Capítulo 3

1609 Palavras
Andrea Quem aquele filho da mãe pensa que é, para me carregar daquele jeito? Eu não sou uma boneca de pano que ele possa colocar nos ombros e ir de um lado para o outro. Ah, mas se esse idiöta pensa que vai ficar assim, ele que me aguarde. Nunca fui de render a um homem que acha que pode exercer algum tipo de poder sobre uma mulher e não é agora que passarei a fazê-lo. Entrei em casa pisando duro, possessa de ódio pelo que acabou de acontecer. Iria direto para o meu quarto, porém, a voz estridente do meu pai me fez parar no meio do caminho. — Posso saber onde a senhorita esteve? — engulo em seco e evito encará-lo, porque sei que está cuspindo fogo. — Papai, estou cansada, só quero dormir. — permaneço na mesma posição, ainda de costas para ele. — Você não sairá daqui até me dizer onde esteve, Andrea. — mesmo sem gritar, sei que está bravo. Por essa razão, meu pai é o tão aclamado e temido Vladimir Bernardi, chefe da Cosa Nostra, nunca precisou de muita coisa para que todos o temessem. Comigo e a mamãe não costuma ser diferente, às vezes até nos trata como um de seus subordinados. — Fui a casa de uma amiga, papai. — minto. Ele fica em silêncio por alguns segundos e isso me dá ainda mais medo. Um calafrio percorre meu corpo. — Sabe que tenho olhos em todo lugar, não é mesmo? — respiro fundo, porque sei exatamente aonde ele quer chegar. — Sim, papai… — E, mesmo assim, quer me fazer acreditar que esteve na casa de uma amiga? Não sei se estou mais surpreso pelo fato de mentir tão descaradamente para mim, ou por achar que eu não descobriria. Ao menos olhe para mim, Andrea. Estremeço ao ouvi-lo falar meu nome dessa forma. — Guardami, Andrea! (Olhe para mim, Andrea!) — levo um susto e viro o corpo devagar em sua direção — Porque faz isso, minha filha? Porque insiste em me afrontar? — sua voz fica mais mansa. Ele está sentado em sua poltrona no canto da sala de estar, como já é habitual, em uma mão segura um copo com o que parece ser uísque, algo do tipo e o outro braço está apoiado no braço do estreito sofá, com a mão apoiando seu queixo. Sua feição é séria, indecifrável. Acredito que o som da sua voz ecoou por toda a casa, porque a mamãe surge às pressas na sala, usando um robe de seda para cobrir a camisola e está com cara de sono. — Eu só queria ter uma vida comum, como a de qualquer outra pessoa, ter a oportunidade de amar e ser amada, poder escolher com quem irei me casar. É pedir muito, papá? (papai) — sinto as lágrimas pesarem meus olhos, mas não me permito chorar na frente dele. — O que está acontecendo aqui? — mamãe divide o olhar entre mim e meu pai, aparentemente, aguardando por uma explicação. — Não é nada, Caterina. Só estamos conversando, volte a dormir. — Como assim, não é nada? Está me forçando a casar, papai. Tem noção disso? — elevo minha voz um pouco. — Querida, você sabe, sempre soube que tem um dever a cumprir, sendo uma Bernardi. Pode até não entender, mas tudo que fiz e faço até hoje, por você, é para o seu bem, porque te amo. Dou uma risada sem humor. — Você tem uma forma bem estranha de demonstrar isso, sabia? Porque, na maioria das vezes, sinto que sou apenas um negócio em sua vida. — me arrependo do que acabo de dizer, no exato segundo em que fecho a boca. Vejo tristeza no semblante do meu pai e ele desvia o olhar por alguns instantes, parecendo decepcionado. — Já chega vocês dois! — a voz da mamãe reverbera pela sala e seu olhar sobre nós é firme. — Desculpa, papai. Eu não quis dizer isso, não quis te magoar, eu juro! — tento me retratar, porém, sei que é em vão. — Sabe, minha filha — suspira pesadamente — Sei que estou longe de ser o melhor pai do mundo, mas nunca quis nada além do melhor para você. Posso ter cometido muitos erros nessa vida, no entanto, tudo o que sempre fiz, foi pensando no melhor para você. Inclusive, esse casamento. — Como pode dizer uma coisa dessas, papai? Eu não amo esse tal Victor Hilberg — minha voz está carregada de desdém ao dizer o nome dele — Na verdade, o odeio com todas as minhas forças. — trinco meu maxilar e fecho a mão em punho. — Isso não importa, com o tempo aprenderá a amá-lo. Solto uma lufada de ar, cansada dessa discussão que não nos levará a lugar nenhum. — O que está decidido, está decidido, não há como voltar atrás. Você irá casar-se e não quero ouvir discussões