›◞ QUATORZE

2401 Palavras
Vazio. Era essa a sensação predominante no peito de Jungkook, entre tantas outras, quando ele acordou naquela manhã. Sentia a cabeça latejar como um inferno e a claridade que adentrava o seu quarto através das janelas grandes que ficavam na parede oposta a qual sua cama estava apoiada não ajudava em nada. O menor gemeu baixinho conforme tentou sentar, sentindo seu corpo fraco, molenga e terrivelmente dolorido, como se tivesse levado a pior surra do mundo. Mas na verdade eram apenas os efeitos do cio mais intenso de todos tempos. Com um suspiro cansado, e agora sentado e bem recostado nos travesseiros, o Jeon mais novo apoiou a mão na testa, olhando um ponto fixo e logo a cama vazia ao seu lado enquanto lentamente expirava e flashes sobre os últimos três dias lhe vinham à mente, o fazendo se sentir muito constrangido. O seu ômega estava inquieto no peito, se sentindo completamente rejeitado e indesejado por ter passado mais um cio sem nenhum alfa; por não ter sido saciado como bem queria, em especial após um período intenso como aquele. Jeongguk, por outro lado, estava aliviado. Ainda assim, a vergonha ainda estava ali, completamente palpável e lhe lembrando constantemente dos seus gemidos desavergonhados e manhosos que certamente até vizinhos do final da rua haviam ouvido. E… Céus, ele havia implorado por Taehyung. Dito que queria seu beijo, que queria ele consigo. Dentro de si. — Hmmm. – dessa vez uma choramingo altamente frustrado lhe fugiu a garganta um tanto seca e arranhada, à medida que erguia os joelhos à altura do peito nu e escondia o rosto corado ali, como se aquilo fosse impedir que os pensamentos sobre isso retornassem. Só queria um buraco enorme onde pudesse se enterrar e morrer, só pra não sentir a vergonha que sentia naquele momento. Infelizmente aquilo parecia impossível. — Querido? – a voz doce de seu appa surgiu do outro lado da porta, em meio ao silêncio do quarto, que no momento era preenchido apenas por suas lembranças constrangedoras. Ainda assim Jeongguk não respondeu num primeiro momento. — Está acordado? Ouvi sua voz… Está tudo bem por aí? Com dor? Posso entrar? Era nítida a preocupação somente pelo seu tom e o moreno se sentiu um pouco culpado à medida que erguia sua cabecinha cheia de fios negros e transbordando pensamentos. — 'To bem, appa. – foi a primeira coisa que disse, sentindo a garganta incomodar por um momento e acabando por corar um pouco mais ao lembrar do porquê. Fechou os olhos, suspirando. — Só… Um pouco dolorido e cansado, mas 'to bem. E… Acho melhor que não entre agora, quero me recompor primeiro e esse lugar está uma bagunça. Sua voz ainda soava num tom baixo enquanto o olhar agora rolava pelo quarto tão bagunçado por conta daqueles três dias intensos, quanto ele estava. Mas sabia que o mais velho ouvia, e em especial, entendia. — Tudo bem, bebê. – ainda que não o visse, imaginava ele sorrindo de forma mínima e um pouco mais aliviado. — Seu pai preparou um café da manhã reforçado, porque você precisa se recuperar… Se demorar demais eu venho te buscar, uh? Tinha certeza de que aquilo era mais uma intimação do que uma pergunta, e que ele só queria saber se havia entendido bem, por isso mesmo o Jeon mais novo apenas soltou um murmúrio em concordância ainda que um pouco contrariado com a ideia. Não estava com fome – por mais que nem tivesse se alimentado tão bem nos dias que se passaram, como poderia? –, muito menos estava disposto ou empolgado para olhar na cara de seus pais, em especial de seu pai alfa, depois de descobrir o quão barulhento podia ser. Mesmo assim, assim que ouviu os passos do ômega se afastarem, suspirou e com certo esforço levantou, usando o lençol branco e fininho, que em algum momento havia parado no chão, para cobrir o corpo cheio de curvas delicadas, resolvendo cuidar da bagunça do local somente quando acabasse seu banho quente que era o que mais precisava naquele momento. E assim o fez, se dirigindo ao banheiro anexo ao cômodo e se trancando por lá, conforme iniciava seu banho. E mesmo que seus movimentos fossem lentos e preguiçosos, não demorou muito até que o lençol estivesse no cesto de roupas sujas e o corpo nu do ômega estivesse debaixo da água morna que saía do chuveiro. Foi como alívio imediato porque no segundo seguinte praticamente todos os seus músculos, antes tensos, relaxaram quase que no automático, quase como se seu corpo implorasse por aquilo, e talvez fosse mesmo o caso. Nem saberia ao certo dizer quantos minutos passou ali, debaixo da água quentinha, mas foi o suficiente para que finalizasse