Depois da incrível luta, subjugados em combate, aparentemente sem nenhuma chance de vitória, só restou uma opção para Eduardo: oração! Após as preces silenciosas do jovem, o clarão surgiu. Eles sumiram daquela região trevosa, escutando um grito ensurdecedor:
— Nãooooooo!
Eduardo solicitou auxílio para Deus, pedindo permissão que seu anjo da guarda pudesse resgatá-los naquela missão. A libertação veio como solicitado. De volta ao centro espírita, Eduardo estava novamente em seu corpo material e ele viu que todos os seus colegas encarnados oravam e zelavam por todos eles. A oração deles certamente auxiliou para o caminho tranquilo de volta. Os colegas desencarnados também retornaram. O Caçador, Exú e Débora estavam ali ao lado da jovem que eles foram salvar.
— Olha só! Tá todo mundo bem, tudo certo... Até que foi bem fácil! – enfatizou Eduardo.
— Isso era pra ser fácil mesmo! Apenas uma missão de resgate! Quase que tudo deu errado ao encontrarmos quem encontramos. Se não fosse pela intervenção de nossos mestres superiores, o que seria de nós? Enfim! Aproveitei o momento de distração que vocês proporcionaram durante a luta e ajudei a pobre jovem. Ela vai com a gente para receber o tratamento devido e se encontrar com sua falecida mãe que a aguarda. Em alguns dias o pai dela receberá boas notícias – concluiu Débora, desaparecendo com Amanda do ambiente.
— Obrigado pela aventura. Começamos como inimigos, mas acredito que num futuro próximo posso até considerar chamá-los de amigos. Esbarramo-nos por aí – despediu-se Exú, retornando para sua morada também.
— Eu preciso buscar respostas. Ficou uma grande penumbra desta nossa viagem. Se pelo menos uma pequena parte daquilo que o ser das trevas disse for verdade, teremos um problemão pela frente. – O Caçador retornou para sua colônia, em busca de conhecimento.
— Eu também exijo respostas! Como pode aquele espírito maligno saber tanto sobre a gente? Sobre o que é tudo aquilo que ele falou? O que é esse negócio de Espírito da Verdade? – resmungou Eduardo.
— Você já sabe a verdade, basta usar sua habilidade de retornar para as encarnações anteriores e você saberá do que se trata! – disse Marcelo.
Fora inúmeras reencarnações em outros globos como matador ou guerreiro. Aqui na Terra o que mais chamou a atenção foram as vidas onde Eduardo fizera parte dos guerreiros espartanos! Fiel ao seu rei, lutou até o fim contra legiões inimigas e teve o triste fim pela morte com inúmeras flechadas pelo corpo e ainda por cima a cabeça decepada... Neste momento, Eduardo tocou seu pescoço quando a lembrança veio à sua mente. Sempre sentiu um enorme desconforto nesta região de seu corpo.
Anos mais tarde, retornara como um soldado, parte da milícia de Alexandre, o Grande. Conheceu o mundo. Apaixonou-se pela Ásia após a morte de seu rei. Entretanto, no início da Idade das Trevas, começaram as suas trevas também. Ao envolver-se com inúmeros médiuns malignos, chamados de feiticeiros naquela época, descobriu uma forma de contatar outros mundos. Tornou-se um rei maligno e destemido em batalha. De posse de seu conhecimento e arte de guerra, entrava em batalhas sem temer a morte. Tornou-se um imperador autoritário e destemido. Desta vez, flechas acertavam seu corpo e causavam meros arranhões. Escudos não bloqueavam seus ataques e espadas m*l tocavam seu corpo. Após espalhar muitas mortes e dor por onde passava, liderando com punho de ferro um exército tão c***l quanto seu líder, os espíritos superiores resolveram intervir em toda a bagunça que ele estava causando tanto no plano espiritual quanto no material. Assim, um nobre grupo de bons guerreiros, ajudados por estes "anjos da guarda", conseguiram emboscá-lo numa armadilha! Como a prisão não era uma escolha para aquela versão de Eduardo, levou vários daqueles heróis consigo para o túmulo em seu último suspiro de combate, tendo sua cabeça decepada novamente. Eddie levou a mão e protegeu o pescoço mais uma vez, por mero impulso.
