O som alto vindo do apartamento ao lado do meu está me impedindo de assistir a minha série. Já tinha passado da meia noite, eu estava toda embrulhada na minha coberta, maratonando Wandinha, quando a música alta começou a ressoar.
Sim, vizinho. É um ótimo momento para isso!
Inicialmente eu achei melhor apenas ignorar, mesmo porque era só aumentar o volume da minha tv e tudo ficaria bem, mas o problema é que aumentar o volume não adiantou nada e além de ouvir uma música insuportavelmente r**m, eu ainda estava tendo que ouvir as risadas altas vindo de lá, indicando que o Tristán estava muito bem acompanhado essa noite.
A pergunta que não quer calar é: Quem é a louca?
Ouvi algo caindo no chão e se quebrando, o que fez eles darem risadas mais altas. Estavam completamente bêbados.
Acho que devo isso ao adorável Tony, já que a ideia de sair para curtir tinha sido dele e agora eu teria que lidar com as consequências disso.
Me sinto derrotada ao me dar conta de que não estou prestando a atenção em mais nada que passa na minha tv, já faz uns cinco minutos, já que a minha mente está perdida em meio a tanto barulho. Eu nem sabia que podia colocar som alto em um apartamento, nesse horário. Será que nenhum vizinho vai reclamar disso? Bem, se não tem ninguém, então terá que ser eu.
Desligo a minha tv e jogo o controle contra o meu sofá, caminhando em direção ao interfone, aperto o botão do porteiro e espero alguns segundos até que ele atenda.
- Boa noite. No que posso ajudar?
- O morador do apartamento seis, está com o som ligado. Será que você pode interfonar para ele e pedir para desligar?
Eu detestava a ideia de ser a vizinha chata, que liga para reclamar do som que os outros fazem, mas se tratando do Tristán, eu tenho um certo prazer ao fazer isso, ainda mais se for levar em consideração que ele pode ter colocado som alto a essa hora, apenas para me infernizar.
Eu sei que isso soa um pouco narcisista da minha parte, já que parece que eu estou achando que o mundo gira ao meu redor e cada atitude dele é para me atingir. Mas sabendo o quão provocador o Tristán é, quando o assunto me envolve, eu não duvido de mais nada.
- Oh, sinto muito. Farei isso imediatamente!
- Obrigada!
Coloco o interfone no gancho e caminho até o meu quarto, já sentindo o sono dominando todo o meu corpo. Fecho a porta assim que entro no cômodo, jogando o meu corpo contra o colchão macio. A música não parece tão alta do meu quarto, mas em questão de segundos ela some, dando espaço para um silêncio acolhedor e confortável, sinto meus olhos pesarem e em questão de segundos estou dormindo.
Acordo com o barulho ensurdecedor do meu despertador e solto um longo resmungo frustrado, porque não tinha nada mais triste nesse mundo do que precisar acordar cedo para trabalhar, ainda mais quando você precisa fazer uma parte do seu trabalho que não gosta. Eu detesto as partes burocráticas de ser uma pilota, detesto as enormes reuniões para discutir como será a próxima temporada, que sempre duram horas! Eu detesto tudo isso!
Eu só acordo feliz para trabalhar quando é dia de corrida, o que ainda está um pouco longe, então imagina o quanto a minha mente está agora. Estico o meu braço e agarro o celular, parando o despertador na mesma hora. Enfiando a minha cara contra o travesseiro e dizendo para mim mesma que eu só precisava de mais cinco minutos, apenas cinco.
Esse era o método que eu utilizava quando ainda ia para a escola, o despertador tocava, eu desligava ele e ficava deitada por mais um tempo, tentando criar força e coragem para enfrentar o dia que eu teria pela frente.
Não sou uma pessoa muito matinal e não tenho prazer algum em acordar cedo. Nem saberia dizer se alguém em sã consciência tem, porque para mim, essa pessoa é maluca.
