Capítulo 15 – O Colapso em Silverstone

1222 Palavras
Leticia abriu os olhos no quarto de hotel e percebeu que ainda estava sozinha. O vazio ao seu lado na cama parecia gritar mais alto do que qualquer barulho de motor que ela já ouvira nos boxes. Enzo não havia voltado. O peso da briga da noite anterior sufocava sua respiração, e cada lembrança das p************s dele voltava como uma ferida aberta. A vontade dela era arrumar as malas e voltar para a Itália, fugir daquela corrida que agora parecia amaldiçoada. Mas havia algo que a prendia ali: uma mistura de orgulho, insegurança e ciúmes que ela não conseguia explicar. Será que Giulia tinha razão? Será que Olivia ainda existia dentro dele, mesmo que apenas como sombra? Levantou-se devagar, sentindo o corpo pesado. O coração batia acelerado, não apenas pela briga, mas pela angústia que se instalava em sua mente. Cada passo parecia carregado de dúvidas. E se eu não for suficiente? E se ele me comparar? Decidiu tomar um banho antes de decidir o que fazer. Talvez a água lavasse não apenas o corpo, mas também a confusão que a dominava. Mas ao dar o segundo passo em direção ao banheiro, o mundo girou. A insegurança, o ciúme, o peso da noite anterior, tudo se transformou em vertigem. O corpo perdeu as forças e ela desabou no chão frio, inconsciente. O ambiente nos boxes estava carregado de tensão. O cheiro de combustível misturado ao som metálico das ferramentas criava uma atmosfera pesada, mas nada se comparava ao semblante fechado de Enzo. Ele ajustava o macacão com movimentos bruscos, o olhar duro, como se quisesse se desligar de tudo que não fosse a pista. Marco, amigo próximo e sempre atento, percebeu o estado dele. Aproximou-se com cautela, tentando quebrar o gelo. — Dormiu aqui nos boxes hoje? — perguntou, em tom leve, mas com a preocupação evidente. Enzo assentiu, sem esconder a irritação. — Não voltei para o hotel. Brigamos. Marco suspirou, cruzando os braços. — Vocês precisam aprender a lidar com isso. Brigas acontecem, mas não pode deixar que interfira na corrida. Enzo ergueu os olhos, impaciente. — Fácil falar, Marco. Você não estava lá. Ela insiste em cavar coisas que já morreram. Eu não vou viver preso ao meu passado. Marco manteve a calma, mesmo diante da explosão do amigo. — Eu entendo, mas você precisa lembrar que ela não é da sua vida antiga. Ela não conhece tudo que você viveu. É natural que queira respostas. Enzo bufou, ajustando as luvas com força. — Respostas? Eu não devo nada a ninguém. O que passou, passou. Se ela não consegue aceitar isso, então não sei o que mais posso fazer. Marco se aproximou, colocando a mão no ombro dele. — Você pode fazer o que sempre fez na pista: manter o controle. Não adianta acelerar se não sabe frear. Se continuar assim, vai perder não só a corrida, mas também a paz com ela. Enzo desviou o olhar, claramente incomodado. — Eu não quero falar disso agora. Tenho que me concentrar. Romano, o engenheiro-chefe, entrou na conversa, percebendo a ausência de Leticia. — Ela não chegou ainda, Enzo. — Ainda não? — perguntou, tentando disfarçar a preocupação que começava a se infiltrar. — Pelo menos aqui no box, não. Enzo pegou o celular e ligou, mas caiu direto na caixa postal. O incômodo cresceu, transformando-se em um nó no estômago. Ele respirou fundo, tentando se convencer de que ela apenas estava atrasada. Marco, mais uma vez, tentou aliviar a tensão. — Talvez ela só precise de tempo. Vocês brigaram, é normal que queira ficar sozinha, e toda mulher as vezes faz um charme depois de uma briga. Enzo apertou os punhos, olhando para o carro pronto para a