mas precisava levantar, então o fez, o quarto era simples, não tinha banheiro, mas ele havia visto um no corredor, então foi, tudo ali era bem organizado, no armário ele encontrou toalhas limpas, então tomou um banho quente, em seguida retornou ao quarto, onde se vestiu adequadamente para o velório.
Otávio saiu do quarto, pelo corredor ainda, sentiu o cheiro de café, então procurou a cozinha, onde encontrou Bárbara, preparando a mesa, ela usava um vestido preto, seu rosto estava vermelho e o aparente cansaço declarava que havia passado a madrugada em claro.
– bom dia. – disse ele em um tom cuidadoso, não queria assustá-la, ela levantou a cabeça um pouco e o respondeu.
– bom dia, preparei café da manhã. – ele assentiu, então perguntou.
– você tem um carregador pra me emprestar? Na pressa acabei esquecendo o meu.
– tenho sim, depois pego… – disse ela, mas parou ao ver o celular dele e disse. – não, não tenho.
– mas você acabou de dizer que tinha.
– tenho, mas esse é um iPhone, do ano, desse eu não tenho. – disse ela sem graça, sua mãe sempre fez de tudo por ela, mas tinham uma vida simples juntas.
– entendo, não se preocupe, depois compro um.
Após o café da manhã, eles se aprontaram para o velório, e juntos mais uma vez saíram, agora em direção a casa de velório onde o corpo de Mariana seria velado, ao chegarem lá, ainda estavam terminando de aprontar, o que concluíram em uns minutos, então Baby e Otávio se aproximaram do caixão, e o choque mais uma vez atingiu Bárbara, sua mãe, sem vida em um caixão, a imagem que jamais desejou ver.
Aos poucos, amigos e conhecidos foram chegando, Bárbara recebeu os pêsames de alguns, também abraços de consolo que só a faziam chorar mais, mas algo estava lhe deixando ainda mais abalada, alguém muito importante não estava ali naquele momento, Guilherme, seu namorado, pela madrugada, ela o ligou algumas vezes, mas ele não atendeu, ela contou o ocorrido por mensagem, mas até aquele momento, não havia tido resposta.
– meus pêsames amiga. – disse Priscila, sua melhor amiga, logo lhe dando um abraço reconfortante.
– como vai ser agora?
– você tem a mim, estarei sempre a seu lado.
– obrigada.
– e o Guilherme? – Priscila perguntou.
– Há dois dias ele tinha ido viajar pra casa do pai, mandei mensagem pra ele pela madrugada, mas ele não respondeu.
– talvez já estivesse dormindo, logo ele te responde.
– queria que ele estivesse aqui.
– eu sei amiga, mas a cidade que o pai dele mora é aqui do lado, uns quarenta minutos apenas, ele vai vir. – Barbara suspirou e encostou o rosto no ombro da amiga. – amiga, quem é aquele homem perto do caixão da sua mãe? – Priscila perguntou enquanto o via tão atento ali.
– Otávio, irmão da minha mãe, ele não saiu do lado dela desde que chegou, eu vou ficar um pouco com ele. – Priscila assentiu, e Bárbara foi, se aproximou lentamente de Otávio e colocou a mão sobre o ombro dele de forma delicada, então ele a olhou. – está tudo bem? – ela perguntou.
– não sei, nunca achei que veria minha irmã assim.
– eu também não, só Deus sabe o quanto vou sentir…– disse Bárbara, mas então parou ao ver um rosto familiar e indesejado se aproximar. – o que você está fazendo aqui? – Bárbara perguntou, Otávio olhou adiante, então encontrou Morgana, a mulher que o criou com tanto desprezo, seu corpo estremeceu, ela parecia mais velha, mas seguia parecendo imponente e dona da razão como sempre tentou ser.
– vim ver minha filha. – ela respondeu, Morgana havia visto Otávio ali, o reconheceu, mas não lhe dirigiu nenhuma palavra, Bárbara seguia com a mão no ombro de Otávio e sentiu o corpo dele tremer como não estava tremendo antes, ele parecia nervoso, até mesmo assustado.
– você não tem nada que fazer aqui. – Morgana baixou os óculos escuros que tinha em seu rosto e a olhou com desdém.
