Angel Narrando
Vi o sol começar a nascer pelas frestas da cortina.
Mal preguei o olho essa noite.
Talvez por estar num lugar novo, cercada por rostos desconhecidos. Talvez pela responsabilidade que agora carrego, ser sub de um dos homens mais temidos do Rio de Janeiro.
Ou talvez… porque toda vez que eu fechava os olhos, era ele que aparecia.
Máscara.
Aquele olhar firme, aquela máscara preta, a voz rouca e aquela presença que pesa o ar. Ele tem algo que incomoda e atrai ao mesmo tempo, um tipo de força que dá medo e curiosidade.
Me levantei, fui direto pro banheiro, fiz minhas higienes e prendi o cabelo num coque m*l feito. Vesti uma legging preta, um cropped simples e calcei minha kenner.
Peguei minha Glock, conferi o pente, coloquei o rádio e o celular na cintura, meu celular vibrou. Era mensagem do Bomba.
Mensagem on:
Bomba: “Biriba tá levando sua moto aí agora cedo.”
Respondi:
“Blz.”
Mensagem off.
Guardei o celular e fiquei em silêncio olhando a vista da janela.
Por dentro, a ansiedade crescia. Hoje seria o primeiro dia atuando oficialmente como sub, e eu precisava provar pra todos, inclusive pro Máscara, que eu não era só uma mulher com rostinho bonito.
Antes de descer passei no quarto do Noah, olhei pra ele dormindo, o rostinho tranquilo, a respiração leve. Ajeitei a coberta e deixei um beijo na testa dele.
Desci pra cozinha, não sei que milagre é esse, a mãe ainda tá dormindo. Deve tá cansada da mudança, ontem foi um dia puxado. Passei um café bem forte, do jeito que gosto, fiz ovos mexidos e cortei um mamão.
Enquanto comia, já fui cortando as frutas do Noah e deixando num potinho, ele adora comer assim que acorda.
Tenho que ver uma escola pra ele ainda essa semana.
Terminei meu café, lavei a louça e deixei tudo no lugar. O silêncio da casa era estranho, diferente do burburinho da antiga. Aqui era tudo grande, silêncio demais, calmo demais pra uma mulher que nunca teve sossego.
Saí de casa, tava o Banguela e outro vapor na contenção que por sinal já não gostei da forma que ele me olhou.
Me aproximei deles e disse:
— Bom dia. — falei pra eles que responderam. — Banguela tem como me mostrar o caminho da boca. — perguntei pra ele.
— Agora patroa.
Ele respondeu já indo na direção da sua mota e subindo nela. Montei na garupa, ele ligou e foi descendo devagar.
Passamos pela a barreira. Os vapores me olharam, alguns cochichavam, outros apenas assentiram.
Dava pra ver a desconfiança nos olhos deles. Mulher, sendo sub de morro, o tipo de coisa que causa comentário em todo canto.
Mas não ligo. Já aprendi há muito tempo que respeito não se pede, se conquista.
O vento batia no rosto, e eu tentava colocar meus pensamentos em ordem. Era o primeiro dia oficial como sub, e o Máscara já tinha deixado claro que o buraco era mais embaixo. Eu precisava mostrar que era capaz. Que não cheguei ali por acaso, nem por pena de ninguém.
Assim que cheguei na boca, desci tava conversando com o Banguela quando, um ronco de moto que eu conhecia muito bem surgiu atrás de mim.
Me virei e lá estava ela, meu xodozinho, minha primeira moto, uma Yamaha xj6 600 roxa.
E claro o abusado do Biriba com aquele sorriso irritante colado no rosto, o mesmo de sempre.
— E aí, Ruivinha — ele disse, tirando o capacete e passando a mão pelo cabelo. — Já esqueceu dos amigos da Rocinha.
Revirei os olhos.
— Não esqueço de ninguém, Biriba. Só não costumo olhar pra trás.
Ele riu alto, como se minha resposta fosse a melhor piada do dia.
— Continua marrenta, hein?
— E você que me irrita demais sempre tirando minha paz. — Cruzei os braços, firme.
— Agora falando sério, cuidado. — Ele deu um passo pra perto. — Ser sub e pesado, Angel. É diferente de ser gerente.
— Não me subestime, Biriba. — Falei firme, olhando nos olhos dele. — Já vi e fiz coisa demais pra alguém achar que vai me assustar.
Ele ergueu as mãos num gesto de rendição.