classificação. — Tempo… — murmurou. — Eu só espero que não esteja fazendo nada que me faça perder o foco. Marco o encarou, sério. — Não é sobre perder foco, Enzo. É sobre não perder ela. O piloto não respondeu. Apenas entrou no carro, ajustou o capacete e se preparou para a pista. Mas, mesmo com o motor roncando alto, a ausência de Leticia ecoava mais forte dentro dele do que qualquer comando no rádio. O clima em Silverstone estava pesado, com nuvens carregadas e pista molhada. O ronco dos motores ecoava pelo circuito, misturado ao cheiro de combustível e ao nervosismo da equipe. Enzo entrou no carro, ajustou o capacete e respirou fundo. A ausência de Leticia nos boxes era um vazio que ele tentava ignorar, mas cada segundo sem vê-la aumentava sua irritação. Romano, o engenheiro-chefe, entrou no rádio: — Vamos começar. Pista molhada, cuidado na curva três. Enzo acelerou, o carro rugiu e saiu para a volta de classificação. A água levantava atrás dos pneus, e cada curva exigia precisão absoluta. — Curva três, cuidado com a aderência. — avisou Romano. — Está escorregando demais. — respondeu Enzo, a voz firme, mas carregada de tensão. — Ajuste a entrada, mantenha o ritmo. — completou o engenheiro. Enzo respirou fundo, tentando se desligar da briga, mas a ausência de Leticia ecoava dentro dele. Sempre a via ali, conectada ao rádio, acompanhando cada detalhe. Agora, o silêncio era ensurdecedor. — Curva quatro limpa, tempo bom. — disse Romano. Enzo apertou o volante, acelerou na reta e cruzou a linha de chegada. O painel mostrou o resultado: terceira posição no grid. — Bom tempo, Enzo. Terceira posição garantida. — comemorou Romano pelo rádio. Enzo desligou o rádio por um instante, respirou fundo e murmurou para si mesmo: — Onde você está, Leticia? O resultado era positivo, mas sua mente estava em outro lugar. A corrida estava prestes a começar, mas o coração dele já estava distante, inquieto. A equipe comemorava a terceira posição conquistada na classificação. O carro de Enzo havia mostrado força na pista molhada, e os engenheiros vibravam com o resultado. Mas quando ele estacionou nos boxes e retirou o capacete, seu olhar percorreu o espaço em busca de Leticia. Nada dela. O vazio era evidente. Alguns membros da equipe se aproximaram para cumprimentá-lo: — Excelente volta, Enzo! Terceira posição garantida! Ele apenas assentiu, sem entusiasmo. O coração estava inquieto. Foi então que Marco se aproximou, segurando o celular que tocava insistentemente. — É o seu telefone. Enzo pegou o aparelho e atendeu, ainda ofegante da corrida. — Senhor Enzo Mancini? — disse uma voz firme do outro lado. — Sim, quem fala? — Aqui é o Dr. Richard Collins, do St. Thomas’ Hospital, em Londres. Sua esposa foi trazida esta manhã desacordada, com sinais de hemorragia. O mundo de Enzo parou. O barulho dos motores, as vozes da equipe, tudo desapareceu. Apenas aquelas palavras ecoavam em sua mente: desacordada… hemorragia. — O quê? Como assim? — perguntou, a voz trêmula, quase sem ar. — Ela foi encontrada no quarto do hotel. Está sob cuidados intensivos. Precisamos que o senhor venha imediatamente. Enzo deixou o celular cair por um instante, o coração disparado. Romano e Marco se aproximaram, alarmados. — O que houve? — perguntou Marco, preocupado. Enzo levantou o olhar, pálido, os olhos perdidos. — É a Leticia… ela está no hospital. O silêncio tomou conta dos boxes. A corrida, a classificação, os motores, tudo perdeu o sentido. Enzo sabia que havia uma prova pela frente, mas naquele momento, a única coisa que importava era chegar até ela.
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