Ruas iluminadas e segredos silenciosos

1109 Palavras
Caminhadas noturnas e tensão crescente A cidade parecia respirar diferente à noite. Nova York, com todas as suas buzinas e multidões, mudava de pele quando o sol se escondia. As luzes se acendiam como estrelas artificiais, refletindo nos vidros dos arranha-céus, nas poças d’água congeladas e até nos olhos de quem caminhava apressado. Para Sthefany, cada rua iluminada era uma promessa — e cada sombra, um segredo prestes a ser descoberto. Naquela noite, não era apenas o turismo que a fazia caminhar. Era ele. Ricardo. Eles haviam combinado de se encontrar depois do jantar, em frente a uma pequena livraria de esquina em Manhattan. Sthefany chegou alguns minutos antes e ficou observando as vitrines iluminadas, os livros dispostos como tesouros esperando mãos curiosas. O frio cortava sua pele, mas seu corpo parecia em chamas só com a expectativa. Quando Ricardo surgiu, o coração dela acelerou. Ele usava um sobretudo escuro, a gola levantada contra o vento, e o cabelo bagunçado pelo inverno. O contraste entre sua aparência impecável e a naturalidade com que caminhava a deixou sem ar. — Esperei muito? — ele perguntou, a voz baixa, carregada de uma calma que desarmava qualquer nervosismo. — Cheguei há pouco — respondeu ela, tentando soar natural, embora a verdade fosse que cada minuto de espera tinha sido uma eternidade. Ele sorriu de lado, aquele sorriso que parecia esconder intenções. Então, sem mais palavras, estendeu a mão para ela. Foi um gesto simples, mas carregado de intensidade. Sthefany hesitou por meio segundo antes de entrelaçar os dedos nos dele. O toque era firme, quente, e ao mesmo tempo gentil. — Vamos caminhar? — ele sugeriu. E caminharam. As ruas estavam vivas, cheias de pessoas, mas parecia que o mundo se reduzia a dois. Eles paravam em frente a vitrines, comentavam detalhes banais como roupas expostas ou decorações natalinas ainda penduradas, mas havia sempre um subtexto em cada olhar, em cada pausa. — Você percebe como as pessoas aqui andam rápido? — disse Sthefany, observando os passos apressados de um grupo. — Parece que estão sempre fugindo de algo. — Ou correndo em direção a alguma coisa — corrigiu ele, inclinando levemente a cabeça para observá-la. — Você, por exemplo. O que veio buscar aqui? Ela ficou em silêncio por alguns segundos. A pergunta atravessou sua pele. Não era fácil responder. — Talvez… liberdade. — disse, quase num sussurro. — Queria ver como é estar em um lugar onde ninguém me conhece, onde não tenho que ser a filha de alguém, ou a estudante exemplar. Só… eu. Ricardo parou de caminhar e virou-se para ela, os olhos fixos nos dela. O reflexo das luzes urbanas deixava-os ainda mais intensos, quase hipnóticos. — Gosto disso — murmurou. — Você busca ser quem realmente é. Poucas pessoas têm coragem de admitir. O elogio veio carregado de uma verdade que fez o peito dela vibrar. Sentiu-se vista, compreendida, como se ele tivesse atravessado a camada de defesas que ela mesma nem sabia possuir. Continuaram andando até que as ruas mais agitadas ficaram para trás, dando lugar a esquinas mais silenciosas, bares discretos e restaurantes pequenos. Era como se ele soubesse exatamente onde levá-la para que a noite se tornasse íntima, mesmo em meio a milhões de pessoas. Pararam diante de uma ponte iluminada, com vista para o East River. O vento era frio, mas a cena era de um romantismo quase cinematográfico. — Nunca pensei que Nova York pudesse ser… silenciosa — comentou ela, apoiando-se no parapeito. — A cidade nunca dorme, mas também sabe guardar segredos — respondeu ele, aproximando-se. Ela sentiu a proximidade como um choque elétrico. O ombro dele roçou o dela, e mesmo com o tecido grosso do casaco, o contato fez seu corpo reagir. Um arrepio percorreu sua espinha. — E você? — perguntou ela, tentando manter a voz firme. — O que esconde, Ricardo? Ele riu baixo, sem desviar os olhos dela. — Todos temos segredos, Sthefany. A questão é: você está pronta para os meus? A pergunta pairou no ar como uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo. O coração dela batia descompassado, e uma parte gritava para recuar, mas outra — a parte mais forte — queria mergulhar fundo naquele mistério. Ele não esperou resposta. Tocou de leve o queixo dela, fazendo-a erguer o rosto. O gesto foi lento, quase reverente, mas carregado de tensão. Os lábios dele se aproximaram, e antes que ela pudesse pensar, estavam se tocando. O beijo começou suave, exploratório, mas logo ganhou intensidade. Era como se ambos tivessem guardado aquele desejo por noites, esperando apenas o momento certo para libertá-lo. Ela se agarrou ao sobretudo dele, sentindo o calor do corpo contrastar com o frio da madrugada. Quando se separaram, ofegantes, ele encostou a testa na dela. — Você me deixa… perigoso — confessou, quase como se fosse uma fraqueza. Ela não respondeu. Apenas sorriu, sentindo que a linha entre o certo e o errado estava ficando cada vez mais tênue. Seguiram a caminhada, mas agora o silêncio entre eles era carregado de significados. Cada olhar era uma confissão, cada toque de mãos era uma promessa. Pararam em frente a um bar escondido, a porta de madeira envelhecida, luz baixa escapando pelas frestas. — Confia em mim? — ele perguntou, abrindo a porta. Sthefany respirou fundo e entrou. O interior era acolhedor, íntimo, com mesas pequenas, música de jazz suave e um aroma de vinho no ar. Sentaram-se em um canto reservado, quase escondidos. Ele pediu duas taças de tinto sem sequer consultar a carta. Enquanto brindavam, o olhar dele nunca se desviava do dela. Era como se cada palavra fosse apenas um pretexto para manter aquela intensidade viva. — Você é diferente — disse ele de repente. — Não é só bonita. É… viva. Ela sentiu o rosto corar, mas não desviou o olhar. Pelo contrário, sustentou-o, como quem aceita o desafio. As conversas foram se misturando com risadas, provocações sutis e silêncios carregados de desejo. Quando saíram, a cidade já parecia adormecida, mas dentro deles, nada estava calmo. De volta às ruas iluminadas, caminharam lado a lado até o hotel dela. No saguão vazio, o som dos passos ecoava. E novamente, como na primeira vez, o impulso venceu. Ele a puxou para si, e o beijo que compartilharam ali foi urgente, faminto. Sthefany soube, sem sombra de dúvida, que estava entrando em algo do qual não conseguiria sair ilesa. Mas, naquele instante, não importava. O frio da madrugada parecia distante. O mundo inteiro poderia desabar, e ela não se importaria — porque os segredos de Ricardo e a intensidade de seus toques já eram mais fortes que qualquer razão.
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