Capítulo 4

2097 Palavras
Capítulo 4 Máscara Narrando Não dormi nada. Praticamente vi o dia amanhecer. Toda vez que fechava os olhos, o rosto dela aparecia, aquele rosto de anjo e olhar sombrio. Angel. Aquela mulher tem algo diferente, algo que me prende a atenção de um jeito que eu não sei explicar. E o pior é que não tem nem vinte e quatro horas que a gente se conhece e ela já dominou minha mente como se tivesse o controle remoto dos meus pensamentos. Levantei antes do sol nascer. Fui direto pro banheiro, fiz minha higiene, vesti uma cueca, um calção e uma camisa simples. Calcei a kenner e, antes de sair do quarto, peguei o rádio, o celular e, claro, a máscara. Nunca saio sem ela. Já faz parte de mim, como se fosse outra pele. Desci até a cozinha. O silêncio da casa era pesado, mas eu já tinha me acostumado com isso. Fiz um café preto bem forte e um ovo pra comer com pão. Comi rápido, sem muito gosto. Depois lavei a louça, escovei os dentes no lavabo e peguei o fuzil que ficava atrás da porta da sala. Assim que pisei fora de casa, o vento da manhã bateu no rosto e senti o peso do dia me empurrar pra frente. Montei na moto e saí de casa, cumprimentando os vapores que faziam a segurança da casa. Quando passei em frente à casa da Angel, desacelerei. As cortinas ainda estavam fechadas, mas não sei por quê, fiquei imaginando ela ali dentro, acordando, cuidando do filho, arrumando as coisas. Sacudi a cabeça, como se isso fosse suficiente pra espantar os pensamentos. Tenho coisa mais importante pra pensar, me lembrei. Mas a verdade é que, por mais que eu tente, não consigo tirar aquela mulher da cabeça. Segui até a boca. Assim que cheguei pra minha surpresa, ela já estava lá escorada numa moto roxa, rindo de alguma coisa que o Biriba falava. Aquilo me deu um aperto estranho no peito. Biriba é o braço direito do meu padrinho, gente boa, respeitado. Mas ver os dois juntos, tão à vontade, me fez sentir o sangue ferver. Tentei disfarçar, mas foi impossível não reparar nela. A luz da manhã batia no cabelo ruivo, fazendo brilhar como fogo. Calça preta colada, blusa curtinha, glock na cintura, e aquele olhar firme que não pedia licença pra ninguém. Me aproximei, cumprimentei o Biriba com um aceno curto e falei: — Angel, vem comigo por favor. Ela soltou um “a gente se ver por ai” pro Biriba e me seguiu em silêncio. Caminhamos lado a lado até minha sala. Abri a porta e deixei ela entrar primeiro. Quando ela passou, o perfume dela me atingiu, doce, mas com um fundo amadeirado que parecia combinar perfeitamente com a força que ela carregava. Fechei a porta e encostei na mesa, cruzando os braços. — Chegou cedo — falei, tentando soar neutro. — Gosto de acordar cedo. — respondeu, sem desviar o olhar. A voz dela era firme, segura. Nenhum traço de medo ou submissão. Era raro ver isso por aqui. Assenti e me sentei atrás da mesa. — A partir de hoje, tudo que acontece na Maré passa por mim e por você. Vai ter que aprender o jeito que eu trabalho aqui. — Eu aprendo rápido. O jeito que ela falou me fez soltar um riso baixo. — Isso a gente vai ver. Liguei o computador pra mostrar o mapa em 4D do morro, enquanto ligava fiquei observando Angel. Ela não parecia desconfortável, nem impressionada. Parecia em casa. — Teu filho ficou bem? — perguntei, mais pra quebrar o silêncio do que por curiosidade. — Ficou. Tá com minha mãe. Ela vai cuidar dele enquanto eu trabalho. — Quantos anos ele tem mesmo? — Cinco. O silêncio que se seguiu foi denso. Eu apenas assenti. — Entendido. O computador ligou, abrir o mapa, expliquei pra ela como funcionava a divisão do morro, as bocas, os pontos de observação, as rotas de fuga e onde o comando mantinha as armas. Ela prestava atenção em cada detalhe, sem interromper, sem desviar o olhar. Quando eu terminei, ela se aproximou e, com o dedo, apontou