Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Marcela
Estou aqui, na minha estação de trabalho, cercada pela frieza implacável das minhas próprias mentiras. Cada fio dessa teia foi cuidadosamente tecido para capturar almas frágeis, vulneráveis e desesperadas. Elas vêm até mim com seus olhos brilhando de esperança, como crianças ingênuas acreditando em um conto de fadas que nunca existiu. Pobres tolas.
Elas não sabem que a riqueza que eu prometo é uma miragem, que o brilho nos meus olhos é apenas o reflexo da escuridão que habita em mim. Eu as assisto desmoronar, uma por uma, enquanto meu discurso vazio encontra solo fértil em suas mentes frágeis. Sinto o poder pulsando em minhas veias quando elas finalmente caem. É quase cômico.
Mas há algo mais. Algo que me corrói. O som das suas vozes. Suas risadas, suas perguntas insuportáveis, suas histórias sem fim... Ah, essas vozes. Elas ecoam dentro de mim como lâminas afiadas, cortando qualquer vestígio de paciência. Eu sorrio, eu concordo, mas dentro de mim a raiva ferve. Meu desejo de silenciá-las cresce a cada palavra, a cada maldita respiração.
Como podem ser tão cegas? Tão patéticas?
Elas não sabem, não fazem ideia de quem eu sou ou do que sou capaz de fazer. Acreditam que o mundo é tão simples, tão benigno. Pobres criaturas, incapazes de ver além da ilusão que eu mesma criei para aprisioná-las.
Hoje é dia de caçada. Mais uma vai cair. Ela é perfeita, quase uma caricatura do que essas idiotas acham que precisam ser: morena, cabelos negros caindo em cascata, olhos verdes como esmeraldas. Seu corpo, cheio de curvas, parece ter sido esculpido para provocar desejo. Ela acredita que vai conquistar o mundo, mas m*l sabe que já está presa na minha armadilha.
Mas não é apenas sobre ela. Não é apenas sobre essa peça. Esse jogo é muito maior. Muito mais lucrativo. O tráfico humano é uma mina de ouro, uma máquina que nunca para. Homens poderosos pagam fortunas por mulheres como ela. Alguns as querem para o prazer carnal, outros para exibir como troféus em festas exclusivas, e há ainda os que preferem algo mais... macabro.
Eu não me importo com o destino delas. Para mim, elas são números. Valores que entram e saem. A beleza dessas mulheres, a juventude, o desespero em seus olhos – tudo isso é negociável. Tudo tem um preço. Não há limites quando se trata desse negócio. As leis existem, sim, mas a quem elas realmente protegem? A mim, não. Elas estão do meu lado, desde que o dinheiro continue fluindo.
Essas mulheres são tão ingênuas que chegam a acreditar que terão algum futuro brilhante depois de assinarem seus contratos. Elas não sabem que o mundo delas acaba no momento em que entram em uma daquelas vans. Vão para países que jamais conheceram, com idiomas que nunca ouviram. E lá, elas se tornam prisioneiras. Não importa quantas vezes gritem, chorem ou implorem. Não há ninguém para ouvir.
Cada uma dessas transações me faz sentir algo que eu não sei descrever. Talvez seja o poder. Talvez seja a adrenalina de controlar cada detalhe, cada vida. Ou talvez seja apenas o prazer mórbido de ver como os sonhos delas se desintegram tão facilmente. Porque no fundo, eu sei que não sou apenas uma jogadora. Eu sou a dona do tabuleiro.
E amanhã? Amanhã outra tomará o lugar dela. Outra ingênua, outra sonhadora. O ciclo nunca termina, e eu, no centro disso tudo, prospero. Não importa quantas vidas sejam destruídas, desde que eu continue ganhando.
O que importa?
O lucro será enorme. Não importa quem se machuque no processo, não importa quem se perca. No final, tudo é sobre o dinheiro, sobre o poder que tenho ao manipular essas mentes ingênuas.
Agora é hora de partir. A garota não para de falar, sua voz ecoa na minha mente como um martelo, esmagando minha paciência a cada palavra. Quero calá-la, quero silenciá-la com um golpe, mas respiro fundo. Não posso perder o controle agora. Preciso parecer educada, manter a fachada, não chamar atenção. Isso é o que faço de melhor – enganar, manipular, até que tudo se torne irreversível.
Sinto uma vontade crescente de desferir um soco em seu rosto. Seria tão fácil, tão libertador, mas não agora. Não ainda.
Quando chegamos ao aeroporto, ela começou a fazer perguntas sobre sua identidade. Obviamente, ela já estava desconfiada. Dei a desculpa mais genérica que pude inventar no momento, algo sobre a necessidade de "protocolos" e "processos administrativos". Acredite ou não, ela engoliu. Mas sabia que minha sorte não duraria para sempre. Mulheres como ela, tão acostumadas a viver sob o domínio de suas próprias ilusões, às vezes encontram fragmentos de lucidez.
Ao chegar ao destino, a surpresa em seu rosto era evidente. Mas não respondi às perguntas incessantes sobre onde estávamos. Apenas a empurrei para fora do carro e a entreguei a Reinaldo, que estava esperando. Ele é eficiente, implacável, e minha garantia de que tudo seria resolvido. No entanto, algo deu errado.
