Capítulo 8 - O Convite

960 Palavras
O caminho de volta ao hotel foi feito em silêncio. Mas não era um silêncio vazio; havia nele cumplicidade, carinho e algo que Leticia ainda não conseguia descrever. O coração batia acelerado, como se a cada minuto ao lado de Enzo fosse uma corrida contra o tempo. Quando finalmente chegaram em frente ao hotel, Enzo segurou a mão dela com firmeza. Seus olhos escuros a prenderam, e com voz baixa, em italiano, disse: — Vieni con me. Um frio percorreu a espinha de Leticia. Dentro dela, uma voz sussurrava para aceitar. Ela sorriu, tímida, mas decidida: — Espere um pouco… vou pegar minhas coisas. O dia já começava a amanhecer. Leticia entrou correndo pelo hall, apertou o botão do elevador e subiu até seu quarto. Lá, abriu o armário e puxou a mala que, curiosamente, já estava organizada de certa forma, como se seu subconsciente soubesse que algo assim iria acontecer. No caminho de volta, encontrou sua tia, que descia para a academia do hotel. — Leti, onde vai com essa mala, filha? — perguntou, surpresa. Leticia respirou fundo, mas respondeu com firmeza: — Tia, vou fazer uma viagem. Enzo me convidou para uns dias na Grécia. A tia arregalou os olhos. — Filha, por Deus… você tem certeza? Leticia sorriu, com uma leveza que não sentia há muito tempo. — Tia, eu sei o que estou fazendo. Estou feliz. Quero só viver uma aventura antes de voltar para casa e ir para faculdade. A tia suspirou, balançando a cabeça. — Por Deus… bambina, vá. Mas se cuide. Leticia a abraçou rapidamente e seguiu para o hall, onde Enzo já a esperava. Ele a recebeu com um sorriso que misturava charme e sinceridade. Ao ver a mala em suas mãos, seus olhos brilharam. — Então você vem mesmo. — disse, a voz rouca, quase um sussurro. Leticia apenas assentiu. Dentro dela, sabia que estava prestes a mergulhar em algo desconhecido, intenso e perigoso. Mas, pela primeira vez, não tinha medo. Duas horas mais tarde, Leticia e Enzo estavam acomodados dentro do jatinho particular da equipe. O interior era luxuoso, com poltronas de couro macio, iluminação suave e serviço impecável. Enzo, todo cavalheiro, tratava Leticia como uma princesa: ajeitava sua manta, oferecia bebidas e conversava com ela em tom baixo, como se quisesse que cada palavra fosse apenas deles. A viagem foi longa, mais de quinze horas com duas escalas. Leticia, entre cochilos e olhares trocados, sentia que estava vivendo algo que jamais imaginara. Quando finalmente desceram em um aeroporto na Grécia, o cenário era deslumbrante. O terminal tinha arquitetura moderna, mas com toques clássicos: colunas brancas, amplos vitrais e o azul do mar ao fundo. O cheiro de maresia misturava-se ao movimento dos turistas, e o calor suave da manhã mediterrânea envolvia tudo. Uma hora depois, o carro que os buscara estacionou no pátio de uma casa magnífica à beira-mar. Era uma propriedade de alto padrão, quase sem vizinhos, cercada por oliveiras e com vista direta para o mar Egeu. A fachada era branca, com varandas largas e janelas azuis, lembrando as casas típicas das ilhas gregas. O som das ondas chegava até ali, criando uma atmosfera de paz e exclusividade. Na entrada, uma mulher alta, de quase cinquenta anos, os aguardava. Tinha postura firme e olhar penetrante, que mediu Leticia de cima a baixo antes de sorrir discretamente. — Bom dia, senhor Enzo. Tudo preparado como o senhor pediu. — disse ela em inglês com forte sotaque grego. — Ótimo, Eleni. — respondeu Enzo, chamando-a pelo nome. — Leve minha convidada ao quarto de hóspedes. Leticia hesitou, mas Enzo se aproximou e falou suavemente: — Fique à vontade, descanse. Vou verificar algumas coisas e descansar também. Eleni nos chamará para o almoço mais tarde. Antes de se afastar, ele inclinou-se e depositou um beijo suave em seus lábios, breve, mas carregado de significado. Leticia sentiu o coração disparar. Leticia foi conduzida por Eleni até o quarto de hóspedes. Ao abrir a porta, ficou sem palavras. O ambiente parecia saído de um filme: paredes brancas com detalhes em azul, grandes janelas abertas para o mar Egeu, cortinas leves que dançavam com a brisa. No centro, uma cama ampla coberta por lençóis de linho impecavelmente brancos. Sobre ela, repousava uma toalha de banho dobrada com perfeição e, ao lado, uma rosa cor-de-rosa delicada. No criado-mudo, um bilhete escrito à mão chamava sua atenção. Ela o pegou com cuidado e leu em italiano: “Benvenuta nel mio paradiso, mia piccola stella.” O coração de Leticia disparou. A mala já estava ali, aberta ao lado de um pequeno roupeiro cujas portas escancaradas mostravam suas roupas organizadas com carinho. Era como se tudo tivesse sido preparado para ela, nos mínimos detalhes. Curiosa, caminhou até o banheiro. Ao abrir a porta, ficou maravilhada: uma banheira de mármore branco já estava cheia de água quente, com espuma perfumada e pétalas de rosa boiando. O vapor suave criava uma atmosfera acolhedora, quase mágica. Encantada, Leticia deixou escapar um sorriso leve. Tirou a roupa devagar, como quem se despia não apenas das peças, mas também das tensões que carregava. Mergulhou na banheira e suspirou ao sentir o calor envolver seu corpo. Ali, sozinha, começou a brincar com as pernas, levantando-as e deixando a espuma escorrer. Ria sozinha, rosada pelo calor e pelo perfume das flores. Sentia-se leve, quase infantil, como se tivesse redescoberto a alegria simples de se permitir um momento de paz. — Que loucura… — murmurou, rindo baixinho. — Mas que delícia. Encostou a cabeça na borda da banheira, fechou os olhos e deixou-se levar pela sensação. Estava encantada com tudo: o mimo, o cuidado, o romantismo. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se verdadeiramente especial para alguem, por mais que fosse somente uma aventura.
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