seu banho um pouco mais revigorado do que quando ali entrou; Mais cheiroso e se sentindo melhor também. Após isso então, logo estava de volta ao quarto, separando algo limpo e confortável – uma camisa branca e folgada de mangas curtas e uma calça de moletom azul – e que logo estaria em seu corpo. E tinha certeza de que toda aquela boa vontade, de arrumar o quarto, que lhe apareceu naquele momento tinha mais a ver com o fato de que queria evitar ao máximo encarar seus pais e ocupar a mente com qualquer coisa que não fosse alfa e tivesse nome e sobrenome, do que qualquer outra coisa . Ainda assim sabia que não podia fugir para sempre, e um sinal disso foi que terminou de arrumar tudo bem mais rápido do que gostaria. Também não queria deixar os senhores Jeon esperando por muito tempo, porque não tinha dúvidas de que se demorasse mais um minuto que fosse seu appa viria realmente buscá-lo mesmo, nem que fosse para levá-lo nos braços. Conhecia bem o homem e definitivamente não queria aquilo. Por isso mesmo assim que teve a chance, o moreno mais novo enfim seguiu, a passos vagarosos e arrastados, até a saída do quarto e em seguida ao cômodo onde costumavam fazer refeições – de onde o cheiro agradável e convidativo de torradas vinha e praticamente o levava – fazendo com que seu estômago desse sinais de vida e ele enfim percebesse que estava mais faminto do que imaginava. Como esperava, encontrou ambos os pais sentados à mesa, conversando sobre algo que a princípio não conseguiu identificar, mas a julgar pelas expressões um tanto sérias e o seu nome sendo jogado na roda, não precisou de nem mais dois segundos antes que juntasse as peças e concluísse que era sobre si e os últimos três. Suspirou, cruzando os braços e limpando a garganta assim que se aproximou mais, para mostrar que se fazia presente. — Oh… Goo, meu amor, bom dia. – antes um tanto surpreso com a chegada do filho, por mais que a esperasse, logo o alfa estava chamando-o para sentar-se, com um aceno e certo alívio por ver o menor ali de pé. — Bom dia, appa. – respondeu num tom baixo, enquanto sentava-se. Era óbvio o elefante na sala, mas não é como se, nos primeiros três minutos, alguém tivesse dito algo. Jeongguk por instantes sequer lembrou de qualquer coisa, mais concentrado em servir-se e então comer o bastante para saciar o monstrinho faminto que morava no seu estômago. Ao mesmo tempo, os senhores Jeon pareciam trocar olhares, não sabendo ao certo como começar a abordar aquele assunto que parecia tão delicado. — Vocês querem me perguntar algo? – mesmo que não os olhasse, sentia os olhares queimando em sua pele enquanto mordia um pedaço generoso de torrada na qual havia acabado de passar um pouco de geléia de framboesa. E assim que finalmente ergueu o rosto, não se surpreendeu ao dar de cara com o olhar de ambos em si, parecendo estarem um tanto sem jeito por terem sido pegos no flagra. — Bom… — Você chegou chegou três dias atrás, sendo carregado por um Taehyung agitado e estando… De uma forma que nunca nenhum de nós havia visto antes. – Eunwoo sempre buscava ser cauteloso, mas fora o primeiro a falar de fato. — Eu não esperava, mas foi um alívio quando você foi entregue nos meus braços com segurança. Ainda assim… — Estamos intrigados. – JaeMin continuou, parecendo mais à vontade em falar. — Acho… Que só queremos saber se aconteceu algo diferente dessa vez. Silêncio se fez presente por instantes após a fala do ômega mais velho, enquanto ambos o olhavam com curiosidade, estando o alfa ainda mais inquieto que o próprio marido. Alfas atados não eram afetados pelo cio de outros ômegas, felizmente. Mas não era bem esse o problema. A verdade é que Eunwoo estava desacostumado àquilo. A ver seu filhote daquela forma. Sabia que era algo natural a qualquer alfa e ômega, mas com Jeongguk sempre foi diferente, o menor já havia passado por muita coisa e isso só havia contribuído para que ele o visse ainda, de certa forma, como seu pequeno filhotinho. Sabia que JaeMin pensava parecido também, mas de alguma forma ele parecia mais preparado para aquele momento. Talvez porque ômegas fossem resilientes quase que por natureza, ou talvez porque o marido estava esperando que aquilo acontecesse mesmo uma hora ou outra. Mas Eunwoo não estava. Jeongguk por outro lado parecia haver se perdido em seu próprio mundinho após ouvir a pergunta implícita naquela frase, finalmente parando para refletir sobre aquela questão. O que havia acontecido de diferente dessa vez? A única coisa que vinha a sua mente quando indagava aquilo a si mesmo era Kim Taehyung. Mesmo que fosse