A última vez que eu me senti genuinamente feliz por ter que acordar cedo, foi quando eu ainda era criança e acordava cedo aos sábados para ir até a sala assistir os meus desenhos animados. Época boa!
Entendo que o meu tempo já encerrou e me levanto da cama, indo direto para o banheiro, eu precisava de um banho. Logo pela manhã eu já teria que enfrentar uma reunião com toda a Voxx e eu não saberia dizer em palavras o quanto eu estava infeliz com isso. Fazer uma reunião de manhã é pedir para que eu durma.
Ligo o chuveiro na temperatura mais fria que tem e me enfio embaixo da água de uma só vez, sem me dar tempo de pensar muito no que estava fazendo, porque se eu pensasse, com toda a certeza desistiria no mesmo segundo.
No primeiro momento eu não sinto muito a temperatura da água, mas na medida em que meu corpo vai esfriando, eu começo a pular para me aquecer, sentindo que meu corpo despertou.
Banhos gelados são os melhores para isso!
Termino o meu em menos de cinco minutos, aguentando o máximo que deu. Me enrolo inteira na toalha, enxugando o meu corpo o mais rápido que eu consigo, voltando para o meu quarto.
Visto uma calça jeans skinny, uma blusa fininha de manga cumprida e a jaqueta da Voxx por cima. Estava ótimo!
Pego as minhas coisas e vou em direção a cozinha, ligando a cafeteira para fazer o meu café, coloco o líquido escuro no meu corpo térmico e fecho ele, saindo do apartamento. A uns dois passos de distância do elevador, eu ouço a porta do meu vizinho se abrindo, caramba! Acelero os meus passos e entro no elevador, apertando o botão correspondente ao estacionamento. Confesso que eu torço para as portas se fecharem, antes que ele consiga entrar, mas obviamente isso não acontece.
Uma mulher surge diante dos meus olhos e ela entra rapidamente na caixa de aço, completamente sozinha.
Ok... Por essa eu não esperava.
Quer dizer, eu sabia que o Tristán estava acompanhado, mas não imaginei que iria encontrar com a sua conquista logo pela manhã. Ela aperta o botão do térreo.
- Bom dia. – fala gentil e eu me dou a permissão de olhar para ela, me surpreendendo com o quão linda ela é.
Como alguém como o Tristán conseguiu ficar com uma mulher tão gata?
- Bom dia!
- Você é a outra pilota da Voxx? – pergunta educada.
- Sim.
- Tristán me falou sobre você bêbado.
A encaro com a minha melhor feição de: Quê?
Já que a sua fala não fazia sentido algum na minha cabeça. Por qual razão ele se lembraria de mim bêbado? Se eu estivesse bêbada, ele seria a última pessoa de quem eu falaria.
- Eu sei que isso soou estranho, me deixe reformular, ele disse que iria colocar o som alto para irritar você.
Ah! Isso me parece bastante lógico. Viu? Eu sabia que aquela música alta, do nada, poderia ser uma provocação velada. É muito bom conhecer bem os seus inimigos.
Não que eu mereça muito esse mérito, já que o Tristán é totalmente previsível.
- Isso não me surpreende muito. – solto uma risada baixa e encaro o visor que indicava os andares em que nós estávamos.
- Eu sinto muito por isso! Não teria feito parte daquilo se estivesse sóbria.
- Não se preocupe, está tudo bem.
Ela assente.
O andar onde ela desceria chega e seus olhos estão em mim, enquanto ela segura a alça da sua bolsa firmemente.
- Foi um prazer te conhecer.
- O prazer foi meu.
Ela assente e sai do elevador, observo o seu corpo enquanto ela se afasta e fico verdadeiramente chocada com a situação, ela era linda demais e parecia ser areia demais para o caminhãozinho do Tristán. Tudo bem que ele não é de se jogar fora, mas é tão insuportável...
