Um soco na cara do passado

1109 Palavras
Melissa Tompson Já fazia anos que eu era casada com o meu trabalho. Era naquele lugar que eu conseguia calma, que eu conseguia me achar e também conseguia lidar facilmente com todos os possíveis problemas que eu encontrava. Comandar, liderar e ordenar várias coisas para várias pessoas fazia com que a minha cabeça ficasse cheia e não pensasse em outra coisa, no fim do dia eu estava sorrindo como b***a por mais uma vez conseguir ter realizado o meu sonho de infância. Terminei de limpar a cozinha e agora amarrava a sacola de lixo para tirar para fora antes de ir embora. Emily e Demian estavam me esperando na entrada do restaurante, íamos comer pizza essa noite já que ninguém ali presente - vulgo eu - estava afim de cozinhar algo. — Viciada em trabalho. — Disse ao sair das sombras. O tom de voz era algo zombeteiro, tentando ao menos parecer um pouco suave naquele momento em que eu estava discretamente pronta para puxar o spray de pimenta caso fosse necessário. Não me entenda m*l, é que sair na rua sendo do sexo feminino às vezes é uma grande luta. Franzi o cenho, inicialmente eu não reconheci quem era, apenas quando o homem em questão saiu de seu esconderijo temporário. Gelei, parecia uma estátua de museu nesse segundo. O quê Theo Fernandes estava fazendo ali? Felizmente não estava vestido para pegar ondas em alto mar e sim com roupas "normais", uma calça jeans escura, tênis e uma camiseta vermelha com jaqueta. Em suma, Theo parecia um perfeito bad boy daqueles filmes antigos de comédia romântica. A sacola na minha mão caiu, deixando o lixo todo espalhado pelo chão. Meus olhos não saíram nem um único segundo do lugar, eles estavam fixos na figura do loiro ali na minha frente. Engoli em seco, movendo a cabeça para os lados. Eu não deixaria que ele me afetasse. Ele não tem mais nenhum efeito em mim. Respirei fundo e tentei ao máximo não tremer a voz. Você é uma mulher forte, você é uma mulher f**a para c*****o, Melissa. Não deixe que esse i****a te afeta, não novamente. Repetia o mantra mentalmente com o objetivo único de tentar me acalmar. — O quê está fazendo aqui? — perguntei. Ele se aproximou com cuidado, os olhos desviaram um tempinho para os pés para que no fim pudesse me olhar e sorrir de canto. — Eu vim conversar, acho que devemos não é? A raiva cresceu em mim, eu quase cheguei a levantar a mão prestes a bater na carinha linda de Theo, queria deixa ló ao menos um pouco ferido para me sentir um pouco melhor. Como ele se atrevia? Como ousava aparecer assim? Eu estava furiosa, mesmo que uma onda de sentimentos vinham até mim não consegui e não queria me livrar da raiva que estava comandando todos eles. Theo merecia aquilo e não o meu outro lado. — Você é um... — Eu estava prestes a cuspir o maior palavrão da face da terra, porém o volume da buzina acabou sendo um pouquinho mais alto. Soltei um suspiro baixo entre os lábios, relaxei os ombros por alguns segundos. Ele é um babaca, ele é um babaca. Lembre se disso Melissa, foi por ele que você chorou durante meses sem parar. — Não agora e não aqui, e por favor... — Falei dando alguns passos na direção oposta pronta para tomar um outro caminho, Theo felizmente não ousou em se mexer, apenas ficou quieto pronto para quem sabe levar o tapa que eu estava com uma tremenda vontade de dar em seu rosto. — Não fique atrás de mim como um psicopata, isso é assustador sabia? No segundo em que eu estava prestes a me virar e ir embora, ouvi um riso baixo que saiu dos lábios dele e então o meu corpo virou vida própria - durante uma fração de segundos - eu não respondi por mim mesma, apenas fiz aquilo que estava morrendo de vontade de fazer. Socar a cara de Theo Fernandes. E bem... Digamos que ele ficou mais surpreso do que eu. O seu rosto me olhava em choque, surpreso pela minha atitude. Uma coisa que usei para ocupar o meu tempo foi aulas de defesa pessoal. Afinal de contas, acontecia de vez ou outra eu ter que sair sozinha do restaurante e o medo que corria no meu corpo nesse instante era indescritível. Para me sentir um pouco mais segura comecei a fazer essas aulas, dessa forma ao menos não seria apenas uma alma indefesa circulando em um horário inapropriado. — Bem-vindo de volta Babaca. — Falei dando passos para perto da porta novamente, as buzinas continuaram cada vez mais altas e constantes, durante esse tempo tive vontade de xingar Demian de todos os nomes possíveis, pois, ele sabia muito bem como ser irritante e esse era uma dessas oportunidades que acontecia isso. Não esperei por uma reação ou uma fala, apenas movi o meu corpo dali o mais rápido o possível, fechando todas as portas quando sai do restaurante. Assim que sentei no banco do passageiro, Emily e Demian me encaravam. — O quê? — perguntei. — Você... — Parece que viu um fantasma ou algo assim, tá tudo bem Mel? — perguntou Demian cortando a fala de Emily no início. Forcei um sorriso. — É, só fome. — Menti. Eu não iria falar sobre o que aconteceu, pelo menos não na noite da pizza. Era um momento sagrado entre mim e os meus amigos, e nada estragaria isso, inclusive Theo arrogante Fernandes. Então digamos que foi uma mentirinha do bem, não queria estragar o clima, mesmo achando que a minha cara não tenha captado isso muito bem naquele instante. É, aquilo eu consigo disfarçar o que sinto e não o que o meu rosto expressa. Às vezes é uma droga. Eles me olharam por mais alguns segundos, depois mudaram o foco para eles mesmos e vi os meus dois melhores amigos darem de ombros no mesmo segundo. Aquilo me arrancou um riso baixo. Uma coisa era certa, eu amava aqueles dois do fundo do meu coração e nada mudaria isso. Eu era grata tanto a Demian como também a Emily que me ajudaram e muito. — Eu escolho o sabor da primeira pizza. — Declarei. Ouvi reclamações e isso só fez com que o riso na minha boca aumentasse de tamanho. Esqueci me por alguns instantes do que tinha acabado de fazer. Eu literalmente soquei a cara do meu passado e quer saber? Foi a melhor sensação que eu pude experimentar em vida, pois, conseguiu transmitir um misto maluco de adrenalina que eu precisava.
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