Leticia abriu os olhos no quarto de hotel e percebeu que ainda estava sozinha. O vazio ao seu lado na cama parecia gritar mais alto do que qualquer barulho de motor que ela já ouvira nos boxes. Enzo não havia voltado. O peso da briga da noite anterior sufocava sua respiração, e cada lembrança das p************s dele voltava como uma ferida aberta.
A vontade dela era arrumar as malas e voltar para a Itália, fugir daquela corrida que agora parecia amaldiçoada. Mas havia algo que a prendia ali: uma mistura de orgulho, insegurança e ciúmes que ela não conseguia explicar. Será que Giulia tinha razão? Será que Olivia ainda existia dentro dele, mesmo que apenas como sombra?
Levantou-se devagar, sentindo o corpo pesado. O coração batia acelerado, não apenas pela briga, mas pela angústia que se instalava em sua mente. Cada passo parecia carregado de dúvidas. E se eu não for suficiente? E se ele me comparar?
Decidiu tomar um banho antes de decidir o que fazer. Talvez a água lavasse não apenas o corpo, mas também a confusão que a dominava. Mas ao dar o segundo passo em direção ao banheiro, o mundo girou. A insegurança, o ciúme, o peso da noite anterior, tudo se transformou em vertigem. O corpo perdeu as forças e ela desabou no chão frio, inconsciente.
O ambiente nos boxes estava carregado de tensão. O cheiro de combustível misturado ao som metálico das ferramentas criava uma atmosfera pesada, mas nada se comparava ao semblante fechado de Enzo. Ele ajustava o macacão com movimentos bruscos, o olhar duro, como se quisesse se desligar de tudo que não fosse a pista.
Marco, amigo próximo e sempre atento, percebeu o estado dele. Aproximou-se com cautela, tentando quebrar o gelo.
— Dormiu aqui nos boxes hoje? — perguntou, em tom leve, mas com a preocupação evidente.
Enzo assentiu, sem esconder a irritação.
— Não voltei para o hotel. Brigamos.
Marco suspirou, cruzando os braços.
— Vocês precisam aprender a lidar com isso. Brigas acontecem, mas não pode deixar que interfira na corrida.
Enzo ergueu os olhos, impaciente.
— Fácil falar, Marco. Você não estava lá. Ela insiste em cavar coisas que já morreram. Eu não vou viver preso ao meu passado.
Marco manteve a calma, mesmo diante da explosão do amigo.
— Eu entendo, mas você precisa lembrar que ela não é da sua vida antiga. Ela não conhece tudo que você viveu. É natural que queira respostas.
Enzo bufou, ajustando as luvas com força.
— Respostas? Eu não devo nada a ninguém. O que passou, passou. Se ela não consegue aceitar isso, então não sei o que mais posso fazer.
Marco se aproximou, colocando a mão no ombro dele.
— Você pode fazer o que sempre fez na pista: manter o controle. Não adianta acelerar se não sabe frear. Se continuar assim, vai perder não só a corrida, mas também a paz com ela.
Enzo desviou o olhar, claramente incomodado.
— Eu não quero falar disso agora. Tenho que me concentrar.
Romano, o engenheiro-chefe, entrou na conversa, percebendo a ausência de Leticia.
— Ela não chegou ainda, Enzo.
— Ainda não? — perguntou, tentando disfarçar a preocupação que começava a se infiltrar.
— Pelo menos aqui no box, não.
Enzo pegou o celular e ligou, mas caiu direto na caixa postal. O incômodo cresceu, transformando-se em um nó no estômago. Ele respirou fundo, tentando se convencer de que ela apenas estava atrasada.
Marco, mais uma vez, tentou aliviar a tensão.
— Talvez ela só precise de tempo. Vocês brigaram, é normal que queira ficar sozinha, e toda mulher as vezes faz um charme depois de uma briga.
Enzo apertou os punhos, olhando para o carro pronto para a classificação.