Saio do elevador em passos rápidos e caminho até o meu carro, assim que entro nele, ajeito o copo no porta copos e dou partida, saindo da minha vaga em questão de segundos. O caminho até o prédio da Voxx é feito em poucos minutos, estaciono o carro no estacionamento e entro no prédio, indo diretamente para o elevador e apertando o botão correspondente ao andar onde ficavam as salas de reuniões. Assim que o elevador chega no andar, eu já avisto alguns membros da equipe sentados na mesa de uma das salas, empurro a porta de vidro, recebendo os olhares de todos. Lauren acena para mim e indica o lugar vago ao seu lado, caminho até ele e me sento, dando um gole no meu café.
- Bom dia, Sophie!
- Bom dia. – falo com bem menos entusiasmo.
- Eu que estou de ressaca e é você quem está nesse desânimo todo. – ela comenta e eu solto um suspiro, porque não tinha como discordar do que foi dito por ela, já que não tinha nada em sua aparência que indicasse uma ressaca, ela estava plena.
- Eu não funciono muito bem de manhã, preciso de no mínimo uma hora para acordar totalmente. – resmungo e bebo mais um gole do meu café.
- Sério? Nossa, eu amo acordar cedo, parece que o dia dura muito mais.
A encaro em total choque.
- Você é estranha. – murmuro e ela ri.
Observo as pessoas que estavam na mesa, acenando para o Lorenzo e para o Edward. Foco toda a minha atenção no meu café, enquanto ouço várias conversas cruzadas pela mesa entre os funcionários, aos poucos todos vão chegando e a sala vai ficando cada vez mais cheia. A mesa gigantesca, vai parecendo cada vez menor.
Quando o Thomas entra na sala, um silêncio domina todo o ambiente. Ele se sentar na cadeira da ponta e passa os olhos por todos os presentes.
- Acho que podemos começ...- ele deixa a frase morrer em sua boca e eu vejo o seu cenho se franzir. – A onde está o Tristán? – por alguma razão, os seus olhos cravam em mim, como se ele me dissesse de modo sutil que eu deveria ter essa informação.
Eu sei que nós somos vizinhos, mas eu não faço ideia de onde ele está a essa hora. Talvez esteja dormindo, sei lá.
A minha resposta para o Thomas é um subir de ombros, porque eu não tinha mesmo essa informação.
Ele estala a língua no céu da boca e passa os olhos pelo restante da equipe.
- Alguém sabe onde ele está?
Todos negam com a cabeça e ele suspira.
- Ele foi avisado sobre essa reunião? – pergunta para um dos assessores, que concorda na mesma hora. – Como ele pode se atrasar para uma reunião como essa?
Como mágica, o Tristán surge na sala, abrindo a porta e atraindo a atenção de todos para si.
- Me desculpem pelo atraso, eu dormi demais. – seu rosto estava todo amassado, assim como a sua roupa. E tudo nele indicava a sua ressaca e como a noite anterior tinha sido mais animada do que deveria, ele mesmo estava se entregando.
- Farra no dia anterior de uma reunião importante, Tristán? Você só pode estar de brincadeira! – o descontentamento está bem presente na voz do Thomas.
- Isso não vai se repetir. – fala meio contrariado, se sentando no último lugar vago existente na mesa, bem na minha frente.
- Estou contando com isso. Todos aqui são profissionais e você também tem que ser. – Thomas fala severamente e solta um pigarro. – Então vamos começar essa reunião de uma vez.
Ver o Tristán tomando um esporro do nosso chefe me deu uma satisfação bastante parecida com a que eu tinha quando os meus pais brigavam com os meus irmãos.
É bom ver que agora ele está sendo comandado por uma pessoa de pulso firme, que não terá medo algum de puxar a sua orelha quando necessário. Algo que ele não tinha em sua equipe anterior.
- Você deveria disfarçar melhor a sua felicidade com esse sermão que eu levei. - ele sibila, assim que eu olho para o seu rosto.
Dou um sorriso de lado e desvio os olhos dele. Não tem como disfarçar algo assim.