Vários daqueles heróis estiveram presentes nestas últimas encarnações para ajudar Eduardo a evoluir, ao mesmo tempo em que protegiam o destino da humanidade, já que ele poderia retornar para o lado sombrio em que antes já estivera. Estes heróis faziam parte de sua família, seus amigos, seus amores nestas vidas. Nakata, seu melhor amigo, foi morto pelas suas mãos durante uma encarnação, logo no final da idade média. Ele, sob a alcunha de Andrey, lutou ao seu lado numa rebelião e Edward o matou para usurpar um trono que deveria ser de seu amigo. A silhueta n***a que ele viu em suas viagens, do algoz de Andrey, era o demônio senhor das trevas, influenciando as ações de Edward, através de obsessão.
Lágrimas rolaram pelos olhos de Eduardo. Entretanto tudo se encaixava. O ódio que sempre dava forças para continuar era algo realmente presente em seu coração que ainda "cheirava" a trevas. Depois de se recompor, questionou Marcelo e Carlos:
— Por que Deus permitiu tudo isto? Inclusive aquele poder incrível do demônio mestre do submundo, que cresce a cada dia?
— Tudo tem um porquê de ser nessa vida! Todos nós temos um papel importante a desempenhar. Não é à toa que há uma centelha em cada um de nós que diz que somos "os escolhidos", somos especiais, temos um papel fundamental na construção do universo. Assim como qualquer outro ser, vivente ou não, neste planeta ou nas demais esferas da criação. Todos nós devemos chegar ao nível de um espírito crístico, como é nosso Mestre Jesus – disse Marcelo.
— De início pensamos que você era o emissário dele por sua habilidade especial. Que talvez você fosse o Espírito da Verdade. Entretanto você é um ser vaidoso. Adora elogios e pode facilmente ser induzido ao lado n***o por causa deste pequeno, porém fundamental detalhe. Prepare-se primeiro! Orai e vigiai! Treine além das artes que te ensinamos, a caridade e o amor, que o restante será consequência de sua evolução. A evolução é constante, a perfeição é algo utópico que está sempre um passo à frente do homem. – complementou Carlos.
Era difícil. Lembrar-se de ter magoado o próximo inúmeras vezes. Ocasionalmente, dava a impressão que ir para o lado do m*l seria mais congruente, uma espécie de corte de caminho: "Só pra ficar mais forte mesmo, depois volto para o bem..." Mera desculpinha esfarrapada.
Em meio às memórias antigas recentemente liberadas, Eduardo começou a lembrar-se a partir dali, quando tomou a medida no passado que acabou afundando-o mais ainda.
No final da Idade Média, como Edward ainda jovem, era um dos membros da guarda particular de um poderoso imperador de algum país entre a Europa e a Arábia. Exímio combatente, logo chamou a atenção de seu senhor e passou a ser um de seus conselheiros, pois naquele local composto por guerreiros, o imperador queria especialistas em combate, auxiliando-o, mesmo ainda sendo um jovem guerreiro. Como era comum naquela época e naquele local, o imperador possuía um harém com várias concubinas ao seu dispor. Entretanto, como também já se era esperado, ele nunca estava contente e se engraçou com uma jovem de pouca idade, a mais linda do reinado. E esta se tornou sua principal esposa: a imperatriz. Lembrou-se como se fosse ontem a festa do noivado deles. Ela usava um vestido branco enfeitado com diversas pétalas de rosas e outras flores. Pele levemente morena, cabelos negros e lisos também, possuindo um "quê" de egípcio. Sim, lembrava bastante as pinturas que vemos atualmente sobre como era Cleópatra. A beleza dela e de seu corpo era tamanha que Edward, como guerreiro em que seu imperador depositava muita confiança, evitava o contato direto com os olhos da jovem rainha. Até mesmo evitava olhar na direção dela.
A festa fora regada à vinho, hidromel e até mesmo uma bebida preparada com cevada e trigo, trazida pelos povos nórdicos que ali mantinham comércio. No final da festa, o imperador ergueu sua caneca desta bebida exótica e, após um breve discurso, ordenou que um de seus melhores e mais confiantes guerreiros, um homem careca de já bem idade, porém com a ferocidade de um jovem leão, mostrasse seus talentos em combate.
Naquela noite, ele chamou um de seus desafetos. Um jovem, um pouco mais velho do que Edward, entretanto bem mais musculoso e mais alto do que seu oponente. Pensou consigo mesmo: "Que loucura! Ele não vai conseguir superar aquele gigante em combate". Entretanto seus pensamentos foram rasgados como páginas de um livro velho a esvoaçarem ao vento. O guerreiro mais antigo esquivou-se rapidamente e atingiu, com sua lâmina, os tendões dos músculos dos braços do gigante, fazendo com que este deixasse a enorme clava com duas bolas de ferro gigantescas nas pontas caírem em sua cabeça e esmagarem seu crânio. Sentiu um calafrio e um medo terrível naquele instante. Implorou aos deuses que nunca permitissem que ele enfrentasse tal oponente em combate, temendo por sua vida, que muito ainda precisava ser vivida. Apesar de tudo, a festa transcorreu normalmente, já que aquele tipo de atrocidade era comum nestes tempos.
