Capítulo 3

1866 Palavras
Angel Narrando Continuação. Fui pra casa, contei pra minha mãe, arrumei as malas, e fui para Maré. Noah no banco de trás, minha mãe com o terço nas mãos. Enquanto o carro subia o morro, senti um arrepio. Como se o destino tivesse me chamando pra mais uma batalha só que dessa vez, eu não sabia se sairia viva. Eu não sabia quem era o homem por trás da máscara. Mas algo dentro de mim dizia que, quando nossos caminhos se cruzassem, nada mais seria o mesmo. E eu tava certa. Quando cheguei no alto do morro e parei diante da boca, o coração bateu estranho. Tinha alguma coisa naquele lugar, o silêncio, os olhares, o cheiro do poder, que dava medo e respeito ao mesmo tempo. Um vapor disse que eu podia entrar, que o chefe estava me aguardando. O nome dele ecoava nos becos como lenda: Máscara. Ninguém sabia quem ele era de verdade. Diziam que era frio, calculista, que nunca tirava a máscara nem para dormir. Que herdou o comando depois da morte do pai, um homem que o morro inteiro temia. Quando a porta da sala se abriu, o silêncio pareceu gritar. Ele estava lá. Sentado atrás de uma mesa, encostado na cadeira, metade do rosto coberto por uma máscara preta, o olhar firme e impassível. Era alto, moreno, ombros largos, a voz grave daquelas que impõem respeito sem precisar de ameaça. Por um segundo, achei que ele fosse me mandar sair. Acho que esperava um homem, e não uma mulher. — Máscara, o Bomba me mandou. — disse sem demonstrar emoção. — Angel, satisfação. — falei firme, erguendo o queixo. Os olhos dele me analisaram devagar, como se tentassem me decifrar. Eu senti o peso daquele olhar, o julgamento contido, a curiosidade disfarçada. — Satisfação, Angel. — Sua voz saiu baixa e rouca, fazendo subir um arrepio na minha espinha. E o silêncio se espalhou pela a sala. — Você veio sozinha? — perguntou cruzando os braços, quebrando o silêncio. — Não. Tô com meu filho e minha mãe. Tão lá fora, no carro. Ele franziu o cenho. — E o pai? Olhei pra ele por um instante, sem desviar. — Morto. Foi a única resposta. E o assunto morreu ali. Ele assentiu devagar, sem mostrar reação. — O vapor vai te mostrar onde vai ficar sua casa. Amanhã cedo eu te passo tudo e acertamos as responsas do morro. — Certo. — respondi simples. Me virei pra sair. Enquanto passava por ele, o perfume amadeirado dele se misturou ao meu. Por um segundo, senti o ar pesado da sala mudar. Deixei pra trás o som dos meus passos e o eco do silêncio dele. Noah e minha mãe estavam no carro. Ele dormia, e ela olhou pela janela, desconfiada. O vapor me levou até o pico do morro. A subida foi lenta, ladeada por vielas estreitas e olhares curiosos. À medida que o carro avançava, o cenário mudava: as casas simples deram lugar a muros altos, fachadas bem pintadas, portões de ferro e câmeras nas esquinas. O coração da Maré pulsava ali, mas de um jeito diferente: silencioso, observador, como se cada sombra tivesse olhos. Passamos por uma barreira cheia de vapores armados. Alguns me olharam desconfiados, outros curiosos. O vapor que dirigia, um cara magro e falante que se apresentou como Banguela, apenas acenou com a cabeça e eles abriram passagem. — Aqui é o pico, dona Angel. — ele disse, olhando pelo retrovisor. — Só os chefes moram aqui, ninguém entra sem autorização. Olhei pela janela. A noite já tinha caído, e o morro brilhava com as luzes acesas das casas lá embaixo começavam, enquanto o som distante do funk se misturava ao barulho dos rádios comunicadores. — Quantas casas tem aqui? — perguntei. — Três. — respondeu. — Essa que a gente passou tá fechada. Essa ali marrom é a sua. — Ele apontou pra frente. — E a última, lá no topo... é do Máscara. Segui o olhar do Banguela e vi. A casa preta, imponente, e dois vapores na porta. Mesmo à distância, dava pra sentir que aquele lugar exalava poder. Era puro luxo, mas carregava uma aura de perigo. E por algum motivo, aquilo me atraiu e assustou ao mesmo tempo. Quando o carro parou, fiquei alguns segundos só observando. A minha casa, se é que eu podia chamar assim, tava mais pra mansão, era linda. Fachada marrom, janelas amplas de vidro, uma escadinha de pedra subindo até a entrada. Parecia saída de uma novela, mas o clima era outro. Era bonito, sim, mas havia algo pesado no ar. Como se cada parede espera-se uma história que eu ainda não estava pronta pra criar. Banguela desceu e abriu a porta pra mim. — Bem-vinda à sua nova casa, Patroa. — disse com um sorriso meio tímido. Desci com Noah no colo. Ele dormia profundamente, a cabecinha encostada no meu ombro. Minha mãe veio logo atrás, e Banguela ajudou a tirar as malas do porta-malas. — Já tá tudo pronto — ele explicou. — A faxina foi feita hoje de manhã. Geladeira, armário, tudo abastecido. Se precisar de qualquer coisa, só chamar no rádio. — ele disse me entregando um rádio. — Obrigada, Banguela. — Por nada. — Ele olhou pro Noah e sorriu. — Bonito o moleque. Aqui tem uma pracinha com parque, certeza que ele vai gostar. — Isso eu tenho certeza, esse aqui tem energia de sobra. — respondi, e ele riu. Depois que ele foi embora, ficamos em silêncio por um tempo, olhando em volta. O vento lá de cima trazia o cheiro de mato misturado