somente uma pessoa, não podia negar que ele havia afetado fortemente muitos pontos em sua vida, ainda que em tão pouco tempo. Naquele momento, refletindo sobre aquilo, percebia que era como se o Kim tivesse colocado tudo fora de lugar – suas certezas, pensamentos e até mesmo seu coração, por mais clichê que fosse –, mas ainda assim, parecia inexplicavelmente certo. Não sabia se aquilo era a resposta, mas sabia muito bem que Taehyung era a pessoa que o havia feito sentir coisas que até então nunca se imaginara vivenciando e isso era importante demais para ser deixado de fora da sua breve análise da situação. — Eu estive me sentindo diferente esses dias, cheguei a pensar que estava doente porque nunca fiquei assim, mas no fim acho que era apenas o cio mesmo, eu deveria ter me atentado mais… – enfim o mais novo se pronunciou, ainda parecendo reflexivo enquanto erguia o olhar na direção dos pais que agora o olhavam surpresos. — Gostar de alguém é um negócio muito estranho e te faz se sentir esquisito, mesmo que de uma forma boa… Acham que pode ter a ver? E se antes estavam surpresos, talvez nem houvesse uma definição adequada para o que sentiam naquele momento, em especial diante daquela pergunta vinda do próprio filhote que se mantinha muito sério, embora com as bochechas agora um pouco avermelhadas. Mas mesmo que tímido, Jungkook sempre foi uma pessoa muito direta e nunca foi o melhor em guardar para si mesmo seus pensamentos, nem mesmo os mais íntimos. — A-ah… É… Uma possibilidade, claro. – JaeMin, mais uma vez parecendo ser o que processava melhor aquelas informações, foi o primeiro a se pronunciar. — Quer dizer, sempre soubemos que não havia nada errado com a sua saúde. E se isso é o que mudou na sua vida, então sim. Pode ser o motivo… O ômega mais velho sorriu ao mais novo, compreensivo, conforme o via afirmar e olhar a mesa mais uma vez, parecendo ponderar sobre algo que nenhum dos outros dois sabia, até que de súbito levantou, as mãos espalmadas sobre a mesa. — Eu… Preciso fazer uma coisa. — E-espera, que coisa? – um pouco aturdido ainda, o único alfa acabou indagando. — Preciso falar com alguém. Desculpem. – curvou-se de maneira rápida, tanto em sinal de respeito como para enfatizar o pedido de desculpas, e antes de mais nada já dava meia volta e seguia na direção da saída. — A comida estava ótima. Eu prometo não demorar muito. Amo vocês! — E-espera, Jeonggukie, você… – ainda tentou, mas acabou se interrompendo assim que viu a porta se fechando com um clique suave, se voltando com um olhar desesperado ao marido assim que sentiu o toque sutil em sua mão. — Como está tão calmo? É você quem geralmente fica nervoso assim, e olha agora eu apoio completamente. A gente tem que ir atrás dele! Ele… E se… se… Não sabia nem o certo como completar aquela frase. Parecia que naquele momento os papéis haviam sido invertidos. — Eunwoo, calma… – o mais baixo pediu suavemente, apertando de leve a mão que era consideravelmente maior que a sua, vendo o mais alto em automático parar e respirar fundo. Suspirou. — O cio já passou, ok? E… Também não gosto de não ter as rédeas da situação, ainda mais se tratando do Jeongguk, mas não podemos nos meter nisso assim. Ele… Está vivendo a própria vida, descobrindo os próprios sentimentos, experienciando algo bom, não devemos interferir. Ele já teve de crescer tão rápido… Vamos deixar ele ser adolescente. Essa situação não é algo r**m. Não… é com alguém r**m… Em automático um silêncio se instalou enquanto ambos, até mesmo o que havia dito aquilo, refletiam sobre aquilo. O alfa também suspirou, não demorando a apoiar a mão sobre a que segurava a sua, fazendo um carinho sutil, na tentativa de transmitir algum conforto ao marido, ainda trazendo-a para perto do próprio rosto e deixando um selar sutil nas costas da mesma, o que arrancou um sorriso mínimo por parte do ômega. — Aquilo que o Jeongguk disse, acha… que realmente essa é uma possibilidade? – o mais alto finalmente soltou aquilo que ainda rondava sua mente. — Acho. – sequer precisou pensar duas vezes antes de responder. — O terapeuta sempre foi bem claro sobre o bloqueio que ele poderia ter criado, e disse que era algo natural nesse tipo de situação. Talvez… Ele só precisasse disso… — Talvez… – suspirou. — É algo bom. Eu só… Acho que não estava preparado… — Nem eu. – concordou. — Mas… Vai ficar tudo bem, hm? O maior afirmou, suspirando mais uma vez e apoiando a cabeça no ombro do menor, o abraçando, ato que prontamente fora correspondido. Só esperava que ficasse mesmo.
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