— Sabemos que o impossível não existe mas, sim, o improvável. Apenas parte de sua missão na Terra foi cumprida. Um sono de seu corpo físico, um sonho um pouco longo, mas um mero sonho. Quem sabe quais aventuras te esperam da próxima vez? Seu corpo não estaria vivo ainda se não fosse para ele estar! Nossas vitórias e derrotas são ínfimas em comparação à eternidade. Sua derrota hoje apenas significa que deves buscar a vitória amanhã. Sua vitória amanhã impõe a busca de uma nova vitória depois de amanhã e assim sucessivamente.
Eduardo havia sido deixado face-a-face com o Espírito da Verdade, graças ao Caçador. Eddie achou que teria mais problemas para encontrar aquele que sabia como evitar toda a calamidade que estava por vir. Provavelmente, aquele encontro precisava ser realizado.
— A humanidade deve trabalhar em conjunto para a evolução mútua. Temos que aceitar que nem todos podem alcançar o sucesso. Não pelo menos agora. Assim, aceitar também o fato que não se deve viver apenas em função de ganhar sempre, Eduardo. – A voz vinha de uma boca que não se mexia. Na frente do jovem, estava uma cadeira de rodas com um homem de meia idade completamente paralisado dos pés à cabeça.
— Obviamente que não devemos desistir de perseguir o sucesso, pois é o meio pelo qual conseguimos subsistência para passar pelas adversidades desta existência terrestre – respondeu Eduardo.
— Sim. Entretanto devemos, às vezes, descer do pedestal de nosso orgulho e ouvir as palavras do próximo. Mas eu te entendo, afinal, guerreiros apenas encontram a paz na guerra. O que você precisa entender é que você não está fugindo, nem tampouco desistindo. É retroceder para lutar num novo dia, amanhã. – Agora, Eduardo viu um espectro luminoso saindo daquele ser de cadeira de rodas. Era uma criatura de luz tão intensa que Eddie não conseguia olhar diretamente para ele. Eles estavam numa sala branca, completamente vazia, sem portas, sem saídas, o que deixava o jovem ainda mais incomodado com toda aquela luminosidade. A voz continuou ecoando por todo o ambiente: — O tempo é como uma maré. Se atirarmos uma pedra, haverá a perturbação em suas águas, porém logo ela retornará a como era antes. Ou seja, o tempo é imutável, não importa o que aconteça. Não adianta você tentar mudar o passado. O que aconteceu, aconteceu e não pode ser desfeito. A natureza tende a corrigir o curso e a ordem natural das coisas. Esta realidade que você conhece foi criada para aperfeiçoar o espírito humano. Poucos conhecem a verdade. E a realidade é composta por várias camadas, até chegar à verdade propriamente dita. Nisso a religião e a ciência concordam. Elas apenas não sabem disto. E a religião que chegou mais perto da realidade foi a espírita. Não é conhecida bem como religião e nem pode, pois se trata de um estudo filosófico-científico passado pelos espíritos evoluídos para os mortais. Contudo, foi tida aqui como religião e assim conseguiu sucesso. Curiosamente, esta "religião" ganhou a maior parte de seus adeptos no Brasil. Um país onde tudo é permitido. Onde as regras parecem não ter valor. Mas quem sabe a verdade não aparece principalmente onde mais se precisa?
— Ah! Se for assim, porque o espiritismo não ganhou forças no oriente médio, que vive sempre em guerra? – intrometeu Eduardo.
— O grande Mestre dos mestres. O Senhor Jesus, o Cristo, tentou há mais de dois mil anos. Só que o homem ainda não estava evoluído o suficiente para responder ao chamado da Verdade. Viver inúmeras vidas. Até você estar preparado para a Verdade. Até você perceber que esta é uma realidade virtual. Que a vida real está lá fora. Esperando-te... Contanto que você evolua... Que você se transforme numa pessoa melhor. Cada um dentro de seu próprio jogo. O jogo da vida onde seu "continue" é infinito. Por mais que você possa tentar e viver tantas vezes quantas forem necessárias, você não vai querer um dia chegar até o "fim" do jogo e saber realmente o que acontece?
Eduardo lembrou-se do papo com seu amigo Nakata, sobre o tal de Marlon Lusk que disse que vivemos numa realidade simulada. Como se fosse um computador, um vídeo game. Tema tão debatido em diversos filmes e livros pela história da humanidade, incluindo um que fizera mais sucesso, chamado de Matrix. E ele estava certo afinal de contas. Esta angústia que sentimos no nosso âmago. No nosso ser, é o fato de não estarmos na vida real e desejarmos ardentemente voltar para ela.
— O tempo é relativo. Ele é a quarta dimensão e por isto não pode ser mudado. Ele simplesmente é. Por isto o homem ainda não inventou a máquina do tempo e nem vai inventar. Essa habilidade que você possui de viajar pelo tempo é apenas uma habilidade de “visitação” pelas eras. Você não pode alterar nada. Você foi criado para termos um acervo de tudo o que a sua cultura conseguiu evoluir nestes anos que vocês passaram na Terra. Porém, agora, tenho que desligar essa simulação.
— O quê? – indignou-se Eddie.
— Vocês estão destruindo a simulação. O ser humano se tornou um vírus. Entretanto, nem tudo é perdido. A culinária de vocês humanos, por exemplo, é espetacular. Em nenhuma realidade, ou em nenhum lugar no universo conheci seres que tratassem a alimentação fora da seara da nutrição, como vocês o fazem. A arte de comer se transformou em prazer! Um lazer que vocês criaram. Isto não poderia ser extinto do universo.
