As ruas de Nova York pareciam ganhar outra vida depois da meia-noite. Não havia mais o barulho insistente dos carros apressados nem as buzinas impacientes. O ritmo mudava. Era como se a cidade tivesse seus próprios segredos, revelados apenas para quem aceitava caminhar sem rumo pelas avenidas iluminadas. Foi nesse clima que Ricardo pegou a mão de Sthefany e a conduziu por um caminho que ela jamais teria ousado sozinha.
— Confia em mim? — ele perguntou, com aquele sorriso provocador que parecia esconder mais do que revelava.
— Acho que já confiei demais… — ela respondeu, mas a voz traiu o nervosismo.
Ele riu baixo, apertando levemente sua mão.
— Então não vai ser difícil confiar só mais um pouco.
Viraram em uma rua estreita, onde as luzes eram mais fracas e os prédios pareciam velhos demais para pertencer à cidade que nunca dorme. No meio do quarteirão, uma pequena porta de madeira, quase invisível entre duas vitrines apagadas, apareceu diante deles. Ricardo parou, olhou para os lados como quem guarda um segredo, e abriu a porta com naturalidade.
Do lado de dentro, Sthefany se surpreendeu. Não era apenas um bar — era quase um refúgio. As paredes de tijolos à mostra, as mesas redondas iluminadas por velas e o palco pequeno no canto, onde um saxofonista deixava o ar impregnado por notas de jazz, criavam uma atmosfera intimista. O bar escondido parecia ter sido feito para encontros proibidos.
— Uau… — ela murmurou, olhando ao redor. — Como você descobriu esse lugar?
— Descobri não… — ele se inclinou próximo ao ouvido dela, e a proximidade fez seu corpo reagir de imediato. — Esse lugar me encontrou.
Sentaram-se em uma mesa afastada, quase escondida, onde a luz m*l alcançava os rostos. O garçom chegou, discreto, e Ricardo pediu duas taças de vinho tinto sem sequer consultar Sthefany. Normalmente, ela reclamaria. Gostava de escolher, de ter controle. Mas com ele, era diferente. Aceitava as decisões, como se o simples fato de estar ali já fosse um convite à rendição.
Quando o vinho chegou, ele ergueu a taça.
— Aos segredos que não precisam ser ditos.
Ela tocou a taça na dele e bebeu um gole, sentindo o sabor forte que descia queimando. O olhar de Ricardo nunca deixou o dela, como se a cada segundo tentasse atravessar todas as camadas que ela ainda mantinha fechadas.
— Você tem um jeito curioso de me olhar… — ela disse, tentando quebrar a intensidade que a sufocava.
— E você tem um jeito curioso de tentar fugir de si mesma — ele rebateu, tranquilo, como se tivesse lido sua alma em poucas palavras.
Sthefany riu, mas não conseguiu esconder o arrepio que correu pela espinha.
— Talvez eu esteja fugindo mesmo…
— E eu? — ele inclinou a cabeça, observando-a com calma. — Sou parte da fuga ou do motivo?
A pergunta ficou no ar. A música suave, a penumbra e o vinho criaram uma bolha, onde a realidade parecia distante. Ela não soube o que responder. Sentia-se entre a tentação de se jogar sem pensar e o medo de admitir que já estava mergulhando fundo demais.
— Talvez os dois — murmurou por fim, com um sorriso tímido.
Ricardo levou a taça aos lábios, mas o olhar continuava fixo nela. A cada segundo, a tensão aumentava. Era um jogo silencioso, onde cada gesto carregava significados não ditos.
De repente, ele estendeu a mão e pousou-a sobre a dela, com firmeza e calma ao mesmo tempo. O toque simples incendiou a pele de Sthefany. Ela não recuou. Pelo contrário, virou a mão, entrelaçando os dedos aos dele.
— Você me deixa… — ela começou, mas parou.
— O quê? — ele provocou.
— Me deixa perder o controle — confessou, quase num sussurro.
Ele sorriu satisfeito.