para uma área no mapa. — Aqui… é por onde o Bope costuma entrar, certo? — É. Como sabe? — Eu li os relatórios da invasão de seis meses atrás, que você mandou pro Bomba. E notei que o ponto de visão deles é sempre o mesmo. Dá pra montar uma barreira falsa e deixar uma emboscada mais abaixo. Fiquei olhando pra ela por alguns segundos, surpreso. — Você estudou tática? — Não. Só aprendi observando. A resposta dela me pegou de jeito. Não era só bonita, era inteligente, estratégica. E o pior de tudo: tinha uma mente de guerra. Mas o jeito que Angel analisava o ambiente, atenta a cada canto, me fez perceber que ela não era como as outras. Ela se movia com confiança, com domínio. Tinha algo nela que me atraía. — Angel. Ela me olhou, o cabelo ruivo caindo sobre o ombro. — O quê? — Não confia em ninguém aqui. — Já aprendi isso faz tempo, Máscara. — Sorriu de canto. — Mas pode deixar, eu sei me cuidar. Terminei de mostrar o mapa pra ela, e olhei pra Angel, que continuava em pé, firme, como se cada palavra minha fosse gravada na sua mente. — Por enquanto, tamo sem gerente — comecei. — Então vamos ter que revezar os recolhe das bocas e cuidar da contabilidade do morro juntos. Quero ver como você se sai nessa parte também. Ela cruzou os braços e assentiu. — Tranquilo. Já trabalhei com isso em outros morro do comando. Aquilo me fez levantar uma sobrancelha. “Outros morros”. E Bomba realmente confia nela. — Tô de olho num cara pra gerente, o F1 — continuei. — Moleque é esperto, conhece bem o morro, mas ainda é novo. Quero te mostrar ele, ver se você aprova. Depois a gente entra em consenso. Angel me olhou direto, sem baixar o olhar em nenhum momento. — Confio no seu julgamento, Máscara. Mas foi observar também. Sorri de leve, por baixo da máscara. — É assim que tem que ser. Ficamos uns segundos em silêncio. O clima entre nós era pesado, mas não era r**m. Era uma mistura estranha de respeito e curiosidade, como se cada palavra trocada fosse uma pequena batalha. — Ah — lembrei. — Vamos ter que organizar o baile de apresentação. O morro precisa disso. É tradição. Mostra força e união. Ela franziu o cenho, como se não tivesse ligando muito pra ideia. — Pode fazer do seu jeito. Baile nunca foi meu ponto forte. — Digo o mesmo. — murmurei. Depois que alinhamos o básico, levantei e fui até a porta. — Vem, vou te mostrar tua sala. Ela me seguiu em silêncio, e eu sentia o peso da presença dela atrás de mim. A cada passo, aquele perfume doce e quente tomava o ar. Entreguei a chave. — A partir de agora, é teu espaço. Decore como quiser, mas mantenha fechado quando sair. Aqui é território de comando. Ela passou os dedos sobre a mesa de madeira e deu um meio sorriso. — Gostei. Saímos dali, e falei: — Agora, vamos descer. Quero te mostrar o morro. Angel fez menção de subir na moto dela, uma esportiva roxa, imponente, que chamava atenção, mas levantei a mão. — Deixa a tua aí. Sobe na minha garupa. Assim é mais rápido. Ela arqueou uma sobrancelha, avaliando. — Tem certeza? — Tenho. Assim não preciso ficar gritando pra você onde ficam os pontos. Por um segundo, achei que ela fosse recusar. Mas não. Sem dizer nada, ela subiu na garupa com firmeza, as mãos repousando leves nos meus ombros. Quando dei partida, o motor rugiu alto, e o som ecoou por entre os becos. Desci devagar no começo, passando pelas vielas principais, cumprimentando os moradores. As crianças corriam atrás da moto, rindo, e as senhoras acenavam das janelas. — Eles te respeitam — ela disse, por cima do barulho do vento. — Meu pai sempre dizia: “cuida dos teus que eles cuidam de você”. Tento seguir isso. Ela não respondeu, mas notei o jeito que olhou em volta. Tinha admiração nos olhos. Paramos primeiro na quadra principal, onde o baile de aconteceria. — O baile vai ser aqui, sábado à noite. Vamos colocar uns camarotes