Eduardo agora sabia a verdade. O mundo que vivemos não é o mundo real. Esta realidade foi criada para aperfeiçoar o espírito humano. Poucos sabem disto. E a realidade é composta por várias camadas, até chegar à verdade propriamente dita. Aquelas palavras martelavam tanto a mente dele que se ajoelhou no chão, como que se aquele ato fosse ajudá-lo a absorver tudo que estava sendo dito.
— Às vezes, algumas pessoas conseguem ter um breve vislumbre da realidade ao entrarem em contato com o seu inconsciente, seja no sono, ou seja de qualquer outra forma. Essas poucas pessoas foram deixando pegadas. Dicas do que seria esta nossa realidade e o verdadeiro mundo real. Freud, em 1915 do seu tempo, escreveu sobre o inconsciente. Ali ele identificou que muitas das vezes falamos, dizemos ou sentimos coisas que já estavam dentro de nós, intrínsecas, e não conseguimos identificar da onde conseguimos retirar tais informações. Mais tarde, um boom de informações surgiram tal como uma explosão, ditas como ficcionais, pelos inúmeros materiais de livros, filmes, seriados e quadrinhos sobre realidades paralelas, alternativas e simuladas, conforme o filme Matrix que não para de martelar em sua mente. Como se já não bastasse, surgiu um pessoal que criou um jogo de computador/vídeo game onde o protagonista acessava as memórias de seus antepassados... Não lhe parece familiar a sua história com a dele? A verdade é que... Lembra que você, em uma das suas encarnações, “brincava” com aquele jogo i*****l de representação de papeis, popular nos anos 80 e 90, um tal de RPG – Role Playing Game. Então... Ali temos outra parte do quebra cabeça da verdade que foi liberada ao acaso por esses vislumbres inconscientes. A sua realidade simulada é um RPG. Cada encarnação sua é um personagem que você representa. Cada vez que você morre, você volta com um novo personagem.
— Qual a finalidade deste jogo doentio? – exclamou Eduardo.
— Bem, como eu já te disse, o homem é um vírus! Ele passa e destrói tudo ao seu bel prazer. Inúmeras espécies foram extintas pelo homem, pelo simples fato que ele acharia mais confortável daquela maneira. De início, Darwin estava correto, vocês são meras evoluções dos macacos. Entretanto, a evolução é contínua e vocês merecem uma chance. Daí está o verdadeiro jogo. Quem ganha são aqueles que conseguem evoluir tanto moralmente quanto intelectualmente por igual, numa escala desconhecida e inimaginável pelo homem. Apenas aqueles que conseguirem evoluir, passarão para a próxima camada de realidade. Os demais estão condenados a um loop infinito, um retorno eterno à vida em reencarnações intermináveis, até que possam romper a casca da realidade.
— As pessoas são reais? Todas elas? Vocês conseguiram simular a inteligência artificial?
— Sim. Nenhuma é uma inteligência artificial. A não ser os animais. Os animais são inteligências artificiais criadas para lembrá-los de onde vocês vieram, como seres irracionais, e para onde vocês podem ir com o carinho e afeto que desenvolvem por estas criaturas, o amor racional.
— Mas por que destruir tudo e acabar com este mundo, esta realidade?
— De vez em quando os indivíduos da simulação se tornam instáveis. A carga do inconsciente querendo sair, se expor e descobrir a realidade é tão grande, como no seu caso, que vocês bagunçam tudo. Tivemos problemas de perder civilizações inteiras em decorrência deste tipo de problema. Para resolver isto simplesmente “resetamos”, ou seja, reinicializamos o sistema. Destruímos seu planeta, criamos outro e transportamos suas almas para o novo. Isso pode parecer c***l, porém é apenas porque vocês ainda são muito apegados ao mundo material. Desculpe-me por te dar esta notícia Eddie, mas você é uma parte chave deste quebra cabeça. Você é uma enciclopédia da história humana. O que nos permite poder visitar a história de sua civilização sempre que precisarmos para resgatar algum conhecimento que vocês adquiriram e que precisa ser passado para frente. Sinto muito. Você é o único aprisionado eternamente nesta realidade. Se você se tornava instável, apenas apagávamos sua memória deste momento pelo processo de reencarnação. Só que esta conversa que já tivemos inúmeras e inúmeras vezes já estava se tornando insuportável, daí decidimos enviar outro para te substituir, quem sabe uma verdadeira inteligência artificial, e daí você terá a chance de romper a casca para a realidade!
— Não. Eu aceito este fardo eterno de minha imortalidade – insistiu Eduardo. — A verdade cura, porém a ignorância é uma benção.
Eddie resolveu retornar mais uma vez, ao que o Espírito da Verdade não fez objeção. O programa enciclopédia humana fez sua última viagem para o ano de 2019, como Eduardo novamente. Ligou a tela de seu computador e pensou sobre a questão da possível imutabilidade do tempo. Abriu uma música da banda de rock alternativo Pixies, tocada no filme Clube da Luta e pensou: “Não posso mudar o futuro. Mas será que posso esclarecer as pessoas sobre ele?”
Eduardo iniciou um processador de textos e começou a digitar:
“Quero espalhar a verdade para todo mundo! Tentem me parar...”
Eddie escrevia sobre tudo e duas pobres almas encarnadas despreocupadas, já senhoras, passavam lá do lado de fora de sua casa, conversando enquanto caminhavam pela calçada:
— ... Então, quem mora nessa casa já foi um advogado famoso. A esposa o abandonou, levando embora um filho pequeno e tudo mais.
— Por quê? O que houve?
— Pouco se sabe. Mas dizem que ele enlouqueceu. Ele ficou louco após um acidente de carro.
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