– tenho mais que você, bastarda, ela era minha filha, de sangue. – disse ela em um tom baixo, mas alto o suficiente para Bárbara e Otávio escutarem, mas Bárbara não era o tipo que se calava.
– tem mesmo? A meses atrás minha mãe pediu que você fosse vê-la, queria fazer as pazes, mas você nunca apareceu, você nunca aceitou o fato dela ter se casado por amor e construído uma família com um homem que não foi você que escolheu para ela.
– casados? Amancebados quis dizer, seu pai nunca nem pediu ela em casamento.
– porque pra eles era mais importante um relacionamento com amor do que uma cerimônia cheia de hipocrisia familiar, quem te mandou vir aqui em? Seu pastor? As irmãs da igreja? Porque tenho certeza que se não fosse afetar sua reputação, você não teria vindo, vai embora daqui, velha mesquinha. – disse Bárbara, Morgana respirou fundo, e só então direcionou a voz a Otávio.
– Otávio, mande essa garota estúpida sair daqui. – disse ela, os lábios de Otávio se abriram, mas ele não conseguiu falar, tudo que lhe veio à mente foi, as vezes que foi ele o xingado de e******o e tantas outras coisas que ele jamais conseguiu esquecer, e ela fez questão de o lembrar. – nem pra isso, você sempre foi inútil mesmo, um peso que carreguei dezoito anos.
– sua velha desgraçada, não ouse falar com ele assim, não dirija mais essas palavras podres que saem da sua boca a ele, saia daqui, saia, ou vou lhe tirar arrastada pelos cabelos enquanto grito o que você fez no passado, quer que as irmãs da igreja descubram que você deixou sua própria filha morrer por conta dessa sua reputação i****a? Que mentiu sobre Otávio ser seu filho?– Bárbara disse entre dentes e em anos Morgana se retraiu.
– se cale…
– se você sair daqui eu me calo, mas se permanecer mais um minuto irei dizer aos berros a todos cada uma das atrocidades que você cometeu.
– não é atoa que sua mãe de sangue te abandonou quando você nasceu, filhote de cobra. – disse Morgana, Bárbara foi concebida por um jovem casal que na época tinha apenas dezesseis anos, sua mãe, querendo aproveitar a vida, sugeriu abortar, mas seu falecido pai, Caio, na época não permitiu e disse que se ela levasse a gravidez até o fim, ficaria com a criança e assim foi feito, quando estava com quatro anos, Bárbara conheceu Mariana, trabalhando de auxiliar de professora na escola que ela estudava, o amor foi imediato, e com a proximidade das duas, Caio acabou se aproximando e conquistando o coração de Mariana, e em meses, Mariana deixou a casa de Morgana para que pudessem formar uma família juntos, Morgana não aceitou, havia feito planos para a vida da filha.
– eu vou gritar para todos. – Bárbara ameaçou, vendo que pessoas começavam a se aproximar, Morgana foi embora, então Barbara se virou para Otávio, o encontrando pálido completamente desestabilizado. – vem, você precisa de um pouco de silêncio e calma. – ela o segurou pelo braço, e o guiou até uma sala reservada, ele cambaleava um pouco, então ela o ajudou a sentar, foi até o bebedouro que tinha ali e pegou um copo com água e entregou a ele, enfim o despertando daquele transe doloroso. – toma um pouco de água, vai te fazer bem.
– obrigado. – ele respondeu, e tomou a água gelada o mais rápido possível, o que fez sua cabeça doer.
– como se sente? – ela perguntou de forma compreensiva, Otávio ficou em silêncio por uns instantes, apenas a olhando, ela podia até não levar o sangue de Mariana, mas levava sua índole e seu jeito cuidadoso.
– um pouco melhor, eu não estava preparado pra rever essa mulher. – disse ele, e ela apenas assentiu com a cabeça. – você sabe…sabe de tudo? – ele perguntou curioso.
– sim.
– eu…
– você não precisa falar sobre isso ok, apenas se acalme, estarei aqui com você – ela disse de forma compreensiva enquanto segurava a mão dele, ele assentiu e respirou fundo.