Capítulo 9 – A Manhã de Liberdade

1165 Palavras
O almoço naquele dia fora perfeito, assim como o jantar. Nos dois dias seguintes, Enzo mostrou-se o anfitrião ideal: gentil, atento, sempre cuidando de cada detalhe. Os beijos e carinhos entre eles se tornavam cada vez mais intensos, mas ele se continha, repetindo que haveria uma noite especial, o momento certo para se entregarem por completo. Após uma semana naquela ilha, Enzo avisou Leticia durante o café da manhã: — Hoje preciso ir até a cidade. Tenho que acertar alguns detalhes com Romano, o chefe da minha equipe. Vou passar o dia fora. Aproveite para explorar tudo, sinta-se em casa. Ele a beijou suavemente e partiu. Leticia, com um misto de saudade e liberdade, dec4idiu aproveitar o dia. Pegou sua sacola de praia, o livro que havia comprado em sua última viagem e caminhou até a areia clara da costa. O mar Egeu estava calmo, azul profundo, refletindo o sol da manhã. Ela estendeu a toalha, sentou-se e abriu o livro. O som das ondas embalava sua leitura, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se leve. Não havia Fabricio com seus olhares insistentes, nem Giulia com sua felicidade plena. Ali, sozinha, não precisava fingir nada. Leticia mergulhou nas páginas, mas também se permitiu observar o horizonte. O vento suave bagunçava seus cabelos, e ela sorriu sem motivo. Era como se finalmente tivesse encontrado um espaço só dela, um momento de paz. Passou praticamente toda a manhã ali, alternando entre leitura e contemplação. Quando o sol começou a ficar forte, levantou-se e caminhou de volta para a casa. O calor fazia sua pele brilhar, e cada passo parecia carregado de uma nova energia. Ao entrar novamente na propriedade, sentiu que aquele dia seria inesquecível. Pela primeira vez, estava vivendo sem peso, sem cobranças, apenas sendo Leticia. Leticia entrou na cozinha apenas para pegar um copo de água. O ambiente estava silencioso, iluminado pela luz suave que entrava pelas janelas. Mas, antes que fosse vista, percebeu duas vozes. Escondeu-se discretamente atrás da porta semiaberta e ouviu a conversa. A mais jovem das empregadas, que não devia ter mais que a idade de Leticia, falava com certo tom de curiosidade e até de crítica: — Ela não é como as outras, Eleni. É simples, nada glamorosa. Nunca vi o estoque de champanhe durar tanto tempo… já faz uma semana e ninguém tocou nele. Eleni, com sua postura firme, respondeu em tom repreensivo: — Basta, menina. Não fale assim. Essa é diferente. O senhor Enzo a colocou no quarto principal da casa. Ele mesmo ficou no quarto de hóspedes, onde sempre recebia suas companhias. Isso já diz tudo. A jovem arregalou os olhos, surpresa. — No quarto principal? Mas… nunca ninguém ficou lá. Eleni cruzou os braços, como quem encerrava o assunto. — Justamente. Ele nunca fez isso por ninguém. Então, guarde seus comentários. Leticia, ouvindo tudo, sentiu um misto de emoções. Uma ponta de raiva por ser julgada como “simples”, mas também uma alegria inesperada ao perceber que Enzo realmente a tratava de forma diferente. Não sabia explicar, mas aquelas palavras mexeram com ela. Leticia, parada à porta da cozinha, foi surpreendida por Eleni que, ao vê-la, imediatamente se recompôs. — Me desculpe, senhorita… precisa de algo? — perguntou, com voz calma. — Apenas água. — respondeu Leticia, olhando discretamente para a jovem empregada, que agora demonstrava desconforto evidente, as bochechas coradas pela vergonha de ter sido pega falando dela. Pegou o copo e saiu sem comentar nada, mas a cena ficou gravada em sua mente. Mais tarde, já no quarto, ouviu uma batida suave na porta. Ao abrir, encontrou Eleni com uma bandeja: sorvete e frutas frescas. — A senhora não desceu para o lanche. Trouxe até aqui. — disse, entrando com passos firmes. — E, por favor, perdoe Kira. Ela é jovem, deslumbrada, fala sem pensar. Leticia a observou, hesitante, mas decidiu abrir seu coração. — Eleni… muitas mulheres já estiveram aqui com Enzo? A governanta respirou fundo, mantendo a postura. — Senhora, não devo falar do patrão. — Eu não quero ser mais uma, Eleni. — disse Leticia, com sinceridade. — Não quero ser apenas mais uma história passageira. Eleni pousou a bandeja sobre a mesa e se aproximou, suavizando o tom. — Às vezes, sim, ele traz mulheres. Mas ficam no máximo um final de semana. Ninguém permanece muito tempo. — Fez uma pausa, olhando nos olhos de Leticia. — Mas nunca, nunca ninguém ocupou o quarto principal. E posso confessar: o senhor Enzo jamais se preocupou tanto com um hóspede como se preocupa com a senhora. Leticia sentiu o coração acelerar. — Então… você acha que sou diferente? Eleni sorriu, maternal. — Não dê ouvidos a juras vazias, senhora. Mas também não ignore gestos verdadeiros. O quarto principal, o cuidado, o respeito… isso fala mais do que palavras. Leticia sorriu, emocionada. Pela primeira vez, sentiu que talvez estivesse vivendo algo real. O final da tarde trouxe consigo uma notícia: Enzo mandou avisar que chegaria tarde e que Leticia não deveria esperá-lo para o jantar. Eleni, sempre atenciosa, serviu um prato grego delicioso — moussaka, com camadas de berinjela, carne e molho cremoso — que Leticia nunca havia provado antes. Saboreou cada pedaço, sentindo-se acolhida por aquele cuidado. Depois do jantar, subiu para o quarto. Na varanda, leu algumas páginas de seu livro, ouvindo o som suave das ondas ao longe. O céu escuro, salpicado de estrelas, parecia conversar com ela. Quando o sono começou a pesar, vestiu uma camisola de algodão branca, simples, bonita, nada provocativa. Deitou-se e adormeceu. Horas depois, acordou com a sensação de um braço envolvendo sua cintura. Um corpo quente junto ao seu. O coração disparou. — Nunca fiquei com tanta saudade de alguém… — murmurou Enzo em seu ouvido, causando arrepios que percorreram toda sua pele. Leticia virou-se lentamente, encontrando os olhos dele, intensos e cheios de desejo contido. — Sii mia. — disse em italiano, com voz rouca, pedindo que fosse dele. Ela não respondeu com palavras. Apenas deixou que o silêncio falasse, aproximando-se. Os lábios se encontraram num beijo profundo, carregado de ternura e paixão. Enzo a envolveu com cuidado, cada gesto delicado, como se tivesse medo de quebrá-la. A noite se desenrolou em requintes de amor. Não havia pressa, apenas entrega. Ele a acariciava com paciência, explorando cada detalhe como quem descobre um tesouro. Leticia sentia-se segura, envolvida por um carinho que nunca experimentara. Era como se, naquele instante, o mundo inteiro tivesse desaparecido, restando apenas os dois. Enzo a fez mulher pela primeira vez, não com urgência, mas com respeito e devoção. Cada toque era uma promessa, cada beijo um juramento silencioso. Leticia, entre suspiros e sorrisos tímidos, se entregou completamente, sentindo que aquela noite não era apenas paixão, mas também um marco em sua vida. Quando finalmente repousaram, ainda entrelaçados, Enzo sussurrou: — La mia stella… — minha estrela. E Leticia, com lágrimas de emoção nos olhos, soube que aquela noite ficaria gravada para sempre em sua memória.
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