com o cheiro típico do morro. O céu já estava iluminado pelas estrelas, e as luzes das casas piscavam como vagalumes espalhados. Entrei, e por um instante, o ar me faltou. A sala era ampla, decorada em tons de bege e madeira escura. Um sofá enorme de canto, tapete macio, televisão na parede. Tudo limpo, organizado, com um perfume leve de lavanda no ar. Minha mãe ficou parada no meio da sala, encantada. — Meu Deus... parece casa de novela. — disse, passando a mão pela parede. — A cozinha então... olha isso, filha! Segui atrás dela. A cozinha era um sonho, balcões de mármore branco, armários embutidos, tudo novinho. A geladeira cheia, a dispensa transbordando. Eu fiquei olhando, com o coração apertado. — Você merece, filha. — ela disse, como se adivinhasse o que eu pensava. — Depois de tudo que passou, é bom te ver num lugar assim. Assenti, tentando acreditar. Mas no fundo, sabia que nada nessa vida era fácil. Subi as escadas com Noah nos braços. O segundo andar tinha quatro quartos enormes, todos suítes, com closets e janelas que davam vista pro morro inteiro. Escolhi o do lado do meu pro Noah. Deitei ele na cama, cobri com cuidado e fiquei um tempo olhando para aquele rostinho calmo, inocente. — Amanhã eu começo a decorar seu quarto, tá? — sussurrei, acariciando o cabelo dele. — Do jeito que você sempre pediu, cheio de carrinhos e dinossauros. Ele sorriu dormindo, e aquilo bastou pra me dar forças. No quarto ao lado, minha mãe já se acomodava. Ela parecia em paz, o que me trouxe um certo alívio. Fui pro meu quarto, guardei as malas no closet, ainda me impressionava ter um só pra mim e deixei a arma na gaveta do criado-mudo. Quando entrei no banheiro, encarei o espelho. O reflexo devolveu o rosto cansado, os olhos vermelhos, os cabelos presos num coque m*l feito. Passei os dedos na pele cansada e pensei em tudo que deixei pra trás pra chegar até ali. Tomei um banho longo, tentando lavar o peso do dia. A água quente escorrendo parecia um alívio, mas a cabeça não parava. Cada gota que caía lembrava que, por mais que a vida parecesse melhor, eu ainda estava dentro do mesmo mundo, só que mais fundo agora. Quando saí do banheiro, coloquei uma camisa larga e deitei na cama. O colchão era macio demais, quase estranho pra quem se acostumou a dormir em sofá ou colchonete. Mas o sono não vinha. O silêncio era diferente ali. Na Rocinha, sempre tinha barulho, música, grito, cachorro. Aqui, só o vento batendo nas janelas e, de vez em quando, o som distante de uma moto subindo o morro. Virei pro lado e encarei a janela aberta. De onde eu tava, dava pra ver parte da varanda, da casa do Máscara. Mas tinha algo naquela casa que me prendia o olhar. Não sei se era o mistério, ou o fato de saber que o homem que vivia ali podia decidir o destino de centenas de pessoas com uma única ordem. Máscara. O novo chefe da Maré. O homem que fala pouco, mas impõe muito. Lembrei do olhar dele. Frio, analítico, mas não indiferente. Tinha alguma coisa ali, um tipo de dor que ele escondia, e que eu reconhecia, porque talvez fosse igual à minha. Fechei os olhos e tentei afastar o pensamento. Não podia me deixar distrair. Neste mundo, sentir é fraqueza. E eu já aprendi, da pior forma, que quem sente... perde. Mas quanto mais tentava não pensar, mais o rosto dele surgia na minha mente. Aquela máscara preta cobrindo metade do rosto. A voz rouca e calma, que parecia sempre medir cada palavra. O jeito como me olhou, como se tentasse entender quem eu era, sem saber que eu também tentava entender quem ele era por trás daquela máscara. Suspirei. Levantei e fui até a varanda. O vento da noite era frio, e o morro parecia adormecido. A cidade lá embaixo piscava como um mar de luzes. Olhei pro alto e vi novamente a varanda. Uma luz acendeu e ele passou pela janela. Por um segundo, imaginei se ele estava acordado pensando, planejando, ou apenas tentando lidar com os próprios demônios. Apertei o corrimão da varanda e respirei fundo. Era estranho. Eu deveria estar focada no que me trouxe ali, trabalho, segurança, sobrevivência. Mas o mistério em torno daquele homem me puxava como um ímã. — Cuidado, Angel... — murmurei pra mim mesma. — Curiosidade demais mata. Voltei pra cama, mas o sono continuou distante. Pensei na minha mãe, que dormia tranquila, talvez acreditando que agora finalmente estávamos em paz. Mas eu sabia melhor que ninguém. No mundo em que a gente vive, a paz é uma ilusão. Mas eu sempre vou fazer de tudo pra eles viver em paz. Ainda assim, naquele momento, deitada numa cama macia, com o vento entrando pela janela e o coração batendo acelerado, eu senti algo que não sentia há muito tempo: esperança. Talvez fosse o começo de uma nova fase. Ou o começo do fim. Eu não sabia. Tudo o que sabia era que, lá fora, na casa ao lado, vivia um homem que escondia o rosto. E que, de algum jeito que eu ainda não entendia, ia acabar descobrindo tudo o que ele tentava esconder. Mas naquela noite, não consegui dormir. O olhar dele não saía da minha cabeça. Talvez fosse loucura, mas algo dentro de mim dizia que aquele homem e eu éramos feitos do mesmo material: dor moldada em silêncio.
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