Depois de alguns dias, percebia-se que o rei dedicava muito de seu tempo à sua nova esposa, esquecendo-se das demais. Ele chegou até mesmo a um tipo de cegueira, pois suas outras esposas traíam-no com outros guerreiros próximos dele, homens que um dia ele confiara, e ele nem mesmo percebia. Edward sentia um grande calor vindo de dentro dele, clamando por justiça, querendo fazer a coisa certa e contar para ele tudo que ocorria. Contudo temia pelos ímpetos de monarca c***l de seu chefe e suas reações daí advindas.
Como já era de esperar, o jovem coração da rainha logo começou a se cansar daquele homem velho e rude que havia esposado. Assim, sempre arrumava desculpas e motivos para brigar, podendo se esquivar de seus deveres matrimoniais. Numa destas noites de brigas do casal real, por coincidência, Edward estava de guarda, e realizava uma patrulha noturna no castelo. Para sua surpresa, foi abordado por ninguém menos que o imperador, que questionou sobre sua conduta nestes últimos tempos. Não soube por qual motivo, talvez aquele fogo clamando por justiça dentro de Edward tenha falado mais alto que seus temores, mas tomou coragem e respondeu:
— Meu senhor, o poder, a riqueza e beleza são chagas! Verdadeiras maldições da humanidade, concedidas aos homens e mulheres para sua provação, sua evolução. Entretanto, por serem tão perigosas e poderosas, um homem precisa ser verdadeiramente sábio para não ser engolido por essas dádivas divinas. – Aquelas palavras pareciam vindas da boca de Eduardo ou Edgard, sua versão ainda mais futurista, que possuíam melhor sabedoria.
— Então... O que devo fazer? Retrucou o imperador, como se naquele momento confiasse todo o seu império a Edward.
— Bem, deixe a jovem imperatriz ir embora em paz, entregue para ela um pedaço de terra ao norte para que ela fique bem distante de ti e assim possas viver novamente. Daí vire seus olhos para as demais esposas, seu império e seus súditos. Estes sim precisam de ti.
O imperador se calou e se retirou. Não soube de onde tirou tanta coragem para tal ato de bravura, mas arremessou todas as palavras entaladas em sua garganta aos ouvidos de seu senhor, torcendo para que ele tivesse escutado corretamente o verdadeiro sentido do que havia dito.
Num aparente belo dia, andando pelo mercado da cidade, Edward avistou à certa distância a jovem imperatriz disfarçada e mesclada à multidão. Ela mordia uma maçã suculenta no momento em que a encontrou. Estranhou-a sozinha ali e resolveu se aproximar para averiguar a situação. Seus sentidos de combatente falaram mais alto e percebeu um sujeito estranho e encapuzado espreitando a rainha. Seguiu a figura sombria sorrateiramente e viu que ele sacou uma pequena b***a de mão. Correu como nunca para evitar aquela calamidade e deu um encontrão no oponente, impedindo o assassinato com a queda da arma. O homem olhou fundo para Edward, ficou enraivecido e gritou:
— Guardas, este homem tentou assassinar a imperatriz. Prendam-no!
Agora, mais de perto, Edward percebeu que era o guerreiro careca mais velho do imperador. Aquele mesmo que ele temia um dia confrontar. Seus instintos fizeram o jovem retirar sua espada e se preparar para o confronto, entretanto uma facada perto de suas costelas quase apagou seus sentidos, deixando sua vista nublada. Edward foi cambaleando para trás e caiu do topo do balcão da colina do mercado, que beirava a praia da capital onde eles se encontravam. Edward desapareceu nas ondas do mar para alguns dias mais tarde acordar numa praia ali perto, quase morto, salvo por um rapaz com o nome de Andrey. Ali começaria uma revolução para transformar um império em um reinado.
Quando Edward deu por si, alguns anos mais tarde, ele estaria com o corpo de seu amigo nas mãos, enraivecido por ter descoberto que Andrey tinha um caso com a jovem imperatriz. Edward se tornou rei e se casou à força com a jovem que possuía um nome diferente nesta encarnação dos dias atuais: Samantha.