Depois de um dia extremamente exaustivo com a equipe, tudo o que eu mais queria era ficar um tempo em paz, um tempo sem fazer absolutamente nada. Acho que todos precisam desse momento, um momento para apenas ficar encarando o teto, jogada no sofá, o momento do absoluto nada.
Estou toda esticada no meu sofá, com o notebook em meu colo, descendo a página da internet apenas para passar o tempo, estava em um site de notícias, mas nenhuma parecia relevante para mim. Antes disso eu fiz questão de fazer um FaceTime com a minha família, para atualizar eles sobre os últimos acontecimentos. Apesar de estar aqui por pouquíssimo tempo, eu estava sentindo bastante falta de ter a minha família por perto. A minha rotina na Stock Car sempre foi uma correria louca, sempre viajando para todos os lugares existentes, sempre vivendo dentro de hotéis, conhecendo diversos países, mas eu sempre tinha um destino para voltar e ele sempre foi bem pertinho da minha família. Eu poderia viajar o mundo inteiro, mas a minha casa sempre seria no mesmo país que o deles. Mas agora, as coisas são diferentes. Porque quando eu voltar para casa, ela será em outro continente.
Eles prometeram que iriam vir me visitar, assim que pudessem, acredito que isso seria na minha primeira corrida com a Voxx e para a minha sorte, ela não está tão longe.
Solto um longo suspiro e vou me esticando cada vez mais no sofá, até estar totalmente deitada. Um bocejo escapa da minha boca e eu começo a pensar seriamente em tirar um cochilo, não tinha nada melhor do que tirar um cochilo no fim de tarde. Isso é algo que eu valorizo e gosto muito!
Começo a ouvir um barulho estranho, inicialmente eu ignoro, já que ele estava bem baixo e não parecia ser nada demais. Mas em questão de segundos ele fica mais frequente, me obrigando a tirar a atenção das notícias que eu não me interessava, para procurar de onde ele estava vindo. Passo os meus olhos por toda a minha sala, mas não encontro nada.
- Deve ser algo lá fora. – resmungo para mim mesma, mas o barulho se repete e dessa vez, parece estar mais próximo.
Passo os meus olhos pelo chão da sala, até encontrar um negócio escuro se mexendo. Arregalo os meus olhos e sento no sofá na mesma hora, fecho a tela do notebook e o abraço contra o meu corpo, ficando de pé no estofado.
Meus olhos estão fixos no bicho, enquanto ele parece explorar a minha sala.
- m***a! – xingo baixo e sinto toda uma tensão invadindo o meu corpo.
Eu sei que esse é um medo ridículo e patético, que alguém do meu tamanho não deveria temer uma criatura tão pequena, mas o meu pavor de baratas é algo totalmente irracional. Não me lembro de um momento da minha vida em que esse medo não estivesse presente, eu não saberia explicar, mas entro em desespero sempre que vejo uma.
Já estou começando a sentir vontade de chorar, pensando em como eu vou sair dessa situação, porque não pretendo m***r ela, de forma alguma. Então vou ter que sair do apartamento, acho que está tudo bem se eu deixar ele para ela, até o momento em que ela quiser sumir.
Encaro a porta do apartamento, calculando quanto eu teria que andar para chegar até ela.
Se a minha mãe estivesse aqui, provavelmente estaria rindo horrores dessa minha situação.
Eu achei que vindo morar em outro país, estaria livre dessa praga, mas pelo visto, elas sempre vão me perseguir, a onde quer que eu esteja.
Mantenho a minha atenção nela e quando vejo que ela está indo para o lado oposto para onde eu pretendia ir, pulo do sofá rapidamente e praticamente corro em direção a porta do apartamento, a abrindo e saindo dele, fechando a porta atrás de mim.
Assim que percebo que estava no corredor, em uma área segura, solto todo o ar que estava segurando. E só então eu percebo o quão ridícula toda essa situação é, eu sai do meu apartamento por causa de uma barata. Caramba!
Solto um longo suspiro e vou para o outro lado do corredor, me sentando no chão e apoiando o notebook no meu colo, ainda bem que eu trouxe ele comigo.
Abro a tela e decido abrir algum streaming, para assistir uma série qualquer, eu só precisava de um passatempo.
Baratas sempre somem do nada.
Quando estou na metade do episódio da série que eu estava assistindo, ouço o barulho do elevador se aproximando e logo depois as portas se abrindo.
Droga! O Tristán acabou de chegar, vou ter que lidar com mais essa.
Permaneço com os meus olhos fixos na tela, ignorando o barulho que eu ouço vindo do meu lado direito, talvez ele me ignore também.
Ouço os seus passos e sinto o meu coração acelerando, apertando a lateral do meu notebook com uma das mãos.
Do nada os passos cessam e eu sinto o seu olhar em mim, consigo ver pela minha visão periférica ele parado em frente a porta do seu apartamento.
- Você é mesmo estranha. – comenta e solta uma risadinha baixa.
Permaneço em silêncio e ele permanece parado em seu lugar, sei que muitas perguntas estão rondando a sua mente agora e espero que ele não faça nenhuma delas.