— Calma, calma... não vim arrumar briga. Só saudade mesmo.
— Saudade? Já?. — Cruzei os braços. — De quê? De me irritar só pode?
— Das nossas conversas — respondeu com aquele tom debochado. — E de ver esse teu jeito de quem tá pronta pra matar a qualquer momento.
Tentei não rir.
— Biriba, tu nunca muda, né?
Ele deu um sorriso torto.
— E tu também não.
Antes que eu pudesse responder, um som de motor subindo forte ecoou.
Uma moto preta, potente, parou a poucos metros da gente.
Mesmo de longe, dava pra sentir o peso da presença dele.
Máscara.
Desceu da moto com o fuzil pendurado no ombro, a máscara cobrindo parte do rosto, o olhar firme como sempre.
Cumprimentou os vapores com um aceno e veio na nossa direção.
O clima mudou na hora.
Biriba endireitou a postura, mas o sorriso continuou.
— E aí, chefe — ele falou, como quem tenta soar tranquilo.
Máscara não respondeu, só acenou. O olhar dele pousou por mim primeiro, demorado, e
depois pousou em Biriba.
Máscara olhou pra mim, e por um instante o olhar dele suavizou.
— Angel, vem comigo por favor. — Foi tudo o que disse antes de virar as costas e seguir em direção à sala.
Segui atrás dele, sentindo o olhar de Biriba queimando nas minhas costas..
Na sala dele, ele me mostrou o mapa em 4D no computador. Fiquei impressionada com o nível de detalhe, cada ponto de boca, as entradas, as rotas de fuga e até as rotas falsas que usavam para despistar o BOPE e o caveirão.
Era coisa de outro mundo. Tudo milimetricamente calculado.
Enquanto ele falava, eu observava. Ele tinha uma maneira firme de explicar, sem levantar a voz, mas que deixava claro que ele dominava tudo ali.
Ele não mandava com grito, mandava com olhar.
E isso, sinceramente, era mais perigoso.
— Por hora, estamos sem gerente — ele disse. — Então vai ser só eu e você. A gente vai revezar o recolhe das bocas e a contabilidade do morro.
Assenti.
— Tranquilo. Já trabalhei com isso antes.
Ele concordou com a cabeça.
— E o F1... tô de olho nele pra gerente. Quero que tu observe ele também. Aí entramos em um consenso.
— Fechado.
Silêncio. Só o som leve do computador preenchia o espaço. Senti o olhar dele em mim por um instante, pesado, intenso.
Era como se ele tentasse me decifrar, entender o que tinha por trás do meu rosto calmo, do meu jeito controlado.
Mas se ele achava que ia ler minha mente, estava enganado. Aprendi cedo que mostrar sentimento é o mesmo que entregar arma pro inimigo.
Máscara cruzou os braços, se apoiando na mesa.
— Temos que organizar um baile para sua apresentação. — A voz dele saiu firme. — E a tradição mostra pra comunidade que o comando tá unido, e que a nova sub chegou pra somar, não pra mandar.
Revirei os olhos de leve. — Faz do teu jeito, não ligo muito pra baile
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você não é do tipo que gosta de ser vista.
— Nem preciso. Quem faz, não precisa mostrar.
Ele riu baixo, e o som me pegou desprevenida. E pior, aquele riso rouco me causou um arrepio leve.
— Gostei dessa — disse, se aproximando da tela. — Mas nesse caso, precisa aparecer. O morro precisa te conhecer.
Assenti, meio sem paciência. —
Então tá, chefe. Se é tradição, vamos manter.
Ele me encarou com um leve sorriso
Assentiu em silêncio.
— Vem — ele disse, pegando o rádio. — Vou te mostrar tua sala.
Fui atrás dele, observando cada detalhe enquanto andávamos pelo corredor.
As paredes tinham fotos antigas da Maré, das crianças jogando bola, dos bailes antigos.
Era estranho ver tanto cuidado num lugar onde era feito vendas de drogas.
Quando entramos na minha sala, me surpreendi. Era espaçosa, organizada, com um computador novo e uma janela com vista pro morro.
— É teu espaço. — Ele colocou o rádio na mesa. — Pode decorar como você quiser.
Dei um meio sorriso.
— Tá certo.
Ele ficou parado na porta. O olhar dele ficou preso no meu por alguns segundos longos demais.
Foi rápido, mas o suficiente pra me tirar o ar.