— O controle é superestimado. Às vezes, é melhor simplesmente… sentir.
A música mudou. O saxofone deu lugar a um piano suave. Ricardo se levantou e estendeu a mão para ela.
— Dança comigo.
— Aqui? — ela arregalou os olhos. — Não tem pista…
— Não precisamos de pista. Só de vontade.
Sem argumentos, ela aceitou. Os dois foram até um espaço discreto, entre as mesas. Ele a envolveu pela cintura, e ela apoiou as mãos em seus ombros. O corpo de Ricardo era firme, quente, e Sthefany sentiu-se encaixar como se já tivesse dançado com ele mil vezes antes.
Os movimentos eram lentos, quase imperceptíveis. Mas cada passo era carregado de desejo. O rosto dele aproximou-se, e ela sentiu o hálito misturado ao vinho. O mundo desapareceu.
— Você não faz ideia do que me causa… — ele murmurou contra sua pele, roçando os lábios em seu ouvido.
O arrepio percorreu todo o corpo dela, que cerrou os olhos para não se perder ali mesmo.
— Acho que faço, sim… — respondeu, deixando escapar um gemido baixo.
O beijo não demorou. Foi inevitável. Quando os lábios dele finalmente tocaram os dela, foi como se todo o ar do bar tivesse se tornado insuficiente. Era urgente, faminto, mas também delicado em alguns instantes, como se ele saboreasse cada segundo.
O coração de Sthefany batia rápido demais. As mãos dele deslizaram por suas costas, descendo devagar, enquanto ela puxava seus cabelos curtos, entregando-se mais e mais.
Quando o beijo se quebrou, foi apenas para que pudessem respirar. Ele encostou a testa na dela, ofegante.
— Isso… vai mudar tudo.
— Já mudou — ela respondeu, sem hesitar.
Voltaram para a mesa, mas agora já não havia distância possível. Ele manteve a mão sobre a perna dela, subindo devagar, e cada gesto era como fogo sob a pele. O vinho se tornou desculpa para prolongar o contato, e o bar, por mais cheio que estivesse, parecia existir apenas para os dois.
Sthefany sabia, em algum ponto da mente, que estava cruzando limites perigosos. Que um desconhecido não deveria ter tanto poder sobre ela. Que quinze dias não justificavam tanto desejo. Mas nada disso importava. O corpo falava mais alto, e o corpo dele parecia responder em sintonia.
Quando saíram do bar, a madrugada já começava a se despedir. A rua deserta os recebeu com um silêncio cúmplice. Ricardo a puxou para um beco próximo, sem dizer nada, apenas a beijando com intensidade, encostando-a contra a parede fria.
— Eu preciso de você… — ele murmurou, a voz grave, quase um pedido.
Ela sentiu as pernas tremerem, mas não de medo. Era desejo puro.
— Então me tenha.
O beijo seguinte foi ainda mais intenso. As mãos exploravam sem pudor, e a respiração entrecortada denunciava o quanto já estavam perdidos naquele jogo. Só pararam quando o som distante de passos os fez lembrar de onde estavam.
Ricardo afastou-se, respirando fundo.
— Você me enlouquece.
Ela sorriu, mordendo o lábio.
— Acho que estamos empatados.
Seguiram caminhando até o hotel dela, em silêncio, mas o silêncio não era vazio. Era carregado de promessas, de expectativas, de um fogo que não seria apagado facilmente. Quando chegaram à porta, ele segurou o rosto dela com ambas as mãos e a beijou mais uma vez, como quem marca território.
— Durma bem, pequena. Amanhã… eu quero mais.
Ela apenas assentiu, sem forças para dizer nada. O coração acelerado, a pele ainda queimando, e a mente cheia de imagens proibidas. Entrou no quarto e caiu na cama, sabendo que não havia mais volta. Ricardo não era apenas uma aventura passageira. Ele era o começo de algo que ela ainda não tinha coragem de nomear.
E, no fundo, temia que esse algo mudasse sua vida para sempre.