sobre esse assunto outra vez. — surpreendo-me com as palavras da minha mãe. — Mas, mamãe… Até você?! — meus lábios se entreabrem em surpresa, porque confesso que por essa eu não esperava. — Você, mais do que ninguém, sabe qual é o dever de uma mulher criada no mundo em que vivemos, Andrea. E eu, como esposa do seu pai, devo apoiá-lo, mesmo não concordando com essa decisão. Respiro fundo e abaixo a cabeça, cansada de tudo isso, pois, apesar de não querer aceitar, sei que a mamãe tem razão. Ela nunca concordou com isso, mas como mulher casada, deve seguir as leis. — Vou dormir, papai. Estou farta de sempre tentar te convencer de algo que nem cogita pensar a respeito. Boa noite para vocês! — digo rispidamente e lhes dou as costas, indo para o meu quarto. Não é fácil viver nesse mundo, apesar de ter sido criada nele e saber, desde cedo, como tudo funciona. Mas eu sempre pensei que talvez, um dia, as coisas pudessem mudar, sei lá. Pelo visto, me enganei, porque meu pai está irredutível. Ao invés de ir dormir, apenas troco de roupa e vou para minha sala de treinos, no jardim da casa. Os homens da Cosa Nostra fazem exatamente o que meu pai exige deles, segurança máxima para mim, então não posso fazer absolutamente nada, sem que eles estejam por perto. Não é à toa que sempre dou um jeito de fugir da vista deles. Já em meu lugar de refúgio, coloco minhas luvas de treino e me aproximo do saco de pancadas. Começo a socá-lo, depositando nele todo meu ódio. Enquanto faço isso, lembro-me perfeitamente daquele brutamontes me segurando por cima do ombro, fazendo-me sentir ainda mais raiva. — Eu te odeio, Victor Hilberg! — soco o saco com força e travo meu maxilar — Eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio! — paro ofegante e com o coração acelerado. Alguns fios de cabelo colados em minha testa, devido ao suor. A verdade é que eu não o odeio, nem o conheço para odiá-lo. O que eu odeio, é a ideia desse maldito casamento. Estou frustrada por não poder fazer nada a respeito. Sinto-me exausta, não só fisicamente, mas, principalmente, mentalmente. Decido finalizar por hoje e ir descansar. Tomo um banho relaxante e demorado, visto uma camisola e, antes de dormir, faço algo que não posso mais adiar. Pego meu celular, procuro pelo nome dele em meus contatos de ligações recentes, aproximo o aparelho do ouvido e espero chamar. Peço mentalmente, por tudo que é mais sagrado, que ele não atenda. Até ouvir o som de sua voz carinhosa sempre que fala comigo. — Estava preocupado com você, não nos falamos desde cedo. — fechos os olhos, sentindo-me muito querida. — Desculpa, meu amor. O dia hoje fugiu totalmente do meu controle… — O que houve, meu anjo? Parece estar cansada. — E estou. Cansada de tudo e todos. — solto uma lufada de ar. — Até de mim? — pergunta em tom de brincadeira. — Nunca me cansaria de você. Eu te amo. — Então, o que aconteceu? Me conta, quem sabe eu consiga te ajudar. Rio sem humor. — Queria que fosse fácil assim… Meu pai está me obrigando a casar com o filho dos Hilberg. — solto de uma vez, antes que eu perca a coragem. — O quê? Como assim? — sua voz está nitidamente alterada. — Eu juro que não sabia, papai me obrigou a ir até à casa deles e lá aconteceu o menos esperado por mim. — Como assim, não sabia? Todas as mulheres prometidas a alguém, sabem. Está escondendo algo de mim, Andrea? — Eu jamais faria isso. Quis dizer que não sabia que isso aconteceria tão rápido. Quando saímos de casa, meu pai não disse o que faríamos lá, apenas que veríamos o meu prometido. Agora estou aqui, noiva, com um anel imenso no dedo. Um silêncio se forma na ligação. — Alex, ainda está aí? — Sim, só estava processando a informação. — Eu não quero me casar com ele, Alex. Não posso fazer isso, eu te amo. — Não se preocupe, meu anjo. Tenho certeza que iremos pensar em algo para impedir esse casamento. Amanhã nos encontraremos no lugar de sempre. Tenha uma ótima noite. — Tudo bem, boa noite. Encerramos a chamada e percebo que o Alexandre estava mais calmo do que pensei que ficaria ao saber que estou prestes a me casar. Isso foi bem estranho. Decido deixar isso quieto e descansar. O dia hoje não foi nada fácil. Deito de forma confortável e meus olhos vão se fechando lentamente, até eu não conseguir mais mantê-los abertos.
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