— Tempo… — murmurou. — Eu só espero que não esteja fazendo nada que me faça perder o foco.
Marco o encarou, sério.
— Não é sobre perder foco, Enzo. É sobre não perder ela.
O piloto não respondeu. Apenas entrou no carro, ajustou o capacete e se preparou para a pista. Mas, mesmo com o motor roncando alto, a ausência de Leticia ecoava mais forte dentro dele do que qualquer comando no rádio.
O clima em Silverstone estava pesado, com nuvens carregadas e pista molhada. O ronco dos motores ecoava pelo circuito, misturado ao cheiro de combustível e ao nervosismo da equipe. Enzo entrou no carro, ajustou o capacete e respirou fundo. A ausência de Leticia nos boxes era um vazio que ele tentava ignorar, mas cada segundo sem vê-la aumentava sua irritação.
Romano, o engenheiro-chefe, entrou no rádio:
— Vamos começar. Pista molhada, cuidado na curva três.
Enzo acelerou, o carro rugiu e saiu para a volta de classificação. A água levantava atrás dos pneus, e cada curva exigia precisão absoluta.
— Curva três, cuidado com a aderência. — avisou Romano.
— Está escorregando demais. — respondeu Enzo, a voz firme, mas carregada de tensão.
— Ajuste a entrada, mantenha o ritmo. — completou o engenheiro.
Enzo respirou fundo, tentando se desligar da briga, mas a ausência de Leticia ecoava dentro dele. Sempre a via ali, conectada ao rádio, acompanhando cada detalhe. Agora, o silêncio era ensurdecedor.
— Curva quatro limpa, tempo bom. — disse Romano.
Enzo apertou o volante, acelerou na reta e cruzou a linha de chegada. O painel mostrou o resultado: terceira posição no grid.
— Bom tempo, Enzo. Terceira posição garantida. — comemorou Romano pelo rádio.
Enzo desligou o rádio por um instante, respirou fundo e murmurou para si mesmo:
— Onde você está, Leticia?
O resultado era positivo, mas sua mente estava em outro lugar. A corrida estava prestes a começar, mas o coração dele já estava distante, inquieto.
A equipe comemorava a terceira posição conquistada na classificação. O carro de Enzo havia mostrado força na pista molhada, e os engenheiros vibravam com o resultado. Mas quando ele estacionou nos boxes e retirou o capacete, seu olhar percorreu o espaço em busca de Leticia. Nada dela. O vazio era evidente.
Alguns membros da equipe se aproximaram para cumprimentá-lo:
— Excelente volta, Enzo! Terceira posição garantida!
Ele apenas assentiu, sem entusiasmo. O coração estava inquieto. Foi então que Marco se aproximou, segurando o celular que tocava insistentemente.
— É o seu telefone.
Enzo pegou o aparelho e atendeu, ainda ofegante da corrida.
— Senhor Enzo Mancini? — disse uma voz firme do outro lado.
— Sim, quem fala?
— Aqui é o Dr. Richard Collins, do St. Thomas’ Hospital, em Londres. Sua esposa foi trazida esta manhã desacordada, com sinais de hemorragia.
O mundo de Enzo parou. O barulho dos motores, as vozes da equipe, tudo desapareceu. Apenas aquelas palavras ecoavam em sua mente: desacordada… hemorragia.
— O quê? Como assim? — perguntou, a voz trêmula, quase sem ar.
— Ela foi encontrada no quarto do hotel. Está sob cuidados intensivos. Precisamos que o senhor venha imediatamente.
Enzo deixou o celular cair por um instante, o coração disparado. Romano e Marco se aproximaram, alarmados.
— O que houve? — perguntou Marco, preocupado.
Enzo levantou o olhar, pálido, os olhos perdidos.
— É a Leticia… ela está no hospital.
O silêncio tomou conta dos boxes. A corrida, a classificação, os motores, tudo perdeu o sentido. Enzo sabia que havia uma prova pela frente, mas naquele momento, a única coisa que importava era chegar até ela.