Victor
Não consegui parar de pensar naquela mulher um segundo sequer, desde que a deixei em casa. Mas, provavelmente, é por estar puto pelo tapa que deu em meu rosto. A vontade que estou de matá-la é imensa, porém, seria muito fácil me livrar dela. Contudo, agora, é uma questão de honra, irei tê-la para mim. Andrea Bernardi será minha esposa a qualquer custo!
No dia seguinte, enquanto tomamos o café da manhã juntos — hábito esse exigido pelos meus pais — o telefone do meu pai toca. Ele encara a tela, parecendo apreensivo e irritado, em seguida levanta e se afasta de nós para atender quem quer que seja. Fico em estado de alerta.
— Mantenha a calma, meu filho — notando como fiquei, mamãe tenta amenizar o clima de tensão que se formou — Tenho certeza de que está tudo bem.
— Desculpa, mãe… Mas não parece que está tudo bem, olha como o papai ficou. — Sarah se pronuncia, pois, assim como eu, sabe que tem algo errado.
Minha mãe não precisa dizer nada, apenas o seu olhar direcionado a minha irmã, é o suficiente para que ela se cale.
— Pörra! — a voz do meu pai reverbera por toda a casa — Se essa informação chegar ao conselho, estaremos födidos. Vocês sabem o que é isso? Eu não quero saber como aconteceu, quero essa sujeira limpa, ouviram?
Ouvimos um barulho de algo se chocando, creio que ele tenha socado a parede, devido à raiva. Contudo, ele se aproxima de nós, tentando nos passar tranquilidade. Mas o conheço bem, sua mão está fechada em punho e o maxilar meio trincado, a testa um tanto enrugada, sinal de que tem algo errado.
— O que houve, Thomaz? — minha mãe o encara.
Ele massageia as têmporas, tentando manter-se calmo e respira fundo antes de falar.
— Recebemos uma denúncia anônima sobre a Topsky, disseram que há mulheres sendo obrigadas a se prostituírem…
— Não é possível, Thomaz. Se for verdade, como isso foi acontecer? — mamãe está com os lábios entreabertos, apreensiva.
— Eu não faço a menor ideia, Angel. Só sei que precisamos resolver isso antes que chegue ao conhecimento do conselho, senão, estaremos fodidös.
— Posso resolver isso sem que eles saibam, pai.
— Eu vou junto. Atiro muito bem, estão cansados de saber disso. — Sarah fala.
— Minha filha, não duvido de sua capacidade, mas é muito arriscado você ir. — papai tenta convencê-la.
— Se é arriscado para mim, também é para o Victor. Fomos muito bem treinados por você e a mamãe, não há o que temer. Apenas confie em mim, papai. — fala com mansidão ao final de sua frase, sabe que sempre consegue o que quer com ele, dessa forma.
— Ela tem razão, Thomaz. Não vejo problema algum em deixar que a Sarah o ajude, eles são irmãos e não seria a primeira vez que lideram uma missão juntos. — noto o risinho contido no rosto da minha irmã.
Meu pai solta uma lufada de ar, sem mais argumentos.
— Tudo bem, você pode ir, mas, por tudo que é mais sagrado, tomem cuidado. A coisa pode ficar feia, se precisarem, não hesitem em me chamar.
À medida que ele nos dá instruções, nos preparamos para um possível confronto. Vamos até a sala onde fica o nosso arsenal de armas. Colocamos tudo que pode nos ser útil, na van. Desde pistolas a fuzis.
— Vem com a mamãe, belezinha. — Sarah pega uma adaga e coloca na bota de couro, escondendo-a com o tecido da calça.
— Só vai pegar isso? — franzo o cenho, enquanto ponho a escuta em meu ouvido.
— Você é lento demais, maninho. — balança a cabeça para os lados, sorrindo arteiro e vira de costas, erguendo um pouco a blusa, mostrando uma pistola na parte de trás de sua calça.
Sorrio de canto. Ela realmente puxou a mamãe, sempre nos surpreendendo.
Quando já estamos prontos, nos despedimos dos nossos pais, que nos desejam boa sorte. Estão muito apreensivos, não por nos deixarem comandar essa missão, mas, sim, por receio de essa situação chegar até o conselho da Bratva e Camorra. Estaríamos realmente fodidös.
Alguns de nossos soldados nos acompanham na van, outros em um carro blindado bem atrás de nós.
(...)
Chegamos ao nosso destino e, antes de entrar, coloco a mão na frente da Sarah, parando-a.
— O quê? — ela franze o cenho.
— Por favor, tenha cuidado e não aja precipitadamente. Não sei o que iremos encontrar lá dentro.
— Não se preocupe, eu sei. — meneia brevemente a cabeça em concordância.
Seguimos para dentro da boate.
— Senhor Hilberg? Não o esperava aqui hoje e — o dono do lugar olha as horas em seu relógio de pulso — Tão cedo…
Ele parece não somente surpreso, como também, assustado. O encaro seriamente, sem demonstrar nenhum tipo de emoção.