pros aliados. É o jeito de mostrar que o comando continua firme. Angel olhou o espaço, calculando. — Vou cuidar da segurança. Vamos precisar de uns vinte vapores só pra ficar nas saídas e pontos cegos. — Fechado — respondi, sem pensar duas vezes. Seguimos de moto pelas vielas estreitas, e ela foi memorizando cada ponto. Os vapores cumprimentavam com respeito, alguns curiosos com a nova sub. Angel não desviava o olhar, mantinha a postura de quem sabia onde estava pisando. Paramos num ponto mais alto, de onde dava pra ver todo o morro e, ao fundo, a Baía da Guanabara brilhando sob o sol da manhã. — Aqui — falei, desligando o motor — é onde meu pai costumava vir pensar. Fiquei em silêncio por um tempo. Angel desceu da moto e ficou ao meu lado, observando o horizonte. O vento batia forte, levantando alguns fios do cabelo ruivo dela. — Ele morreu na última invasão, né ? — perguntou baixo. Assenti. — Foi. Entraram de madrugada. Ele até conseguiu evacuar metade dos policiais do morro. Quando o Bope chegou nele… — respirei fundo — …ele já sabia que não sairia vivo. Angel olhou pra frente, o maxilar travado. — Herói para uns, criminoso para outros. — Pro morro, foi pai. — Falei firme. — E pra mim… foi tudo. O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era um daqueles momentos que não precisam de palavras. Ela virou o rosto pra mim. — Deve ser difícil carregar o legado dele. — É. Mas o vulgo ajuda. — Máscara. — Ela repetiu devagar, como se provasse o som do nome. — Combina contigo. Sorri de leve. — E Angel combina contigo. Um nome bonito demais pra uma mulher perigosa. Ela arqueou a sobrancelha. — Bonito, eu aceito. Perigosa… depende do ponto de vista. Ri baixo. — O meu ponto de vista é o da mira. Ela deu um meio sorriso. — Então é melhor não ficar na minha. Nos encaramos por alguns segundos. A tensão era quase palpável, e o vento parecia carregar mais do que o cheiro da maresia. Carregava algo que eu não devia sentir, mas já estava sentindo. — Vamos continuar a volta — falei, quebrando o momento. — Ainda tem muito pra te mostrar. Descemos pro outro lado do morro, onde ficavam os pontos mais movimentados. Angel prestava atenção em tudo, nos becos, nas saídas, nos rostos. Ela tinha um olhar de caçadora. Quando passamos pela praça central, um grupo de moleques soltava pipa. Um deles, pequeno, devia ter uns cinco anos, correu até a beira da rua, quase caindo, e Angel instintivamente esticou o braço, como se quisesse protegê-lo, mesmo de longe. Foi um gesto rápido, mas sincero. Fiquei observando. A mulher que empunhava arma com tanta frieza também tinha dentro dela a mãe, aquela que cuidava, que protegia, que sentia. Encostei a moto na calçada e desliguei o motor. Ela me olhou, curiosa. — Por que parou? — Porque preciso entender uma coisa. — O quê? — Você. — Falei simples, direto. — Uma mulher como você poderia estar em qualquer lugar. Por que vim pra cá, no meio da guerra? Ela suspirou e olhou pro alto, onde o céu começava a ficar nublado. — Porque o mundo lá fora não é diferente daqui, Máscara. Lá também tem gente que é r**m, só que veste terno e gravata. Aqui, pelo menos, a gente não finge, e só é r**m com quem merece. Fiquei em silêncio. E naquele momento, percebi que ela não era só o caos, era a verdade nua e crua da vida. Uma mulher que o mundo tentou quebrar, mas que sobreviveu mesmo assim. Dei partida de novo e voltamos pra boca. Quando ela desceu da moto, o cabelo caindo pelos ombros, e o vento logo bagunçou. — Valeu pelo tour, Máscara. — Falou com um sorriso leve. Assenti. Fiquei ali, observando. Aquele andar firme, aquele cabelo ruivo em contraste com o sol. E, pela primeira vez desde que assumi o comando, senti que algo estava prestes a mudar. Talvez o morro. Talvez eu. Ou talvez os dois.
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