A desgraçada me acertou um soco e fugiu. Como ela conseguiu, eu ainda não sei, mas desapareceu na escuridão da noite, como uma sombra. Agora, ela está em um país estranho, sem documentos, sem nada. Por mais que eu espere que tenha sido capturada ou que esteja morta em alguma vala, a ideia de que ela ainda esteja respirando me enche de ódio.
Se estivesse no local onde deveria estar, estaria sendo usada por homens sedentos, e o miserável que chama a si mesmo de "proprietário" estaria lucrando. É sempre assim. Mulheres entram, nunca saem, e o dinheiro flui. E o que eu ganho? Míseros 200 mil por garota.
Parece muito, não é? Mas comparado ao que eles lucram, é ridículo. Esses homens ganham milhões, talvez bilhões, enquanto eu fico com as migalhas. Sou quem constrói as armadilhas, quem caça, quem manipula. Eu deveria ser a verdadeira rainha desse negócio, mas em vez disso, sou apenas uma engrenagem.
E quando aquela garota fugiu, perdi tudo. Meu trabalho, minha comissão, minha paciência. Tenho gente por toda parte procurando por ela, até na polícia. Ela estava sendo leiloada, e o preço já havia ultrapassado qualquer coisa que eu poderia sonhar ganhar.
O "amigo" que dirige o esquema é alguém que até eu temo. Ele é insano, um sociopata que vive para o caos. E eu? Eu sou apenas um peão, mas talvez, um dia, eu tome o trono. Afinal, nessa linha de trabalho, só há uma regra: sobreviver até o próximo dia.
Infelizmente, as jovens que se encontram em sua presença enfrentam tormentos inimagináveis, enquanto ele observa, perversamente e******o, tocando-se com prazer ao testemunhar o sofrimento alheio. É uma perversão tão grotesca que ultrapassa qualquer limite de humanidade.
E como tenho esse conhecimento?
Porque antes de alcançar minha posição atual, eu também pertenci a esse grupo. Fui arrancada das ruas, capturada como uma presa fácil, e levada para a Califórnia com promessas de uma vida excepcional. Me disseram que seria tratada como uma rainha, que minha beleza seria meu maior trunfo. A doce fantasia...
O que encontrei foi um pesadelo. Abusei e fui abusada. Sofri incontáveis vezes, mas aprendi a endurecer minha alma, a sufocar qualquer fragilidade que ainda pudesse restar em mim. Não havia espaço para lágrimas, para lamentos ou revolta. Era sobreviver ou ser esmagada.
Mesmo no meio desse horror, havia compensações. Tinha um lugar para dormir, roupas bonitas para vestir, e comida suficiente para manter meu corpo funcional. Tudo era transacional, e aprendi a aceitar essa nova realidade. Do que mais eu poderia precisar? Naquela época, nem sequer me ocorria desejar algo mais. Sonhos e aspirações eram luxos que eu não podia me permitir.
Meu coração, se ainda batia, estava morto de sentimentos. Não havia amor, alegria ou tristeza — apenas uma apatia profunda. Os homens que me usavam eram, para mim, apenas corpos. Não eram pessoas, não tinham rostos ou nomes que eu quisesse lembrar. Eles eram meios para um fim. E o fim era simples: dinheiro.
Dinheiro era meu único Deus. Ele me dava poder, liberdade, controle sobre pequenas partes da minha existência. Com dinheiro, eu podia comprar qualquer coisa: roupas, jóias, comida cara, silêncio. E o mais importante: podia garantir que nunca mais dependeria de ninguém.
Com o tempo, subi na hierarquia. Não porque fosse mais forte ou mais esperta, mas porque me tornei fria, insensível, c***l. Eles perceberam. Eles me promoveram. Passei de vítima a cúmplice, de cúmplice a algo mais. E agora, aqui estou eu.
Mas essa escalada teve um preço. O que me tornei? Uma extensão do próprio sistema que me destruiu. As garotas que eu entrego aos meus algozes hoje estão onde eu já estive. Seus gritos são os mesmos que um dia saíram da minha boca, e suas lágrimas não me afetam mais. Não posso me permitir sentir.
Algumas noites, no entanto, essas lembranças me assombram. Vejo os rostos delas em sonhos. O olhar de horror, de desespero, de traição. Elas confiam em mim, e eu as lanço aos lobos. E há momentos, os poucos momentos em que a humanidade tenta surgir, em que questiono: e se fosse eu?
Mas essas fraquezas não duram muito. A verdade é simples. Se eu não fizer, outro fará. O ciclo nunca para, e quem não se adapta é engolido. Sou parte desse ciclo porque ser parte é a única maneira de sobreviver.
O poder é viciante. O controle que exerço sobre essas garotas é o mesmo que um dia outros exerceram sobre mim. É como se eu estivesse perpetuando um legado de dor, mas ao mesmo tempo, garantindo que nunca mais serei aquela garota apática, fraca, que dependia de todos.
Não importa o custo, desde que eu continue ganhando. Desde que eu continue no topo. Essa é minha verdade, minha prisão, e também meu único alívio. O que sou agora é uma criação do sistema. Uma sombra daquilo que eu poderia ter sido. E no final das contas, talvez eu nunca tenha escapado realmente. Apenas aprendi a vestir uma nova máscara.