— A senhorita deve ser a filha dos Hilberg, tão linda quanto a mãe. — Sarah revira os olhos.
— Sem papo furado, cara. Não sou uma dessas garotas que trabalham aqui. Queremos saber como estão as coisas, se está tudo nos conformes.
— Estão sim. — analiso cada movimento dele e o semblante.
Ele parece estar nervoso.
— Ok, então, poderíamos dar uma olhada rápida no local? — pergunto e o vejo engolir em seco.
— É… Claro, senhor Hilberg… Por aqui. — ele faz menção para passarmos por um corredor e nos segue.
Mantenho a visão atenta a tudo e olho de soslaio para minha irmã que, discretamente, faz o mesmo.
Passamos em frente a algumas portas, que ele mesmo abre para nos certificarmos de que está tudo bem.
— Como podem ver, não há nada de errado.
Sarah e eu nos encaramos, como se conversássemos através do olhar.
— E aquela porta ali? — ela pergunta, observando uma porta no fim do corredor, na qual nem chegamos perto.
— É… Ali não é nada, senhorita. Apenas uma sala onde armazenamos algumas coisas da boate.
— Já que não é nada demais — enfatizo minha fala — Acredito que não se importe se dermos uma conferida, não é mesmo? — firmo meu olhar sobre ele.
O homem leva alguns segundos para responder e o noto mexer na orelha.
— Tudo bem. — respira fundo e nos aproximamos da tal porta.
Ao abri-la, inicialmente não vemos nada de comprometedor, porém, percebo que há um tecido escondendo uma parte do quarto, como se fosse uma cortina.
— Acho que já viram tudo.
— Espera um pouco. — dito isso, vou até lá e, ao afastá-la, me surpreendo com o número de mulheres em uma situação deplorável e suas feições assustadas.
Sinto meu sangue ferver e fecho a mão em punho.
— Você ficou louco? — grito com ele, enquanto a Sarah o segura por trás, colocando a adaga em seu pescoço — Achou que não descobriríamos, pörra?
Alguns homens da boate vem até onde estamos e, alguns apontam a arma para mim, outros para a minha irmã.
— Se eu fosse vocês, nem tentava. — meu olhar sobre cada um deles é matador.
— Não esperávamos que aparecessem aqui tão cedo — o dono da boate fala com certa dificuldade por minha irmã o estar quase enforcando — Iríamos vendê-las e nunca saberiam que elas estiveram aqui.
— Ainda tem a audácia de admitir que estão fazendo trabalho sujo nessa pörra, carälho? E para completar chama esses seguranças de merda para nos amedrontar? Ou acha que não te vi falando pela escuta, seu pedaço de estrüme? Fala, carälho! — tiro a arma da parte de trás da calça e aponto para ele.
As armas dos seguranças dele fazem barulho, como se engatilhassem, prontos para atirar.
Dou uma risada sem humor, olhando para os lados e atiro na parede ao lado de onde estão minha irmã e o chefão. As mulheres traficadas gritam, amedrontadas. Os outros homens começariam a atirar também, porém, foram impedidos por um gesto do dono da boate.
— Ninguém ouse abusar da minha boa vontade. Libertem essas mulheres e limpem essa bagunça o quanto antes. Não estamos para brincadeira. Ouviu bem? — lhe pergunto.
Ele não diz nada.
— Responde, pörra! — foi a vez da minha irmã gritar e pressionar ainda mais a adaga em sua garganta
— Si… Sim. — responde quase se cagando.
— Ótimo! Não pense que ficará por isso mesmo, nos certificaremos de que você e seus homens jamais voltem a fazer algo desse tipo outra vez. Vamos, Sarah, ainda tenho muito o que fazer hoje.
Chamo-a com a cabeça, passando por eles. Ela solta o dono da boate, que passa a mão no pescoço um pouco sujo de sangue.
Saímos do lugar.
— Certifiquem-se que eles realmente farão o que mandei. — ordeno a alguns dos nossos soldados.
Entramos na van para ir embora.
— Como eu queria tê-lo matado, minha mão estava coçando para cortar aquele pescocinho. — rio do jeito que ela fala.
— Ainda bem que não o fez, ou o papai nos mataria.
— É, eu sei, mas não posso negar que quis fazer. — dá de ombros.
— Vou te deixar em casa e depois irei até os Bernardi. Mamãe pediu que eu conversasse com Andrea sobre o casamento. — ela bufa.
— Vai mesmo aceitar esse casamento, Victor?
— Não tenho escolha, sabe disso. É o legado da nossa família, não posso decepcioná-los.
Sarah olha para a frente, desanimada.
— Tudo bem.
Por sorte, não demoramos a chegar em casa. Peço que avise aos nossos pais para onde irei, desço da van, indo para um dos nossos carros blindados e sigo para a mansão Bernardi.