- O que você está fazendo sentada aí, Sophie? – pergunta, depois de passar um tempo em um silêncio brutal.
Quase como se a sua curiosidade tivesse ultrapassado o seu bom senso. Tristán sabia que não era conveniente me fazer esse tipo de pergunta, mas ainda assim, estava curioso demais para simplesmente ignorar a minha ação.
Não posso nem julgá-lo, porque se eu o encontrasse sentado no corredor assim, do nada, também teria muitas perguntas a fazer.
- Só estou passando um tempo fora.
Não teria coragem de admitir a verdadeira razão de eu estar aqui, porque reconheço que isso é um pouco vergonhoso. Pelo menos quando é sobre mim. Nunca tive vergonha alheia ao saber que outras pessoas sentem medo de barata, mas morro de vergonha de admitir que eu carrego esse medo comigo. É tão bobo.
- Não sei se você sabe, Sophie. Mas existem lugares para isso, você pode ir até uma cafeteria, um bar. – ele sugere de forma debochada e eu suspiro. - Sentar do lado de fora do seu apartamento, não é passar um tempo fora.
- Obrigada pela sugestão que eu não pedi. – abano a minha mão no ar, como se estivesse o mandando embora.
- Certo. Não vou ficar discutindo com gente louca. – resmunga e destranca a porta do apartamento, entrando nele e me deixando finalmente sozinha.
Mais alguns minutos passam e o episódio que eu estava assistindo, finalmente se encerra. Acho que agora é seguro voltar para o apartamento.
Fecho a tela do notebook e levanto do chão com todo o cuidado, caminhando em passos lentos até a porta, a abro com todo cuidado, inclinando o meu rosto para conseguir ver a minha sala, aparentemente estava tudo limpo. Sinto um alívio imediato, uma pena que ele não dura muito, já que quando eu abro a porta inteira, vejo que a barata estava parada bem em frente a ela, me encarando como uma assassina, pronta para me atacar.
Solto um grito muito alto e fecho a porta com tudo, dando alguns pulinhos para trás.
Acho que é definitivo, vou ter que deixar esse apartamento para ela.
Minha respiração está acelerada e eu estou tensa dos pés a cabeça, sinto algumas partes do meu corpo formigando, como se uma barata estivesse subindo pela minha perna.
A porta do apartamento ao lado se abre e um Tristán assustado sai de dentro dele.
- O que aconteceu?! – percebo que existe uma preocupação real na sua voz e seus olhos estão fixos em mim.
- Nada, está tudo bem. – falo rapidamente e engulo seco, me afastando ainda mais do meu apartamento.
Eu não deveria ter gritado, mas não contava que iria tomar um susto tão grande com ela. Desgraçada!
- Nada? Você deu um grito muito alto, Sophie.
- Não foi nada. – abraço o notebook contra o meu peito, sentindo uma vontade imensa de chorar.
Isso é tão e******o!
Tristán se aproxima um pouco, mantendo os olhos ainda presos em meu rosto, só espero que ele não perceba que eu estou a um passo de cair no choro.
- Você não está aqui fora porque quer, não é? – pergunta baixo.
- Não. – abaixo a minha cabeça.
- Então dá para você me dizer a razão de verdade? Talvez eu possa ajudar.
Um lado meu quer muito contar, mas o outro tem medo de que isso vire uma piada para o Tristán. E se ele usar desse assunto para me atingir, e se colocar várias baratas nas minhas coisas? Existem muitas razões que me fazem pensar direitinho se pretendo contar isso para ele, ou não. Mas decido ser mais emocional do que racional.
Vou ter que arriscar.
- Uma barata. – falo meio para dentro.
- Sophie, assim não dá para entender.
- Tem uma barata lá dentro. – me encolho no lugar, já esperando pela risada que ele vai dar.
Fecho os meus olhos com força, mas a risada não vem, em nenhum momento.
Ergo os meus olhos para ele, vendo que ele estava encarando a porta do meu apartamento seriamente, não parecendo se divertir nem um pouco com a situação.
- Você não vai rir? – pergunto baixo.
- A onde ela está? – pergunta, ignorando totalmente a minha pergunta.
- Perto da porta.
Ele assente e abre a porta sem pestanejar, me afasto um pouco mais, vendo ele entrando no apartamento e achando a barata rapidamente, Tristan pisa nela com uma facilidade admirável, feito isso, ele entra totalmente no apartamento e vai até um cômodo que eu não consigo ver, voltando com um pedaço de papel na mão, ele se abaixa na frente da batata e a pega com o papel, saindo do apartamento.
- Vou jogar ela no meu lixo, para não correr o risco dela estar viva e te assustar de novo.
O encaro em total choque, estranhando completamente a maneira como ele agiu agora, como assim ele não tem nenhuma piadinha a fazer a respeito disso?
Como assim?!
Tristán se afasta em passos rápidos e antes que ele entrasse no apartamento, eu digo:
- Obrigada!
Ele assente e entra no apartamento, me deixando completamente perdida com o seu comportamento.
Por essa eu não esperava.